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Vamos falar de cinema e de outras coisas também. Para entender o mundo através dos filmes, com Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara.

42 - Camilo e "Memórias do Cárcere": não andávamos a precisar de um filme português assim?
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  • 42 - Camilo e "Memórias do Cárcere": não andávamos a precisar de um filme português assim?

    Um produtor, Paulo Branco, um realizador, Sérgio Graciano, e um director de fotografia, João Ribeiro, inventam, em Memórias do Cárcere, uma tradição que não existe cá, que nunca existiu: a do filme de artesão.

    É um pequeno apogeu de artesanato à medida de uma unidade de produção dos tempos antigos que se transcende nos décors, na direcção de actores, na fotografia — uma espectadora dizia à saída do filme: “Olha-se para o ecrã e é tudo bom”, forma mais qualitativa do que quantitativa, também menos fria e mais filosófica, de significar “valores de produção”.

    Corresponde àquilo que é sempre incensado quando se trata por exemplo de cinema americano — o chamado “filme de artesão”, que faz babar, e justamente, muitos —, mas que, num sistema essencialmente autoral, que se afirmou com protótipos, como o português, acaba encarado como despromoção. Por parte de uma certa crítica. Não sendo seguro igualmente que os espectadores portugueses quebrem a sua inquebrantável desconfiança e ignorância em relação ao cinema feito em Portugal, onde, pelos vistos, o que funciona nas bilheteiras é a declinação revisteira.

    Camilo (Albano Jerónimo) e a sua amada Ana Plácido (Maria João Bastos) caíram em desgraça, estão na prisão, na cadeia da Relação do Porto, acusados do crime de adultério. Isto não é revista. As imagens têm densidade e memória. Vale a pena tentar, asseguramos. Realismo e romanesco, filme de casal e história de fantasmas.

    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.

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    Fri, 23 Oct 2026
  • 41 - O cinema pode fazer mal? Até onde pode ir? Filmes “malditos”, parte II

    O cinema faz mal? Pôr uma criança de 12 anos, a idade de Brooke Shields em 1978, a fazer um papel altamente sexualizado como o que fez em Pretty Baby é difícil de aceitar hoje?

    Neste episódio de No Escuro voltamos aos filmes "malditos" a pretexto do regresso algo tonitruante em terras de Sua Majestade de The Devils, filme de Ken Russell. Até hoje só tinham circulado cópias truncadas, e uma cena em particular, conhecida como a "violação de Cristo", tornou-se mítica precisamente porque nunca fora vista. Volta agora aos cinemas britânicos, esse filme com odor blasfemo, passados 50 anos da estreia (algum distribuidor em Portugal se interessará?). É a versão original, como o realizador a concebeu. Procede-se simultaneamente a uma revisão do lugar de Russell no cinema britânico e internacional, ele que foi sempre liminarmente recusado pela crítica que o recebia com mimos como "grotesco"; agora, depois de morto, está a ser bafejado pelo trabalho escultural do tempo.

    Mas serão os espectadores de 2026 semelhantes aos da década de 70, ou seja, aventureiros e dispostos a serem violentados?

    Partimos do The Devils—​filme que teve Derek Jarman na equipa de direcção artística—​ para mais uma viagem (que já tínhamos iniciado no episódio anterior) por obras que causaram escândalo e fascínio, repulsa e admiração, simultaneamente. Obras que, pelo sexo, pela violência, pelo horror, pela denúncia de instituições como a Igreja, exploraram os limites do que pode ser mostrado e quiseram ir aonde nenhum filme tinha ido antes.

    Recuamos até aos anos 1930, em que Freaks, de Tod Browning, expõe os "monstros" para dizer que, afinal, os monstros somos nós. Mas centramo-nos nos anos 70, a década que mais convenções desafiou. E terminamos em 2003, com The Brown Bunny, filme com uma famosa cena de sexo oral não simulada que, contra todas as previsões anunciadas, não destruiu a carreira de Clöe Sevigny.

    Neste episódio, os filmes de que falamos são:

    Freaks, de Tod Browning (1932)

    The Devils, de Ken Russell (1971)

    Cães de Palha, de Sam Peckinpah (1971)

    Pink Flamingos, John Waters (1972)

    O Exorcista, de William Friedkin (1973)

    Pretty Baby, de Louis Malle (1978)

    O Bebé de Mâcon, de Peter Greenaway (1993)

    Kids, de Larry Clark (1995)

    The Brown Bunny, de Vincent Gallo (2003)

    No episódio anterior falámos de:

    O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith (1915)

    Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)

    O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)

    Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)

    Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)

    O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)

    Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard (1985)

    Veludo Azul, de David Lynch (1986)

    A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)

    No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.

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    Fri, 16 Oct 2026
  • 40 - A manteiga, o ovo, os “malditos”: de "O Último Tango em Paris" a "O Império dos Sentidos"

    Não têm uma história na escola, quando, no recreio, entre miúdos como vocês, alguém se atreveu com "a cena da manteiga" por causa de um filme chamado O Último Tango em Paris, título aliás que não emitia nada de lascivo?

    São mais novos do que isso...

    E a "cena do ovo" de O Império dos Sentidos? E Singin' in the Rain e as violações, ou a violência e uma sinfonia de Beethoven, em Laranja Mecânica,mais as longas pestanas de Alex DeLarge e um medo que fechava as portas sempre que, a partir de então, se olhava para Malcolm McDowell?

    E os distúrbios na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, por causa da programada exibição de Je Vous Salue Marie, de Godard? Levou à mobilização de grupos católicos conservadores no edifício da Rua Barata Salgueiro, fúria liderada pelo então presidente da câmara Nuno Abecassis, pretendendo "escaqueirar" tudo se a programação fosse avante (ele que já tinha escaqueirado o clássico cinema Monumental...).

    A memória também é uma construção. Mesmo quem não esteve lá, mesmo quem não tenha testado os pais com "e o que é a cena da manteiga?", herdou um património. É sobre isso este episódio de No Escuro: a forma como os "filmes escandalosos" são parte das nossas vidas, constituem-nos. Por isso a deflagração de emoções quando ouvimos o saxofone de Gato Barbieri, que assombrava o genérico, com as pinturas de Francis Bacon, n'OÚltimo Tango... ,a carícia, que é a voz de Pierre Bachelet, no tema de Emmanuelleou a insinuante melodia de Blue Velvet que Bobby Vinton transforma em garrote.

    Foi com essas conquistas do cinema sobre os limites do que podia ser mostrado que nos tornámos novos espectadores. O "escândalo" é como o ginásio: provoca dores, rasga, e por isso o músculo cresce. Evocações deliciosas que raiam o mito: atravessava-se a fronteira para ir a França ver um filme, O ÚltimoTango..., porque a censura, em Portugal ou em Espanha, não autorizara a estreia.

    A matéria é vasta. Até porque os escândalos se reeditam: se a manteiga é velha, recente é a "descoberta" de que a actriz Maria Schneider não sabia que com ela iria ser barrada por Marlon Brando na sequência da violação, o que tornou O Último Tango em Paris,de novo, um símbolo. De sinal contrário, desta vez, ao da liberdade ou da quebra de tabus. Questiona-se agora os limites da criação: até onde pode ir um filme?

    Dedicaremos duas jornadas ao assunto. Neste episódio evocamos:

    O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith (1915)

    Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)

    O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)

    Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)

    Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)

    O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)

    Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard (1985)

    Veludo Azul, de David Lynch (1986)

    A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)

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    Fri, 09 Oct 2026
  • 39 - Desta vez, com "Digger", Tom Cruise estatela-se?

    Uma pergunta e uma incontida melancolia: porque é que Tom Cruise não é um actor de "filmes normais", de comédias românticas ou de pequenos, serenos melodramas?

    Porque é que cada projecto tem de equivaler a uma proeza, como se fosse um mergulho no Grand Canyon ou um voo planado a partir do Empire State Building?

    Porque é que um filme com Tom Cruise se reconduz sempre à exibição de um solo? (saudades de A Cor do Dinheiro).

    Porque é que está sempre em causa a salvação do cinema?

    É o que nos perguntamos neste episódio de No Escuro, na semana em que estreia Digger, o filme que à fome (de Cruise) junta a vontade de comer (de Alejandro González Iñárritu): o sublinhado, o sentencioso, o grotesco.

    E eis como Digger,em que o actor interpreta um milionário e o mundo está a braços com a catástrofe climática, está já a dividir. Talvez por essa Tom não esperasse, ele que, entre outras coisas, é um salteador da arca perdida do consenso.

    Depois de verem o filme e de ouvirem este episódio do podcast, digam se concordam connosco neste, mas também pode ser noutro, ponto: "Viva Riz Ahmed!"

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    Fri, 02 Oct 2026
  • 38 - Estreia. "O Homem Que Matou Duas Vezes". Episódio 1: O Apelo

    Um homem mata uma ex-namorada. Uma amiga da vítima pede que se averigue o que falhou, uma vez que ele já antes matara uma ex-namorada, cumprira pena de prisão e estava ainda em liberdade condicional. O que falhou?

    O Homem Que Matou Duas Vezesé uma investigação de Ana Cristina Pereira, que escreveu os guiões e faz a narração, com produção de Inês Rocha, revisão de Inês Rocha e Sara de Melo Rocha, sonoplastia de Margarida Adão, música do genérico de Tiago Orato, ilustrações de José Carvalheiro e produção executiva de Amílcar Correia.

    A série narrativa, de sete episódios, vai além da reconstrução dos crimes cometidos por João Pedro Oliveira. Recupera a história das vítimas e do homem que as matou ao mesmo tempo que escrutina o sistema.

    Para conhecer a história toda, ouça os próximos seis episódios. 

    Se precisa de ajuda, ligue para o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica da CIG: 800 202 148. Ou para a linha de Apoio à Vítima da APAV: 116 006.

    Outros créditos: som recolhido em manifestação em Lisboa, em 2024, de grupo de mulheres a cantar Canción Sin Miedo, com música e letra de Vivir Quintana; trailer Retrato de Dorian Gray, filme de 2009, realizado por Oliver Parker, com guião de Toby Finlay, a partir da obra homónima de Oscar Wilde.

     

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    Wed, 30 Sep 2026
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