Podcasts by Category
- 255 - André Singer: Esquerda deve continuar em frente democrática sem deixar de ser esquerda
Resistir à onda reacionária que avança no Brasil e no mundo, diz o cientista político André Singer, depende de novas formas de organização de classe. Sem o engajamento político dos trabalhadores, o regime democrático tende a se esvaziar e a esfera pública, se dissolver.
Essa interpretação é desenvolvida no recém-lançado "Impasse", que propõe que a coalizão formada ao redor de Lula (PT) na última eleição vive uma contradição: a construção de uma frente democrática ampla foi indispensável, mas, por reunir grupos sociais com interesses antagônicos, pode se fraturar.
Do lado de cima, estão elites econômicas que defendem um programa de austeridade fiscal e diminuição do tamanho do Estado. Do lado de baixo, trabalhadores que esperavam uma melhoria nas condições de vida como nos primeiros mandatos de Lula, o que demanda mais investimento social, e se frustam com os resultados do governo.
Para Singer, o melhor que a esquerda pode fazer nessa conjuntura é se opor à política econômica neoliberal —defendendo a revisão do arcabouço fiscal e a queda dos juros, por exemplo— sem deixar a frente democrática.
Nesta entrevista, o pesquisador também aborda os desdobramentos desse impasse na campanha eleitoral, como a oscilação do grupo com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos entre Lula e o Flávio Bolsonaro (PL).
André Singer é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e foi porta-voz e secretário de imprensa da Presidência da República entre 2003 e 2007, nos primeiros mandatos de Lula. Ele é autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo", de 2012, uma das obras mais influentes sobre os governos do PT e as transformações da base social do partido.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 19 Sep 2026 - 254 - Renato Meirelles: Mulheres pobres adoram Lula, mas só Michelle fala de igual para igual
A classe C abarca 107 milhões de pessoas e expressa como nenhum outro grupo as dinâmicas da sociedade brasileira, não só por ser a maioria da população ou por estar no meio da distribuição de renda.
Renato Meirelles apresenta esse argumento no seu novo livro, que discute as transformações da classe C nos últimos 25 anos e explora, entre outros temas, os seus hábitos de consumo, as suas inclinações políticas e os seus valores sociais.
Em "Brasil da Maioria", ele diz que o conservadorismo da classe C é real, mas muito mais empático com quem tem que lidar com os reveses do dia a dia e avesso a soluções punitivistas.
Meirelles, que pesquisa o comportamento das pessoas de baixa renda no Brasil desde o começo dos anos 2000, destaca o pragmatismo político da classe C: a divisão ideológica entre direita e esquerda, ele afirma, é muito menos importante que conseguir encontrar uma creche para os filhos ou ser atendido no posto de saúde.
Neste episódio, o pesquisador fala sobre como a classe C concebe a sua prosperidade material, explica o que esse grupo espera do Estado e diz que tanto a direita quanto a esquerda têm dificuldades em entender os desejos dessas pessoas.
Para Meirelles, o mau humor atual de boa parte da classe C com a economia brasileira é mais capturado pelo bolsonarismo que por Lula na campanha eleitoral. Por outro lado, pautas como o fim da escala 6x1, que dialogam com a ideia de empoderamento do trabalhador, e o voto das mulheres, que tendem a rejeitar o radicalismo e são mais sensíveis à qualidade dos serviços públicos, favorecem o campo do presidente.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 05 Sep 2026 - 253 - Anita Prestes: Como o anticomunismo deturpou a trajetória de Luiz Carlos Prestes
Luiz Carlos Prestes foi acusado de mandonismo, incompetência —incluindo mediocridade como estrategista militar— inabilidade política, agressividade, vaidade, personalismo e dogmatismo, além de agente de Moscou.
As qualificações são citadas em "Entre Memória e História", o livro mais recente de Anita Prestes, filha do líder comunista e professora aposentada da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
A historiadora, que completa 90 anos em novembro, nasceu em uma prisão nazista antes de Olga Benário, a sua mãe, ser assassinada em um campo de concentração e passou a infância no México e a adolescência na URSS.
Depois de um período de exílio na URSS durante a ditadura militar, Anita passou a pesquisar a trajetória política de Prestes e a história do PCB (Partido Comunista Brasileiro), do qual foi uma das dirigentes.
Prestes ganhou status de personagem de peso da política nacional muito jovem, nos anos 1920, por ter comandado a coluna que percorreu o interior do país e virou um marco do movimento tenentista. Já a partir da década de 1930, Anita diz, o pai passou a ser perseguido pela adesão ao comunismo e pela filiação ao PCB.
Para a autora, as representações do líder comunista costumam distorcer os fatos —ou falsificando ou silenciando a trajetória de Prestes, morto em 1990—, algo que atribui à força do anticomunismo no Brasil.
Neste episódio, a pesquisadora fala sobre alguns episódios controversos da biografia de Prestes, como a participação na Intentona de 1935, e discute as concepções equivocadas do PCB sobre a realidade brasileira.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 22 Aug 2026 - 252 - Ronaldo Lemos: IA captura coração, corpo e mente e pode nos emburrecer
A inteligência artificial e plataformas de big techs tentam capturar a nossa mente, e tantas pessoas —hipnotizadas pela rolagem infinita e pela montanha-russa emocional criada pelas telas— perdem o controle das próprias vidas.
No recém-lançado "O Monge, o Iogue e o Faquir", Ronaldo Lemos discute esse cenário a partir da metáfora de uma carruagem desgovernada, em que as suas partes —o corpo, as emoções e a mente— são cooptadas pela tecnologia, o que rompe o equilíbrio necessário para ser bem conduzida.
Neste episódio, Lemos fala sobre os três arquétipos do título do livro, inspirados em tradições espirituais da China, da Índia e do Ocidente, e aponta caminhos para cultivar o faquir, o monge e o iogue no interior de toda pessoa.
O autor defende que é preciso resistir à guerra do Vale do Silício contra a introspecção e se opõe às ideologias que prometem, por exemplo, que a IA vai criar um mundo de abundância universal.
Lemos sustenta que não existem trocas reais entre a IA e os humanos, por mais que as máquinas sejam ótimas ilusionistas e tentem convencer do contrário. Por isso, não ache que uma IA pode ser a sua namorada ou a sua terapeuta. Também não é bom pensar em terceirizar o raciocínio para elas: em vez de virar um super-herói da produtividade, ele diz, é mais provável fritar o cérebro e ficar burro.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 08 Aug 2026 - 251 - Dora Kaufman e Giselle Beiguelman: Criatividade brasileira pode reinventar IA
A IA vai dizimar o trabalho dos artistas e acabar com a arte? Ou nunca vai ser capaz de substituir os humanos porque as nossas mentes são, supostamente, excepcionais? Para Dora Kaufman e Giselle Beiguelman discutir as relações entre arte e IA nesses termos não faz sentido.
Em "Tecnologias da Invenção", as autoras se recusam a contrapor pessoas e máquinas. Em vez disso, propõem que uma análise mais sofisticada deve levar em consideração que, há décadas, é impossível separar criatividade humana e tecnologia no terreno da criação artística e que a IA, com uma lógica de funcionamento e vieses próprios, muda os termos desse entrelaçamento.
O livro traz conversas com artistas e o psicanalista Christian Dunker —os entrevistados falam sobre como usam chatbots e outras aplicações em seu processo criativo—, e as pesquisadoras defendem que a arte com IA não é só uma possibilidade, mas uma realidade atual.
Kaufman e Beiguelman lembram que as bases de dados usadas para treinar IAs carregam as marcas do colonialismo e que big techs dos Estados Unidos e da China dominam o desenvolvimento da tecnologia. Ao mesmo tempo, indicam que a IA abre espaço para práticas artísticas que contestam essa ordem social e repensam o mundo de hoje.
Na entrevista, as autoras também destacam o horizonte de precarização do trabalho e o papel do Brasil nesse cenário: o país, afirmam, pode se tornar uma fazenda de data centers ou virar a chave para produzir soluções que impulsionem a nossa diversidade cultural.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 25 Jul 2026 - 250 - Djamila Ribeiro: Lugar de fala não se reduz a 'pode não pode'
Alguém escreve um comentário em uma rede social e logo recebe a resposta: "Você não tem lugar de fala para isso". Afirmações desse tipo se tornaram comuns nos últimos anos.
A publicação de "Lugar de Fala", em 2017, é o grande marco desse debate no Brasil, mas a ideia nunca foi proibir que homens ou pessoas brancas e privilegiadas tratassem de outros universos sociais —por exemplo, escrevendo obras de ficção com personagens negros e mulheres.
É isso que Djamila Ribeiro, autora do livro, defende neste episódio. A obra acaba de voltar às livrarias em uma edição revista e ampliada.
Para a escritora, coordenadora da coleção Feminismos Plurais e colunista da Folha, a popularização do termo foi acompanhada de muitas interpretações equivocadas, como a que reduz a noção a um debate sobre quem pode e quem não pode se manifestar.
Na entrevista, Djamila diz que a proposta de lugar de fala é sublinhar as relações de poder que fizeram com que um grupo muito restrito de pessoas pudesse falar e ser ouvido ao longo da história, além de lembrar que outros sujeitos, como intelectuais negras, também produziram um conhecimento que, mesmo indispensável, foi deixado de lado por muito tempo.
A autora também faz um balanço do retrocesso da agenda de diversidade e inclusão nos últimos anos e explica por que considera que termo "pessoas que menstruam" ofensivo para as mulheres, tema que lhe rendeu acusações de transfobia.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 11 Jul 2026 - 249 - Jairo Nicolau: Eleitores com ensino médio, mulheres e paulistas devem decidir a eleição
Tudo muda muito rápido no cenário eleitoral. Os analistas de política, diz Jairo Nicolau, são um pouco como os comentaristas de futebol: especulam sobre o que vai acontecer e, às vezes, precisam voltar atrás.
O seu novo livro, "O País Dividido", não escapou totalmente dessa armadilha. O pesquisador diz que, quando entregou o original para a editora, via uma possibilidade de arrefecimento da polarização nas eleições deste ano, algo que agora parece distante em uma disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT).
No entanto, em vez de se concentrar na conjuntura eleitoral, a obra tem outro espírito. Jairo, professor titular do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV (Fundação Getúlio Vargas), documenta as mudanças demográficas do país e as transformações da base social do PT e da direita entre 2002 e 2022, se debruçando sobre o segundo turno das eleições presidenciais.
O trabalho ilumina questões essenciais para entender a evolução do voto no Brasil nas últimas duas décadas. Em relação às disputas de 2018 e 2022, o cientista político mostra a força de Fernando Haddad e de Lula entre as mulheres pretas e pardas, o apoio maciço de homens brancos e escolarizados a Jair Bolsonaro e a consolidação do eleitorado com ensino médio como bastião da direita e da extrema direita.
Nesta entrevista, o autor fala sobre as tendências da polarização política no Brasil e, a partir dos movimentos que analisa no livro, diz que as mulheres, as pessoas com ensino médio e os paulistas devem definir quem vai ser o próximo presidente —mas reconhece que isso envolve um tanto de especulação.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 27 Jun 2026 - 248 - Paula Sibilia: Por que desejamos o tempo todo e nunca estamos satisfeitos
Todo o mundo mente, escreve a antropóloga Paula Sibilia, mas existe uma diferença fundamental entre os hipócritas e os cínicos.
Os hipócritas partem da premissa de que existe uma verdade e que devem seguir regras de convívio social —tentam esconder as transgressões porque, no fundo, acreditam que mentir não é certo.
Já os cínicos rejeitam completamente essa moralidade: não fingem que respeitam leis ou normas que nunca valeram para todo o mundo e sentem que têm o direito de adotar até discursos violentos —e ainda podem receber aplausos por serem vistos como autênticos ou sinceros.
Sibilia, ensaísta argentina e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), recorre às noções de hipocrisia e cinismo para debater a mudança, nas últimas décadas, do solo moral em que a vida social está enraizada.
No recém-lançado "Eu Mereço", a pesquisadora se debruça sobre a erosão das engrenagens subjetivas da modernidade e o fortalecimento de uma moralidade consumista e individualista desde os anos 1960, período em que um eu empoderado passou a ser estimulado a desejar o tempo todo em vez de ser reprimido em nome do funcionamento da sociedade.
Neste episódio, Sibilia fala sobre o papel das tecnologias digitais nesse processo —que, para ela, são muito mais que só causa ou só reflexo das sociabilidades atuais— e discute os novos tipos de sofrimento psíquico que ganham força no mundo de hoje.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 13 Jun 2026 - 247 - Adriana Negreiros: Dercy Gonçalves foi heroína decolonial pioneira
Ao ouvir o nome Dercy, uma imagem costuma vir à cabeça: uma mulher de 70 ou 80 anos dizendo absurdos e emendando palavrões na televisão —ou mostrando os seios no programa de Hebe Camargo.
Não dá para fugir da caricatura de velha escrachada e indecente ao pensar em Dercy Gonçalvez. Ao mesmo tempo, não dá para reduzir a comediante, que morreu aos 101 anos em 2008, a essa personagem que se tornou inconfundível.
Neste episódio, Adriana Negreiros, autora da biografia "Dercy: a Diva Debochada", faz essa distinção e fala sobre as tantas contradições da atriz, que teve uma vida marcada pela tragédia e pela violência e encontrou no humor uma salvação.
Para a autora, poucos artistas brasileiros construíram uma relação tão visceral com o público como Dercy Gonçalves, mas a pecha de comediante imoral ou pornográfica impediu que a sua genialidade fosse reconhecida.
Negreiros fala sobre a postura anti-intelectual da atriz, artista da improvisação que era vista como rebelde nos palcos e dizia ter sido formada pela realidade dura do Brasil, não por qualquer influência europeia.
A autora também discute as posições preconceituosas de Dercy a respeito de feministas e pessoas LGBTQIA+, por exemplo, que contrastavam com boa parte das atitudes dela ao longo da vida, e explica por que a considera uma heroína decolonial pioneira.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 23 May 2026 - 246 - Bruno Blecher: Agronegócio agora vê mudança climática como risco
Bruno Blecher, que acaba de lançar "O Sertão É o Mundo: Histórias de um Repórter Rural", é o convidado do Ilustríssima Conversa desta semana.
O livro reúne 35 artigos e reportagens publicados nos últimos 40 anos e testemunha a trajetória do autor na cobertura de temas relacionados ao campo. Blecher passou pela Redação de veículos como Globo Rural e O Estado de S. Paulo e editou o Agrofolha, suplemento agrícola da Folha, nos anos 1990.
Os textos da coletânea documentam como a agricultura brasileira se transformou profundamente nas últimas décadas, destacando, por exemplo, as inovações tecnológicas que abriram o cerrado para as grandes fazendas de soja e permitiram o aumento da produtividade agrícola do país.
Neste episódio, Blecher fala sobre o conservadorismo dos líderes do agronegócio brasileiro e sobre como o setor vem se posicionando frente às mudanças climáticas —seja avançando em práticas mais recomendadas do ponto de vista ambiental, seja se mantendo fiel a um modelo predatório de produção.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 09 May 2026 - 245 - Benjamin Moser: Nem Rembrandt ou Vermeer sabiam o destino que teriam
O escritor Benjamin Moser diz que se mudar para um país desconhecido é como passar a viver em um mundo invertido. "No começo, você não sabe para onde olhar. Não sabe onde está nem o que está olhando. Não sabe nem por onde começar", ele escreve na introdução de "O Mundo de Ponta-cabeça", agora lançado no Brasil.
Quando tinha 25 anos, Moser deixou Nova York e foi morar na Holanda. Para lidar com a condição de estrangeiro, começou a olhar para a pintura da Idade de Ouro do país —percorrendo galerias e museus, se deparou com obras de Rembrandt, Vermeer e outros grandes pintores do século 17.
A curiosidade com esses artistas virou obsessão e, duas décadas depois, deu origem ao livro, que explora a vida e a obra de quase 20 deles, mas, sobretudo, a sua experiência de descobrir esses artistas e entender melhor o mundo invertido em que estava vivendo.
Neste episódio, o escritor fala sobre as circunstâncias históricas do período em que os pintores viveram e defende que é impossível separar a obra e a vida de um artista.
Moser, conhecido pelas biografias de Clarice Lispector e Susan Sontag, diz que tanto a trajetória das duas escritoras quanto a dos mestres holandeses lembra que nenhum artista sabe o destino que vai ter —um talento extraordinário não é suficiente para prosperar, e as chances de fracassar ou terminar a vida na miséria são enormes.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 25 Apr 2026 - 244 - João Paulo Charleaux: Israel comete crimes de guerra em Gaza
Pouca gente já leu o texto da Convenção de Genebra, e a maior parte das pessoas provavelmente tropeçaria se precisasse explicar a diferença entre a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional.
No entanto, lembra João Paulo Charleaux, isso não é essencial para que quase todo o mundo entenda alguns princípios humanitários que devem ser respeitados nas guerras —por exemplo, que nada justifica atirar em inimigos rendidos, atacar ambulâncias e hospitais, matar uma população de fome ou torturar crianças.
Charleaux, autor do recém-lançado "As Regras da Guerra", analisa como essas normas evoluíram ao longo dos últimos séculos. Neste episódio, ele fala sobre alguns conflitos atuais, como a ofensiva militar de Israel em Gaza e o ataque de Trump ao Irã.
Para o autor, o Hamas cometeu uma longa lista de crimes de guerra no 7 de Outubro e Israel tem o direito de se defender. Contudo, em sua avaliação, o país vem ultrapassando de forma calculada os limites legais estabelecidos e isso deve ter um alto custo moral.
Ele diz considerar que Israel está cometendo crimes de guerra gravíssimos em Gaza e que o mandado de prisão do TPI contra Netanyahu é acertado.
Charleaux também discute os dilemas criados pelo uso cada vez mais frequente de drones e de ferramentas de inteligência artificial nas guerras e o papel que as Forças Armadas do Brasil devem ter em um cenário geopolítico mais extremo.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica CruzSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 11 Apr 2026 - 243 - Rita Carelli: Mito indígena evoca origem comum de todos os povos
No começo de "O Mundo Fora da Pedra", Rita Carelli narra as longas viagens de barco da sua infância rumo à aldeia dos enawenê-nawês, no noroeste do Mato Grosso. Ela se lembra, mais que tudo, das noites que passou no barraco do Vicente Cañas, às margens do rio Juruena.
O jesuíta espanhol chegou ao Brasil em 1966 e rumou para o estado. Era um tempo em que as missões da Igreja Católica na amazônia se transformavam: os religiosos mandados à região para converter os indígenas ao catolicismo e supostamente civilizá-los começaram a tentar entender os seus modos de vida e lutar para garantir os seus direitos.
Visto mais como riponga que como missionário, Vicente Cañas passou a viver entre os indígenas e, em abril de 1987, foi assassinado no seu barraco. O processo sobre o crime, cheio de falhas, só foi concluído em 2025, quando a Justiça determinou a prisão de um delegado aposentado condenado pelo homicídio.
Três décadas depois do assassinato, Carelli resolveu se dedicar a reconstituir essa história. Filha de uma antropóloga e de um cineasta envolvidos com a causa indígena, ela visitou os enawenê-nawês e outros povos desde criança e, hoje, o seu trabalho como escritora e diretora de cinema é perpassado por essas experiências.
Neste episódio, a autora fala sobre como construiu a narrativa de "O Mundo Fora da Pedra", que ela diz ser um livro estranho por combinar um mergulho em um inquérito policial de milhares de páginas, uma reflexão sobre a história do país e uma costura das suas próprias memórias.
Carelli explica algumas práticas rituais e outros aspectos da cultura exuberante dos enawenê-nawês e fala sobre como o mito de origem do grupo —sair de uma pedra ancestral em que todas as pessoas viviam juntas— ajuda a pensar o mundo de hoje.
Veja fotos de fotos de Vicente Cañas e dos enawenê-nawês Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 28 Mar 2026 - 242 - Uirá Machado: Obsessão por xadrez e fervor religioso marcaram vida de Mequinho
Em 1979, o maior jogador brasileiro de xadrez da história mal conseguia se mexer. Trancado no seu apartamento, Mequinho sentia muita fraqueza e tinha medo de morrer a qualquer momento.
O enxadrista teve que se afastar dos tabuleiros por causa da doença, que ele acreditava ser miastenia grave, e começou a frequentar um grupo de oração da Renovação Carismática Católica.
No auge dessa crise, Mequinho recebeu em casa uma das pioneiras no país das sessões de cura, que se impressionou com a suposta graça instantânea alcançada. O enxandrista retomou os movimentos e passou a dizer que tinha sido curado por Jesus —não totalmente, mas 99%.
Esse é um dos momentos de virada da vida de Mequinho, esquadrinhada por Uirá Machado, jornalista da Folha, na biografia recém-lançada "Entre Bispos e Reis".
O livro narra a infância do garoto prodígio no interior do Rio Grande do Sul, a glória nos anos 1960 e 1970 e o fervor religioso que marcou a vida do enxadrista a partir da década de 1980.
Convidado deste episódio, Uirá fala sobre a importância de Mequinho na história do esporte brasileiro e explica como o enxadrista trocou a obsessão pelos tabuleiros pela pregação religiosa —Mequinho passou a dizer nos últimos anos, por exemplo, que foi escolhido por Jesus como profeta do apocalipse.
Veja galeria de fotos da trajetória de Mequinho Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 14 Mar 2026 - 241 - Vladimir Safatle: O que vemos hoje não é metáfora, é o fascismo mesmo
Vladimir Safatle, filósofo e professor da Universidade de São Paulo, está lançando o livro "A Ameaça Interna —Psicanálise dos Novos Fascismos Globais", pela editora Ubu.
No podcast Ilustríssima Conversa deste sábado (28), o autor argumenta que aquilo a que estamos assistindo na cena política contemporânea, com a emergência do populismo autoritário em diversos países, não é uma metáfora do fascismo ou uma regressão ao fascismo; é o próprio fascismo.
Safatle estabelece uma relação entre o que chama de fascismo global e as mentalidades e ideologias vigentes nas sociedades ditas neoliberais: o individualismo acirrado, a competição, a ideia de que alguém vai sempre perder. Ele prefere chamar esses regimes não de democracias, mas de fascismos restritos.
O professor ainda fala, no podcast, sobre a polêmica que se criou em torno de um artigo sobre as teorias decoloniais que publicou na revista piauí ("Estudos decoloniais e o grande FMI universitário").
Produção e apresentação: Marcos Augusto Gonçalves Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 28 Feb 2026 - 240 - Camila Appel: Paradigma médico atual cria entraves a morte mais humana
O ditado diz que a morte é a única certeza da vida —todo o mundo sabe, desde criança, que vai morrer, mas quase nada dá mais medo do que pensar no fim da vida.
Para falar sobre por que a gente precisa falar sobre a morte, o Ilustríssima Conversa recebe Camila Appel nesta semana. A jornalista é criadora do blog Morte sem Tabu, da Folha, e acabou de lançar "Enquanto Você Está Aqui", uma reflexão sobre vários aspectos do fim das nossas vidas endereçada à sua mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, 84.
Esta é a raiz do trabalho que Appel vem desenvolvendo desde 2014: disseminar a ideia de que a morte, por ser uma certeza para todos, precisa ser tratada com a maior naturalidade possível, tanto para podermos lidar melhor com o fim da vida de mães e pais, irmãs e irmãos, esposas e maridos, cachorros e gatos quanto para conseguirmos nos preparar para a nossa própria morte.
Esse assunto pode parecer sombrio, mas, como Appel lembra, olhar de frente para a nossa finitude é, antes de tudo, uma forma de pensar em como queremos viver.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 07 Feb 2026 - 239 - Elvia Bezerra: Ruazinha em Santa Teresa mudou a poesia de Manuel Bandeira
Em uma crônica, Manuel Bandeira escreve que a rua do Curvelo, onde morou de 1920 a 1933, "é uma ruazinha tranquila, e embora a dez minutos do centro da cidade parece um trecho de província".
A rua de uma quadra em Santa Teresa, no Rio, poderia ser um detalhe sem muita importância na biografia de Bandeira. No entanto, para Elvia Bezerra, pesquisadora de literatura brasileira, deve ser vista como um aspecto fundamental na sua formação e no seu destino de poeta modernista.
Bezerra diz que, imerso na atmosfera de província do Curvelo, um Manuel Bandeira recluso e tuberculoso redescobriu o encanto da rua —e esse universo de gente simples o arrancou do mundo fechado de poeta, se imbuiu nos seus versos e deu impulso a um dos períodos mais ricos da sua produção literária.
Nos anos em que Bandeira esteve lá, também moraram na rua, hoje chamada Dias de Barros, o poeta Ribeiro Couto e a psiquiatra Nise da Silveira, os três personagens a que a autora se debruça em "A Trinca do Curvelo".
Publicado pela primeira vez em 1995, o livro volta a circular em uma edição revista e ampliada, que incorpora fontes disponibilizadas nas últimas décadas, como a correspondência de autores modernistas.
Nesta entrevista, Bezerra explica como um encontro com Nise da Silveira se tornou o empurrão inicial do livro e conta o que descobriu ao investigar a vida e a obra de Manuel Bandeira, em especial as relações amorosas do poeta "ferozmente discreto", tema de dois ensaios inéditos incluídos na nova edição da obra.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 24 Jan 2026 - 238 - Leonardo Avritzer: Trump e bolsonarismo sem Bolsonaro são incógnitas na eleição de 2026
Condenado pelo STF e preso, Jair Bolsonaro vai ser capaz de emplacar um sucessor —e a direita vai conseguir ter um candidato competitivo nas eleições deste ano? Depois do ataque dos EUA à Venezuela, o que esperar de uma possível interferência do governo Trump no processo eleitoral brasileiro?
No primeiro episódio de 2026 do Ilustríssima Conversa, o cientista político Leonardo Avritzer traça alguns cenários para a política brasileira nos próximos meses.
Para ele, a defesa da democracia nunca teve mais força na história do país, mas o regime democrático brasileiro continua em disputa —como sempre esteve nos últimos cem anos.
Esse é o fio condutor de "O Golpe Bateu na Trave", livro mais recente de Avritzer. Na obra, o pesquisador discute por que as ações de Bolsonaro nos últimos meses do seu mandato devem ser entendidas como parte de uma tentativa de golpe de Estado e aponta os motivos de a ruptura democrática não ter acontecido, destacando o papel da oposição, dos militares e do STF.
Nesta entrevista, o cientista político também aborda os valores antidemocráticos arraigados em uma grande parcela da sociedade brasileira, que explodiram no 8 de Janeiro.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 10 Jan 2026 - 237 - Gabriel Weber: Ônibus que leva a praias da zona sul do Rio costura cidade fragmentada
Um motorista do 474, conhecido como linha do inferno no Rio de Janeiro, contou a Gabriel Weber que se, se a previsão do fim de semana é de sol, ele começa a "meter Alprazolam", um ansiolítico, já na quinta-feira.
O arquiteto é autor de "474 Jacaré/Copacabana". O livro, a partir de um olhar de dentro do 474, busca entender o Rio de Janeiro e suas desigualdades.
O ônibus liga o que ele chama de bairros-cativeiro da massa falida da zona norte a uma zona sul com um microclima mais ameno, que abriga as praias das pessoas de bem e onde toca João Gilberto.
O túnel que liga os dois Rios, Weber diz, é como um portal místico —e depois de cruzá-lo, com jovens surfando em cima do ônibus e viajando nas janelas, o ônibus provoca um Big Bang na zona sul e se torna alvo da polícia.
Para ele, por outro lado, esse corte que marca a urbanização carioca não gera uma cidade partida e o próprio 474 é um dos vetores que costuram os vários fragmentos do Rio de Janeiro.
Nesta entrevista, o arquiteto afirma que não ignora os problemas de segurança relacionados à linha, mas defende que é preciso lembrar as condições de vida dos moradores dos bairros precários da zona norte e a elite segregacionista da zona sul, que vê as praias como espaços de uso exclusivo.
Weber também discutiu as questões de gênero e racial que se manifestam no 474 e contou algumas histórias que presenciou, como um homem que desrespeitou o código de ética da linha roubando uma moradora da zona norte e acabou empurrado para fora do ônibus.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 13 Dec 2025 - 236 - Rosane Borges: Mulheres negras enfrentam imaginário racista e constroem novo futuro
As mulheres negras vêm transformando o nada —o rebaixamento a que foram submetidas pelo colonialismo e pela escravidão— em quase tudo, diz Rosane Borges, doutora em comunicação e linguagem pela USP e professora da PUC São Paulo.
Com a expressão quase tudo, ela faz referência a uma infinidade de iniciativas que buscam tirar as mulheres negras da base da pirâmide social e, ao mesmo tempo, construir novos imaginários para enfrentar os estereótipos racistas e sexistas que se afirmaram nos últimos séculos.
Em "Imaginários Emergentes e Mulheres Negras", a pesquisadora analisa o tema e defende que a emancipação das mulheres negras demanda a construção de uma fábrica de imaginários, semelhante a Hollywood, para criar um novo conjunto de narrativas.
Neste episódio, Borges discute as imagens negativas criadas pelo colonialismo sobre as pessoas negras e afirma que essas representações se tornaram uma profecia autorrealizável, que continua perpetuando desigualdades e o racismo.
A autora também diz que esse imaginário tem tudo a ver com a indicação de Jorge Messias ao STF, pelo presidente Lula, em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 29 Nov 2025 - 235 - Bel Coelho: Conhecer sabores da floresta é essencial para manter a amazônia em pé
Não existe floresta sem gente —seja porque a amazônia, longe de ser um bioma intocado, foi cultivada por povos originários ao longo de milhares de anos, seja porque extrativistas, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tantos outros grupos se tornaram guardiões da floresta.
Essa ideia é o ponto de partida de "Floresta na Boca", livro da chef Bel Coelho sobre os sistemas alimentares da amazônia, enraizados tanto nos ingredientes da floresta quanto nas práticas das populações da região.
A autora lança na COP30, em Belém, o livro e um documentário sobre a amazônia, que são resultado de duas expedições realizadas neste ano no Pará.
Nesta entrevista, a chef diz que a culinária brasileira ainda é muito distante dos ingredientes da nossa biodiversidade e que o apagamento cultural de certos alimentos pode levar à sua extinção ambiental, impulsionando uma agricultura colonizada.
Ela também explica por que considera a mandioca a rainha do Brasil, fala sobre os riscos da açaização da amazônia —o incentivo à monocultura do açaí devido ao aumento do seu preço nos mercados— e discute o protagonismo feminino em experiências de conservação da floresta.
Por fim, Bel Coelho defende uma transformação na nossa alimentação para lidar com a crise climática, por meio do consumo de ingredientes nativos e da remuneração justa de produtores comprometidos em manter a floresta em pé.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 15 Nov 2025 - 234 - Reginaldo Prandi: Terreiro transbordou para a sociedade e moldou a cultura brasileira
O sociólogo Reginaldo Prandi, professor emérito da USP, é o convidado do Ilustríssima Conversa desta semana.
Prandi, um dos mais importantes pesquisadores do país das religiões afro-brasileiras, está lançando "Orixás: os Deuses que Habitam em Nós", livro destinado tanto a quem acredita nessas divindades quanto a quem se interessa intelectualmente por elas.
A obra reúne mitos sobre 18 orixás e explora como os deuses são cultuados no Brasil. Ao mesmo tempo, celebra os 25 anos de publicação de "Mitologia dos Orixás", best-seller e referência fundamental sobre o tema.
Nesta entrevista, Prandi narra como chegou ao estudo dos orixás e dos terreiros e diz que, assim aconteceu com outras religiões, a história do candomblé foi profundamente influenciada por circunstâncias políticas e sociais do Brasil.
O autor também aponta orixás que ganharam espaço nos últimos anos, por expressarem debates sobre gênero e sexualidade, por exemplo, e explica como os rituais dos terreiros transbordaram para o resto da sociedade e foram fundamentais na construção da cultura brasileira.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 01 Nov 2025 - 233 - Marina Rossi: Consumo atual de carne é insustentável
O Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo: são mais de 230 milhões de bois, e 44% dos animais estão nos estados da Amazônia Legal. Só o município de São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, tem 2,5 milhões de bois, cerca de 38 cabeças de gado para cada habitante humano.
O rebanho do país vem crescendo nas últimas décadas, e a pecuária é um dos principais vetores de desmatamento da amazônia —se calcula que 90% da área desmatada do bioma vira pasto.
Esses são alguns dos dados reunidos pela jornalista Marina Rossi em “O Cerco”, livro recém-lançado que busca entender como a maior floresta tropical do mundo foi invadida pela pecuária e quais são as consequências ambientais e sociais desse processo.
Neste episódio, Rossi lembra que a amazônia é fundamental para a viabilidade ambiental do Brasil e diz que a transformação do bioma em pasto conta, há décadas, com incentivos do Estado, seja por meio do financiamento a propriedades que desmatam, seja por falhas na fiscalização ambiental.
Na entrevista, a autora também discute os desafios relacionados à redução do consumo de carne no país e defende que mudanças no comportamento dos consumidores podem ter impacto em toda a indústria.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Lucas MonteiroSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 18 Oct 2025 - 232 - Leopold Nosek: Empreendedorismo leva pessoas a competir com o próprio relógio
A ficção pode ser a melhor forma de retratar a realidade, diz o psicanalista Leopold Nosek.
Criar narrativas para dar sentido ao mundo é inevitável, ele diz, e essa é a base do que chama de método Marlow, inspirado no protagonista do romance "Coração das Trevas" e título do seu livro recém-publicado.
"O Método Marlow: Ensaios Indisciplinares em Psicanálise" reúne ensaios recentes que abordam temas como os tipos de sofrimento psíquico relacionados ao espírito do tempo atual e textos que documentam a sua trajetória intelectual e clínica de décadas.
Nesta entrevista, Nosek diz ver em seu consultório discursos que pouco avançam em elaborações mais abstratas, que refletem "patologias de pobreza imaginativa" –algo muito semelhante à avaliação que faz das ideologias do presente, que considera muito pouco sofisticadas.
Para o autor, a subjetividade moldada por ideais como o empreendedorismo e a meritocracia faz com que os sujeitos, que se consideram seus próprios patrões, passem a competir com o próprio relógio: todos têm que ser campeões, ele diz, e, ao mesmo tempo, vivemos em um mundo cada vez mais marcado pelo medo e pela incerteza.
Nosek também discutiu a atualidade da psicanálise. Para ele, não se trata de um campo anacrônico ou ultrapassado, mas de uma prática que, em vez de interpretar sonhos, pode ajudar os pacientes a construir sonhos em um mundo sombrio.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 04 Oct 2025 - 231 - Ernesto Mané: Fui à África para reconstruir minha identidade
O racismo é uma forma de estruturar o mundo e é integral à constituição da sociedade brasileira, diz o físico e diplomata Ernesto Mané.
No seu livro de estreia, o autor registra como a discriminação racial o acompanhou em toda a sua trajetória —e se entrelaça com a história do seu pai, nascido na Guiné-Bissau, e do próprio colonialismo que se impôs sobre o país e sobre o continente africano.
Mané, nascido em João Pessoa, tinha feito o doutorado em física em Manchester, no Reino Unido, e um pós-doutorado em Vancouver, no Canadá, quando embarcou para a Guiné-Bissau para conhecer o país e a família do pai, figura ausente em boa parte da sua vida.
O diário que ele manteve na viagem, em 2010 e 2011, deu origem a "Antes do Início", que registra seus esforços para conhecer seu passado familiar e reconstruir sua própria identidade.
Neste episódio, o convidado fala sobre o que a escrita oferece para lidar com o terreno da memória, explica por que resolveu publicar seu diário quase 15 anos depois da viagem à Guiné-Bissau e conta o que descobriu sobre o pai, morto em 2014.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 20 Sep 2025 - 230 - [Conteúdo Patrocinado] Podcast ‘Pra Falar de Educação’ aborda a importância de fortalecer a Educação de Jovens e Adultos
A educação é um direito garantido por lei, mas muitos brasileiros ainda não conseguem concluí-la. No país, quem tem 25 anos ou mais estudou, em média, 10,1 anos —abaixo do ciclo completo da educação básica. O abandono escolar gera grandes prejuízos, mas a Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem mostrado caminhos para transformar histórias de vida e abrir novas perspectivas no mercado de trabalho.
É o caso de César Teixeira, personagem do episódio "Educação de Jovens e Adultos: Desafios e Possibilidades", o último da série "Pra Falar de Educação". Após abandonar a escola, Teixeira retomou os estudos pela EJA do SESI-SP, conquistando o diploma, autoestima e uma nova profissão.
Especialistas alertam que os impactos da pandemia, o cansaço dos estudantes e a redução de políticas públicas para a EJA dificultam a permanência e ampliam desigualdades. O episódio mostra como a retomada dos estudos pode mudar vidas, e também expõe a urgência de fortalecer a modalidade no Brasil.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Thu, 18 Sep 2025 - 229 - Jamil Chade: Deportações em massa dilaceram a alma dos EUA
A deportação em massa de imigrantes, bandeira de campanha de Donald Trump que vem sendo posta em prática em seu novo mandato, espalha medo e enfraquece a economia americana. Mais que isso, diz Jamil Chade, molda um imaginário coletivo que permite que o discurso de ódio e a xenofobia irrompam nas situações mais inesperadas, dilacerando a alma do país.
O recém-publicado "Tomara que Você Seja Deportado" reúne crônicas escritas entre a campanha presidencial e a metade de 2025. O jornalista se mudou para os Estados Unidos e percorreu uma dezena de estados do país, registrando as ameaças da vitória de Trump para imigrantes, indígenas e negros, entre outros grupos.
Para o autor, o país e todo o Ocidente vivem uma das encruzilhadas mais dramáticas da nossa história recente e a sobrevivência da democracia depende da luta de uma geração inteira. Assim como uma condenação de Jair Bolsonaro pelo STF não deva significar o fim do bolsonarismo, ele diz, uma vitória dos democratas na próxima eleição não encerraria o movimento capitaneado por Trump.
Na entrevista, o jornalista também falou sobre a debilidade da resistência da sociedade civil americana à agenda trumpista e discutiu o novo interesse pelo Brasil em Washington nos últimos meses, que ele relaciona com disputas geopolíticas com a China na América Latina e a reação do Judiciário brasileiro à trama golpista no governo Bolsonaro.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 06 Sep 2025 - 228 - Vera Iaconelli: Psicanálise revela que somos feitos de palavras
Ninguém precisa, necessariamente, de análise, diz Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP, diretora do Instituto Gerar de Psicanálise e colunista da Folha.
Se a pessoa não se reconhece como parte do sofrimento que enfrenta, deve procurar outro tipo de profissional para lidar com as suas queixas —e admitir que existe um sujeito que faz escolhas mesmo nas circunstâncias mais dramáticas é o ponto de partida da psicanálise, ela diz.
Sair do lugar de vítima, Iaconelli afirma, foi parte do seu próprio processo de análise, narrado em seu novo livro. Em "Análise", as experiências no divã são entremeadas com a reforma de uma casa e as memórias da sua família, terreno em que se destacam a figura do pai, um homem violento e imprevisível que mantinha outra família, e a morte precoce de dois irmãos.
Neste episódio, a autora fala sobre a diferença da oralidade e da escrita na construção das memórias e diz que só conseguiu contornar certos resíduos da análise ao escrever o livro.
Iaconelli também afirma que a psicanálise não foi, ao longo da história, muito generosa com as mães e que, hoje, uma mistificação sobre a maternidade na teoria psicanalítica ainda dificulta a escuta de mulheres por seus analistas.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 23 Aug 2025 - 227 - Fred Coelho: Por que busca pelo passado está em alta nas artes hoje
O Ilustríssima Conversa desta semana recebe Fred Coelho, professor da PUC-Rio e autor do recém-lançado "Infraturas: Cultura e Contracultura no Brasil".
O livro reúne 15 ensaios que abordam algumas das mais importantes transformações do campo das artes e da cultura do Brasil nas últimas décadas, com destaque para as experimentações e os dilemas de artistas da geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Hélio Oiticica.
Neste episódio, Coelho fala sobre o enfraquecimento da perspectiva de construção nacional, que dominou o debate sobre a cultura no país e perdeu espaço para lutas transnacionais, como o combate ao patriarcado e o racismo. Isso, para ele, está relacionado à força da reivindicação do passado nas artes hoje, que se sobrepõe a ações de investimento no futuro.
O autor também afirma que a noção de contracultura se tornou muito mais complexa que nos anos 1960 e 1970. Em um tempo em que a ideia de cultura nacional é dominada por Deus, pátria, família e liberdade, ele diz, tudo se torna contra a cultura —mas não existe mais uma única cultura hegemônica, e sim um cenário mais pulverizado de contestações.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini e Marcos Augusto Gonçalves Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 09 Aug 2025 - 226 - [Conteúdo Patrocinado] Podcast ‘Pra Falar de Educação’ aborda como a escola pode preparar os jovens para a vida e a cidadania no século 21
Como a escola pode ajudar os jovens a fazer escolhas mais conscientes e planejadas? Essa questão ganha relevância diante de um dado alarmante: 8,9 milhões de brasileiros entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham, segundo a Pnad Educação 2024.
No ensino médio, o abandono escolar e a distorção idade-série aumentam, evidenciando a urgência de aproximar o currículo das aspirações dos estudantes. É nesse contexto que o episódio "Projeto de Vida, as Escolhas e o Futuro dos Jovens no Brasil", terceiro da série "Pra Falar de Educação", discute como iniciativas como o Projeto de Vida e programas do Sesi-SP – Passaporte para o Futuro, Universitário e Futuro Professor – têm ampliado horizontes e fortalecido vínculos com a escola.
Com a participação de especialistas e histórias inspiradoras de estudantes, o podcast traz reflexões sobre como preparar os jovens para a vida, a cidadania e o mundo do trabalho no século 21.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Thu, 07 Aug 2025 - 225 - Sérgio Rodrigues: IA nos humilha na escrita, mas não vai acabar com a literatura
Escrever é difícil e é de se esperar, diz Sérgio Rodrigues, que a maioria dos humanos terceirize esse trabalho para robôs que imitam tão bem a nossa linguagem, talvez até melhor que nós mesmos.
Para o escritor e colunista da Folha, a inteligência artificial inaugura uma nova era das letras, em que escrever será uma escolha, não uma habilidade cotidiana imprescindível.
A literatura, por outro lado, não deve desaparecer com o avanço da tecnologia. Em "Escrever É Humano", o autor reflete sobre as especificidades do ofício e sustenta que a inteligência artificial generativa é formidável em produzir textos repetindo o que já foi escrito, mas que, devido à sua incapacidade de criar obras originais, não pode invadir o terreno da escrita literária.
Na entrevista, Rodrigues afirma que a escrita literária deve se tornar um nicho ainda menor, como uma aldeia gaulesa de escrita humana cercada por todos os lados por uma paisagem textual dominada por máquinas.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 26 Jul 2025 - 224 - Walquiria Leão Rego: Classe média ainda tem ódio do Bolsa Família
Na serra do Cariri, nos arredores de Crato, no Ceará, uma entrevistada diz que, quando era criança, precisava roubar tempo da rotina de trabalho para poder brincar. Ela ia cuidar das cabras e aproveitava para passar uns minutos com as bonecas de sabugo, escondida dos pais.
O depoimento inspirou o título do novo livro de Alessandro Pinzani, professor de filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina, e Walquiria Leão Rego, professora titular do Departamento de Sociologia da Unicamp. O recém-lançado "Vidas Roubadas" investiga como a pobreza produz um sofrimento social profundo em milhões de pessoas no Brasil —sofrimento que, para os autores, poderia ser evitado.
Na obra, os pesquisadores apresentam entrevistas com cinco mulheres e um homem cujas vidas foram marcadas pela extrema pobreza.
Leão Rego, convidada deste episódio, fala sobre os achados da pesquisa de campo em regiões do país esquecidas pelo Estado, explica como o conceito de sofrimento social ajuda a pensar a pobreza no Brasil e como políticas públicas como o Bolsa Família, tema de um livro anterior dos autores, contribuíram para amenizar essa situação.
Na entrevista, a socióloga também discute como a luta diária pela sobrevivência e a humilhação social que pessoas na extrema pobreza sofrem criam entraves à organização política e minam o próprio futuro da democracia brasileira.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Lucas MonteiroSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 12 Jul 2025 - 223 - [Conteúdo Patrocinado] Podcast ‘Pra Falar de Educação’ aborda caminhos para evoluir a qualidade da formação docente
A qualidade da formação do professor influi na aprendizagem dos estudantes. Afinal, é ele que atua como um facilitador, guia e mediador do conhecimento na sala de aula, favorecendo a aprendizagem dos conteúdos e estimulando o pensamento crítico e o raciocínio dos estudantes.
Embora seja essencial para a qualidade da aprendizagem, formar docentes é um dos principais gargalos enfrentados pelo Brasil na área da educação. A qualidade da formação docente no Brasil é o tema do segundo episódio da série de podcasts "Pra Falar de Educação", uma iniciativa do Estúdio Folha e Sesi-São Paulo.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Wed, 09 Jul 2025 - 222 - Diogo Bercito: Comida foi um pilar da identidade árabe no Brasil
Nesta semana, o Ilustríssima Conversa recebe Diogo Bercito, jornalista e doutorando na Universidade Georgetown.
Bercito desenvolve pesquisas sobre a imigração árabe no Brasil. Ele lançou, em 2021, "Brimos", sobre as famílias de ascendência sírio-libanesa que marcaram a política brasileira, e acaba de publicar "Brimos à Mesa", que se debruça sobre a história da culinária árabe no país.
O livro argumenta que a alimentação foi um dos pilares da construção da identidade árabe em terras brasileiras, que os imigrantes sírio-libaneses buscaram preservar seus pratos para manter os laços com a terra de seus ancestrais e que, apesar disso, a culinária árabe se tropicalizou por aqui, dando origem a uma comida árabe-brasileira única no mundo.
Nesta entrevista, Bercito explica por que considera os pratos artefatos culturais, fala sobre os mecanismos que fazem da comida um suporte da memória e discute algumas tendências recentes, como a popularização do falafel e do shawarma em restaurantes do Brasil e tentativas de ampliar o repertório de pratos a que o público brasileiro está acostumado.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Lucas MonteiroSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 28 Jun 2025 - 221 - Cecília Olliveira: O que leva policiais a se tornarem milicianos
O Ilustríssima Conversa recebe Cecília Olliveira, jornalista especializada em segurança pública e diretora do Fogo Cruzado, instituto que monitora tiroteios e produz dados sobre a violência armada.
Em seu primeiro livro, Olliveira analisa as origens e as transformações das milícias do Rio de Janeiro, desde os esquadrões da morte da ditadura militar. A autora diz que, nas últimas décadas, as milícias ampliaram tanto seu leque de atividades quanto as áreas que dominam, mas não abandonaram a sua essência, as execuções.
"Como Nasce um Miliciano" defende que essas organizações criminosas inventaram um modelo de negócio muito sofisticado, que pode se expandir para o resto do Brasil, e que as milícias não devem ser entendidas como um poder paralelo. Na verdade, ela diz, estamos diante de parcelas do próprio Estado que agem com o crime e para o crime.
Nesta entrevista, a jornalista fala sobre a responsabilidade do governo estadual na expansão das milícias, a falta de uma política consistente de segurança pública no Rio e a necessidade de uma maior participação do governo federal na área.
Olliveira também discute as razões que levam um policial a se transformar em miliciano. A autora explica as falhas na formação dos oficiais e diz que, hoje, o dinheiro pode importar menos que o desejo de parar de receber ordens e ser humilhado em quartéis para, como parte das milícias, ter status social e afirmar ideais de honra, masculinidade e virilidade.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Lucas Monteiro e Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 07 Jun 2025 - 220 - [Conteúdo Patrocinado] Podcast 'Pra Falar de Educação' debate os desafios da aprendizagem de matemática
O cenário atual da aprendizagem de matemática no Brasil é alarmante: avaliações nacionais e internacionais mostram que a maioria dos estudantes brasileiros não chega ao final da educação básica com capacidade de resolver problemas matemáticos simples.
Sem as habilidades necessárias para interpretar dados e informações, esses futuros profissionais terão problemas não só no mundo do trabalho como em sua rotina diária.Para analisar esses dados e, principalmente, discutir as alternativas possíveis para revertê-los, o Estúdio Folha, ateliê de conteúdo patrocinado da Folha, e o Sesi-São Paulo, produziram a série de podcasts "Pra Falar de Educação".
No primeiro episódio, a jornalista Marta Avancini conversa com o economista Ernesto Farias, diretor executivo do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), Adilson Dalben, supervisor de Projetos de Formação do Sesi-São Paulo e coordenador da Pós-Graduação em Educação Matemática, e Laôr Fernandes, gerente de projetos educacionais do Sesi-SP e coordenador do Sesi para Todos.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Wed, 04 Jun 2025 - 219 - Renato Ortiz: Influenciadores são prisioneiros de seus seguidores
Como entender o significado de influenciador, neologismo que se tornou corriqueiro com a ascensão das redes sociais?
O sociólogo Renato Ortiz, professor titular da Unicamp, contrapõe os influenciadores aos intelectuais, aos mediadores simbólicos —categoria que inclui os jornalistas— e às celebridades para refletir sobre o que há de novo nas engrenagens desse universo digital.
Esse é o espírito de "Influência", ensaio recém-lançado em que sustenta que os influenciadores são prisioneiros da digitalidade que lhes permite existir —ou seja, estão confinados aos seus nichos de atuação na internet e são extremamente dependentes dos seus seguidores.
Os influenciadores são ambiciosos, diz Ortiz, e acreditam que podem determinar o destino humano. O retrato que emerge da sua reflexão, ao contrário, aponta que a influência digital é muito menos grandiosa do que parece à primeira vista e que quem atua nesse campo se depara com uma condição efêmera, o que demanda um trabalho constante para manter os laços com os influenciados e não ser deixado para trás.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 24 May 2025 - 218 - José Eli da Veiga: Economistas ainda pensam em crescimento eterno
Nem abandonar a ideia de crescimento econômico nem confiar nela cegamente.
José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, recorre a essa dupla negativa para sintetizar sua análise em "O Antropoceno e o Pensamento Econômico", terceiro volume de sua trilogia sobre as ciências e as humanidades em um período de crise climática e transformação acelerada do planeta pela sociedade.
No livro, o intelectual revisita escolas e pensadores à margem do mainstream da economia para sustentar que a disciplina não acompanhou o avanço da fronteira do conhecimento e ainda passa ao largo, por exemplo, da teoria da evolução e da física moderna.
Em razão disso, Veiga argumenta, o pensamento econômico ignora os fluxos de energia e matéria envolvidos no processo de produção, o que faz com que economistas concebam um crescimento eterno e não se preocupem com as condições de vida das gerações futuras.
Neste episódio, o pesquisador fala sobre as ideias de crescer decrescendo e decrescer crescendo, um caminho do meio entre manter o modelo atual e as propostas de decrescimento da economia.
Veiga também discute o impasse em fóruns multilaterais dedicados à crise ambiental, como as COPs. Para ele, negociações entre as corporações e os governos responsáveis pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa teriam mais resultado que encontros anuais com a participação de mais de uma centena de países.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 10 May 2025 - 217 - Juliano Spyer: O que explica o crescimento evangélico no Brasil
Muito se falou sobre os evangélicos nos últimos anos —talvez, com ainda mais força, desde o governo Bolsonaro, quando bispos e pastores viraram personagens onipresentes da cobertura política.
No entanto, para Juliano Spyer, antropólogo e colunista da Folha, persiste um desconhecimento sobre o mundo dos crentes ou um preconceito deliberado, que associa à fé evangélica à manipulação de pessoas desesperadas e minimiza a importância do segmento na definição dos rumos do Brasil.
Neste episódio, Spyer apresenta uma espécie de guia para entender o fenômeno evangélico no Brasil, o mesmo espírito do livro "Crentes: Pequeno Manual sobre um Grande Fenômeno", publicado em coautoria com Guilherme Damasceno e Raphael Khalil.
Na entrevista, o pesquisador diz que o segmento é muito heterogêneo —e precisa ser visto a partir da sua multiplicidade— e aponta as raízes do forte crescimento das igrejas evangélicas no Brasil nas últimas décadas.
Spyer também discute a LGBTfobia e o machismo nas igrejas e fala sobre a dificuldade da esquerda em dialogar com o público evangélico.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 26 Apr 2025 - 216 - Arlene Clemesha: Judaísmo vive crise de consciência com genocídio em Gaza
Arlene Clemesha, professora de história árabe da USP, é uma das mais conhecidas vozes críticas à ofensiva militar de Israel em Gaza e, de forma mais geral, ao sionismo, a ideologia política de defesa do Estado judeu no Oriente Médio.
Em "Marxismo e Judaísmo: História de uma Relação Difícil", o foco da sua análise, no entanto, é outro: a historiadora se volta a como movimentos marxistas e socialistas lidaram com a questão judaica até as vésperas da Primeira Guerra Mundial, período em que o antissemitismo tinha feições diferentes e o sionismo, menos força.
Na entrevista, Clemesha fala sobre as transformações do antissemitismo nos séculos 19 e 20 e defende que a necessária condenação desse tipo de preconceito não deve ser usada para silenciar críticos de Israel.
A pesquisadora diz considerar que o país está cometendo um genocídio de palestinos na Faixa de Gaza e explica por que pensa que a solução de um só Estado, que una israelenses e palestinos, pode até ser o caminho mais simples para a paz na região —lembrando que, hoje, qualquer proposta parece completamente irrealizável.
Israel nega as acusações de genocídio contra palestinos. Em defesa na Corte Internacional de Justiça, o país declarou que uma guerra trágica está em curso na Faixa de Gaza, não um genocídio, e que acusar Israel desse crime é uma leitura distorcida do direito internacional.
Definição de antissemitismo da IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto) Declaração de Jerusalém sobre o Antissemitismo
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 12 Apr 2025 - 215 - Sérgio Costa: Esquerda precisa oferecer imagem de mundo melhor
Muito já foi escrito sobre os rumos da política brasileira nas últimas décadas. Encontrar um ângulo original de análise é talvez um dos maiores desafios para quem se dedica a esse campo de pesquisa.
Sérgio Costa, professor de sociologia da Universidade Livre de Berlim e codiretor do Mecila, centro de pesquisas sobre convivialidade e desigualdade na América Latina, buscou um caminho tentando analisar, ao mesmo tempo, as mudanças —ou os medos que cercam possíveis mudanças— nas hierarquias sociais e as escolhas eleitorais de pessoas e grupos.
No recém-lançado "Desiguais e Divididos: uma Interpretação do Brasil Polarizado", Costa entrelaça as dimensões de gênero, raça, renda e sexualidade para pensar as desigualdades brasileiras e constrói uma narrativa ampla da tumultuada história política recente do país, desde o governo Lula 1.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 29 Mar 2025 - 214 - Lenin Bicudo: Por que a homeopatia ainda é popular no Brasil
No Brasil, se consultar com um homeopata ou tomar "bolinhas" de homeopatia para lidar com alguma condição médica não é incomum.
Também é comum se deparar com questionamentos sobre a eficácia da homeopatia. Mas o que explica a sobrevivência da prática ao longo de séculos de forte avanço da chamada medicina tradicional —e por que tantos médicos e pacientes se engajam com a homeopatia, apesar de não haver comprovação de que os glóbulos funcionem?
Essas questões estão no cerne de "Cultura Homeopática: uma Investigação sobre a Comunicação do Desconhecimento", livro recém-lançado do sociólogo Lenin Bicudo Bárbara.
Doutor pela USP, Bicudo discute neste episódio as bases da homeopatia e apresenta os principais marcos da sua história no Brasil, como a aproximação com o espiritismo kardecista, o papel de generais no reconhecimento da homeopatia como especialidade médica e as estratégias usadas para preservar a legitimidade da prática e o mercado de seus profissionais.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Lucas MonteiroSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 15 Mar 2025 - 213 - Juliana Belo Diniz: Transtornos psiquiátricos não são doenças do cérebro
O Ilustríssima Conversa deste sábado (22) recebe a pesquisadora Juliana Belo Diniz, que atua como psiquiatra clínica e psicoterapeuta no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Diniz é autora de "O que os psiquiatras não te contam", com lançamento em março pela editora Fósforo. No livro, a especialista em pesquisa clínica por Harvard e doutora em psiquiatria pela USP questiona o senso comum sobre os transtornos mentais. Entre eles, o de que seriam resultado de mau funcionamento do cérebro ou de que a especialidade médica se resume a prescrever antidepressivos, calmantes, estimulantes e antipsicóticos.
"O conceito de doença não nasce do problema biológico. Não precisa ter algo errado com seu cérebro para a gente dizer que isso é uma doença. Eu defendo que depressão e ansiedade são doenças, porque existem pessoas que sofrem com elas, e que procuram ajuda médica para esse sofrimento, mas não quer dizer que o cérebro delas esteja funcionando errado", a autora afirma no podcast.
Produção e apresentação: João Rabelo
Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 22 Feb 2025 - 212 - Juliana Dal Piva: Militares mataram Rubens Paiva de diferentes maneiras
O episódio deste sábado (8) do Ilustríssima Conversa recebe a jornalista e pesquisadora Juliana Dal Piva, autora de "Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva" (editora Matrix).
O livro traça um panorama das informações disponíveis sobre o assassinato do ex-deputado e revela o esforço jornalístico para encadear descobertas da investigação que levou à identidade dos culpados.
Na entrevista, Dal Piva explica como os rastros deixados em documentos históricos ajudaram a expor mentiras em depoimentos e a desmontar a versão criada pelos militares para justificar o “desaparecimento”.
A história de Eunice Paiva, esposa de Rubens, e sua luta por posicionamentos do Estado brasileiro sobre o crime contra o marido são o tema de "Ainda Estou Aqui", filme com três indicações ao Oscar e que já rendeu a Fernanda Torres o Globo de Ouro de melhor atriz.
Produção e apresentação: João Rabelo
Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 08 Feb 2025 - 211 - Leonardo Weller: Direita brasileira deixou de conter extremistas
O Ilustríssima Conversa recebe nesta semana o historiador Leonardo Weller, professor da FGV São Paulo.
Weller é coautor, com Fernando Limongi, de “Democracia Negociada: Política Partidária no Brasil da Nova República”. O livro analisa os pilares do sistema político brasileiro e oferece uma interpretação de momentos-chave da história do país das últimas décadas, como a aprovação da Constituição de 1988 e o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).
Na entrevista, Weller explica por que o livro defende que a construção de consensos caracteriza melhor o funcionamento da política brasileira que o embate aberto entre forças antagônicas.
O pesquisador também fala sobre os fatores por trás do que chama do período glorioso da Nova República, os quase 20 anos de governos federais do PSDB e do PT.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 25 Jan 2025 - 210 - Lattes pagou o preço de ser cientista brasileiro, dizem biógrafos
No fim da década de 1940, Cesar Lattes tinha pouco mais de 20 anos, mas já vivia anos de glória. Pouco tempo depois de chegar a Bristol, na Inglaterra, ele se firmou como um figura-chave na pesquisa sobre o méson pi, uma nova partícula atômica, descoberta que rendeu o Prêmio Nobel de Física a Cecil Powell, chefe do laboratório em que trabalhou.
O próprio Lattes recebeu sua primeira indicação ao Nobel em 49, e a reputação internacional transformou o físico nascido em Curitiba e formado pela USP em um inesperado cientista-celebridade no Brasil.
Comprometido a voltar ao país e usar suas credenciais para impulsionar a física brasileira, Lattes recusou convites de universidades de ponta no exterior e logo se viu mergulhado em um cipoal de burocracia, falta de recursos e instabilidade política, que culminou com um caso de corrupção, denunciado por ele, no CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), instituição que tinha se empenhado em criar.
Aos 30 anos, o físico enfrentou um episódio de depressão que o obrigou a abandonar o trabalho e ir se tratar nos Estados Unidos. Tanto o diagnóstico quanto o tratamento eram muito mais frágeis que hoje, mas Lattes se deparava com os sintomas do transtorno bipolar.
No centenário do seu nascimento, comemorado em 2024, o livro "Cesar Lattes, uma Vida: Visões do Infinito" revisita a trajetória extraordinária de um dos mais importantes cientistas brasileiros da história. A obra é assinada por Marta Góes e Tato Coutinho e tem organização de Maria Cristina Lattes Vezzani, a segunda filha do físico, e Jorge Luis Colombo.
Góes e Coutinho, convidados deste episódio, lançam luz sobre a importância de Lattes em momentos cruciais da física do século passado, mencionam seus embates com o transtorno bipolar ao longo da vida e o situam nas tramas políticas e da ciência brasileira das décadas em que viveu.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 11 Jan 2025 - 209 - O que explica o boom da psicanálise na ditadura militar, segundo autor
Além de sobreviver ao regime militar, a psicanálise brasileira floresceu durante a ditadura. Esse aparente paradoxo foi um dos pontos de partida da pesquisa de doutorado de Rafael Alves Lima, professor colaborador da USP.
O trabalho, publicado sob o título "Psicanálise na Ditadura (1964-1985)", compõe uma história do campo psicanalítico do país nessas três décadas, além de investigar sua configuração às vésperas do golpe de 1964.
O pesquisador discute, por exemplo, as estratégias que um grupo de psicanalistas de São Paulo empregou para projetar uma imagem de prestígio e questiona o conformismo que dominou boa parte dos consultórios durante a ditadura, apesar de os militares não enxergarem os psicanalistas como uma ameaça.
Neste episódio, o autor aborda a imagem pop de Freud e da psicanálise no Brasil em pleno regime militar e debate a hipótese de que o boom do campo nos anos 1970 está relacionado a mudanças mais amplas nas formas de nomear o sofrimento psíquico: em uma sociedade que se transformava muito intensamente, a psicanálise e outras terapias ofereciam uma nova gramática tanto para conceber o mundo quanto para se entender nele.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 21 Dec 2024 - 208 - Ernesto Rodrigues: Globo foi mais espelho do Brasil que Grande Irmão
Ernesto Rodrigues, que acaba de lançar o primeiro volume de uma trilogia sobre a história da Rede Globo, diz não acreditar em isenção no jornalismo. Para ele, um esforço sincero para apresentar as várias interpretações de um acontecimento é o melhor caminho.
O autor afirma ter se guiado por esse princípio ao escrever sobre os quase 60 anos da Globo, a partir, principalmente, dos depoimentos do acervo institucional da emissora.
O retrato que surge do primeiro livro, "Hegemonia: 1965-1984", é mais comedido que outros trabalhos sobre a Globo. Rodrigues narra, o imbróglio relacionado ao acordo com o grupo americano Time-Life, o alinhamento de Roberto Marinho com a ditadura militar e a parcialidade em coberturas históricas, como as greves do ABC e o comício na praça da Sé em janeiro de 1984.
O jornalista, por outro lado, recusa a ideia de orquestração deliberada para manipular a opinião pública do país. Em sua opinião, a Globo foi, ao longo da sua história, mais espelho do Brasil, tanto na dramaturgia quanto no noticiário, que um Grande Irmão que tentou dominar a mente dos brasileiros.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Lucas MonteiroSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 07 Dec 2024 - 207 - André Roncaglia: Agro e bets transformam Brasil em 'fazendão com cassino'
A desigualdade brasileira tem uma gramática intricada, muitas vezes invisível às pessoas comuns. Esse é o ponto de partida de "Poder e Desigualdade", de Cesar Calejon e André Roncaglia.
Roncaglia, professor da UnB e diretor-executivo do Brasil no FMI, debate neste episódio a evolução da economia brasileira nas últimas décadas. O pesquisador também discute as características do que chama de um novo espírito do tempo, marcado por um individualismo que valoriza riscos e se afasta de organizações coletivas.
"Poder e Desigualdade" propõe que, com o avanço da agropecuária na estrutura produtiva do país e de bets e coaches na subjetividade dos trabalhadores, o Brasil está se transformando em um "fazendão com cassino".
Roncaglia defende que, para ter chances nesse cenário, a esquerda precisa encontrar um novo discurso e passar a dialogar com as aspirações de prosperidade e de recompensa pelo esforço e pelo mérito individual, ainda que desafiando essas ideias.
O pesquisador também abordou o papel da sensação de estagnação do poder de compra na vitória de Donald Trump e o que o resultado das eleições tem a dizer sobre a política econômica que Joe Biden implementou em seu mandato.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Lucas MonteiroSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 23 Nov 2024 - 206 - Tiago Rogero: Brancos são o grupo identitário dominante no Brasil
Em 2018, Tiago Rogero ouviu a escritora Conceição Evaristo falar, em uma palestra, que as escolas brasileiras ensinavam a Revolução Farropilha, no Rio Grande do Sul, mas não a Revolta dos Malês, levante de escravizados de Salvador em 1835.
O jornalista diz que, depois disso, passou a pensar nas histórias nunca foram contadas ou silenciadas sobre a herança africana do país. Dessa inquietação, surgiu a ideia se debruçar sobre o passado do Brasil a partir das experiências e do protagonismo de pessoas negras.
Nasceu assim o projeto Querino, investigação jornalística coordenada por ele que resultou em um podcast narrativo de oito episódios, lançados em 2022.
A série em áudio acaba de virar livro pela Fósforo. O espírito da obra é ampliar e aprofundar questões e temas discutidos no podcast, mantendo a estrutura e o tom que centenas de milhares de ouvintes conhecem bem.
Rogero, hoje repórter do jornal The Guardian, fala neste episódio sobre os desafios que enfrentou para transpor o áudio para o registro escrito e discute a dificuldade do Brasil de lidar com o passado escravocrata e reconhecer como africanos e seus descendentes forjaram o país.
Ele diz que os brancos são o grupo que sempre dominou a pauta identitária brasileira e defende que a luta compartilhada com outros grupos étnico-raciais é essencial para o movimento antirracista hoje.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 09 Nov 2024 - 205 - Jessé Souza: Direita e religião souberam manipular a raiva dos pobres
Por que eleitores pobres que votaram em Lula e Dilma em quatro eleições seguidas passaram a dar vitórias à direita? O sociólogo Jessé Souza tenta responder a essa questão em seu mais recente livro, o recém-lançado "O Pobre de Direita: A Vingança dos Bastardos" (Civilização Brasileira).
Jessé, entrevistado deste episódio, divide essa classe empobrecida de eleitores em dois grupos: o pobre branco de São Paulo e do sul do Brasil e o negro evangélico. Em comum, ambos manifestam repúdio pela esquerda, por políticas de inclusão de grupos marginalizados e por programas como o Bolsa Família. Guardam, entretanto, diferenças significativas, que remetem às desigualdades do país, avalia ele.
Na entrevista, Jessé também comenta o segundo turno em São Paulo, diz que o PT deveria aprender com Getúlio Vargas e argumenta que a esquerda em geral afasta eleitores ao dar protagonismo a pautas identitárias.
Produção e apresentação: Marco Rodrigo Almeida Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 19 Oct 2024 - 204 - Daniel Santini: Direita hoje vê tarifa zero como solução
Quando as manifestações de Junho de 2013 estouraram, era fácil situar politicamente a defesa da gratuidade no transporte coletivo: o movimento estava ligado à esquerda.
Dez anos depois, tudo mudou. O número de cidades brasileiras com tarifa zero universal passou de 19 em 2013 para 116 em 2024, e a maioria delas é governada por partidos de direita.
Esse cenário é analisado por Daniel Santini no recém-lançado "Sem Catraca: da Utopia à Realidade da Tarifa Zero". Para o autor, a pandemia de Covid-19 escancarou que o transporte coletivo está colapsando no país.
Neste episódio, ele afirma que mesmo uma política de gratuidade mal desenhada é melhor que o modelo atual, baseado na receita das catracas, e se contrapõe às críticas que qualificam a tarifa zero como algo irrealizável.
Ouça também: Junho de 2013 tornou passe livre um debate possível, diz Roberto Andrés Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 05 Oct 2024 - 203 - Ronilso Pacheco: Extrema direita usa gramática religiosa em projeto de radicalização
A Igreja foi uma peça fundamental do colonialismo europeu e da escravização de africanos, mas a espiritualidade cristã pode se comprometer com um projeto de emancipação.
Esse é o horizonte de "Teologia Negra: o Sopro Antirracista do Espírito", de Ronilso Pacheco, publicado em 2019 e relançado neste mês. Para Pacheco, a teologia não deve continuar a ser vista como uma área de estudo puramente especulativa, sem contato com a realidade social. Em vez disso, ele defende que se considere que a teologia nasceu no deserto, referência à jornada de libertação narrada no Êxodo.
A religiosidade, nessa perspectiva, vem da experiência concreta da opressão —e a teologia negra, além de ressaltar as raízes africanas de acontecimentos e personagens bíblicos, disputa a própria ideia de uma espiritualidade universal, desvinculada da história dos povos.
Pacheco é mestre em teologia pela Universidade Columbia, diretor do Iser (Instituto de Estudos da Religião), pastor auxiliar da Comunidade Batista e colunista do UOL. Na entrevista, ele afirma que a representação de Jesus como homem branco contribuiu para legitimar a escravidão e reverbera até hoje, por exemplo, na intolerância contra religiões de matriz africana.
O pesquisador discute os riscos do nacionalismo cristão, movimento de extrema direita que, em sua avaliação, usa uma gramática religiosa para subjugar a sociedade a um cristianismo conservador, e aborda as perspectivas de organização política nesse contexto.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 14 Sep 2024 - 202 - Marcelo Viana: Avanço da IA desafia ideia de superioridade humana
Em 1611, Johannes Kepler apontou que organizar laranjas como os feirantes fazem hoje em dia —em arranjos hexagonais e camadas sobrepostas— era a melhor forma de aproveitar o espaço disponível. O astrônomo e matemático alemão, no entanto, não conseguiu provar essa conjectura na época e o problema só foi de fato resolvido em 2017, mais de 400 anos depois.
Tanto tempo para tão pouco, muitas pessoas podem pensar. Afinal, que diferença isso faz?
Em "Histórias da Matemática: da Contagem nos Dedos à Inteligência Artificial" (Tinta-da-China Brasil), Marcelo Viana mostra que até as pesquisas mais teóricas podem dar origem a novas tecnologias, mesmo que, em alguns casos, isso demore vários séculos.
O pesquisador escreve que o problema do empacotamento de esferas (o exemplo das laranjas) ajuda hoje a detectar e corrigir erros de transmissão de informações e que pesquisas sobre números primos foram fundamentais para desenvolver a criptografia moderna, além de lembrar os desdobramentos na astronomia e na física, por exemplo, viabilizados pela matemática.
Não que a utilidade imediata deva ser o único critério da ciência, diz Viana, diretor-geral do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), no Rio de Janeiro, um dos mais renomados centros de investigação matemática do mundo, mas pesquisadores não devem perder de vista as consequências concretas dos seus estudos.
"Histórias da Matemática" reúne, em edição revista e atualizada, colunas publicadas na Folha, onde Viana escreve desde 2017.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 31 Aug 2024 - 201 - Ligia Diniz: Ficção também deveria fetichizar corpos masculinos
Se a leitura de um romance é uma espécie de alucinação —em que a pessoa que lê experimenta a vida de personagens—, quantas vezes as mulheres alucinaram ser homens?
Esse é um dos pontos de partida de "O Homem Não Existe: Masculinidade, Desejo e Ficção" (Zahar), de Ligia Gonçalves Diniz, crítica literária e professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
No livro, a autora discute como essa alucinação, movida pela hegemonia masculina na literatura, molda a subjetividade das mulheres. Em primeiro lugar, Diniz questiona de que forma ler como um homem por tanto tempo influenciou como ela própria se vê no mundo.
A pesquisadora busca ultrapassar os termos usuais da equação de gênero, discutindo como obras de ficção incorporam obsessões fálicas e narrativas elogiosas de homens em fúria.
Na entrevista, Diniz insiste ser essencial trazer a noção de corpo para esse debate e defende que escritores misóginos e obras machistas não deixem de ser lidos, por permitirem, entre outros motivos, conhecer os opressores por dentro.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 17 Aug 2024 - 200 - Paolo Demuru: Conspirações seduzem por oferecer encanto
Não é incomum que, depois de ver uma fake news ser desmentida, o que permaneça reverberando seja a própria informação falsa. Para Paolo Demuru, esse efeito mostra que tentar enfrentar a desinformação e narrativas conspiratórias usando só dados objetivos e argumentos racionais não é suficiente.
Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Demuru discute em "Políticas do Encanto" os mecanismos do conspiracionismo e como as forças progressistas podem lidar com esse fenômeno.
O autor aponta que fantasias de conspiração, além de oferecer explicações simples para problemas assustadores, permitem que as pessoas encontrem um propósito e se sintam parte de uma comunidade. Em outras palavras, proporcionam maravilhamento em um mundo competitivo e individualista.
Neste episódio, Demuru debate a atitude preponderante em boa parte da esquerda hoje —que, por não se desvencilhar do que ele chama de supremacismo da razão, acaba se comportando como uma estraga festa.
Para o pesquisador, recorrer à indignação só funciona até certo ponto: se quiser construir maiorias, a esquerda precisa apostar na esperança, disputar o encanto e usar o entusiasmo para engajar as pessoas.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 03 Aug 2024 - 199 - Camilo Rocha: Música eletrônica combinou contracultura e elitização
A história de São Paulo é entremeada com a história da cena de música eletrônica da cidade.
Camilo Rocha defende a ideia em "Bate-estaca", livro que registra as transformações da noite e da própria São Paulo desde o fim dos anos 1980, quando DJs deixaram de ser figuras quase desconhecidas, gêneros como house e techno tomaram as pistas e o movimento clubber ganhou força na cidade.
O autor é, ao mesmo tempo, observador e participante da história que narra: DJ e jornalista, Rocha acompanhou as mudanças dos sons e dos comportamentos na noite paulistana, as marcas da desigualdade de São Paulo nesse universo cultural e a explosão das raves nas proximidades da capital.
Também assistiu à hiperfragmentação e a elitização da música eletrônica que levaram à decadência da cena em São Paulo na metade dos anos 2000.
Na entrevista, Rocha fala sobre os clubes underground que ajudaram a projetar drag queens ao mainstream da cultura brasileira e a oferecer espaços de socialização a pessoas LGBTQIA+ e das fricções entre utopias filiadas à contracultura e o impulso de sucesso comercial que permeiam essa história.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliEste episódio inclui a faixa "Gimme Fantasy", do DJ Mr. Gil
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 20 Jul 2024 - 198 - Natalia Viana: Sem Assange e WikiLeaks, não teria havido Vaza Jato e Lula 3
Natalia Viana tinha acabado de conhecer Julian Assange, em novembro de 2010, quando recebeu dele o recado em um papel: "Não fale uma palavra".
A jornalista brasileira viajou para Londres sem saber quase nada sobre o projeto em que acabaria se envolvendo, mas logo se deu conta do alcance e dos riscos do que Assange e o WikiLeaks estavam planejando: a divulgação de 250 mil telegramas de embaixadas dos Estados Unidos.
No recém-lançado "O Vazamento", a autora apresenta um balanço dessa experiência, que marcou a sua trajetória e mudou os rumos da sua carreira —bem como transformou o jornalismo nos anos 2010 e influenciou negociações diplomáticas e protestos populares ao redor do mundo.
O livro transporta os leitores para o casarão, no interior da Inglaterra, em que a equipe se isolou antes da divulgação dos documentos e retrata a personalidade de Assange, registrando atitudes machistas e sua postura controladora, ao mesmo tempo que reconhece sua grandeza como figura histórica.
O fundador do WikiLeaks passou os últimos 12 anos privado de liberdade. No fim de junho, ele se declarou culpado, como parte de um acordo para ser libertado, de uma acusação baseada na Lei de Espionagem dos EUA.
Neste episódio, a jornalista diz que esse desfecho cria um precedente que ameaça o trabalho de jornalistas investigativos em todo o mundo e critica o uso, nos EUA, da ideia de segurança nacional para deslegitimar a publicação de documentos confidenciais de interesse público e apagar da história iniciativas como o WikiLeaks.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 06 Jul 2024 - 197 - [Conteúdo Patrocinado] Podcast discute o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes
A cada hora, seis crianças ou adolescentes são vítimas de violência sexual no Brasil. Mas esse número deve ser bem maior, porque apenas 8,5% dos casos são notificados. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023 aponta ainda que denúncias desse tipo de violência aumentaram 16,4%, em 2022, e a maioria das vítimas tem entre 10 e 17 anos.
O combate à exploração sexual de crianças e adolescentes é causa social da Vibra, a maior distribuidora de combustíveis e lubrificantes do Brasil, e tema de podcast realizado em parceria com o Estúdio Folha, ateliê de conteúdo patrocinado da Folha de S.Paulo.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Thu, 27 Jun 2024 - 196 - Raquel Barreto: Lélia Gonzalez captou resistência de negros em festas populares
Lélia Gonzalez (1935-1994), uma das mais celebradas intelectuais negras brasileiras do século 20, publicou dois livros em vida.
"Lugar de Negro" saiu em 1982, em coautoria com Carlos Hasenbalg. Já "Festas Populares do Brasil" foi lançado cinco anos depois. A obra teve patrocínio da Coca-Cola, e seus 3.000 exemplares foram distribuídos como presente de fim de ano.
Por isso, o livro sempre teve uma circulação muito restrita —até agora, quando chega ao mercado em uma edição da Boitempo com materiais inéditos e textos de apoio.
Neste episódio, o podcast recebe Raquel Barreto, curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio, pesquisadora do pensamento de Lélia e autora do prefácio de "Festas Populares do Brasil".
Ela discute como Lélia interpretou no trabalho a formação da cultura brasileira, partindo da ideia de que os africanos trazidos para o Brasil precisaram encontrar formas para recriar suas práticas culturais nos interstícios da escravidão, e fala sobre o papel das imagens na obra.
O volume têm registros do bumba meu boi de São Luís, das cavalhadas de Pirenópolis, da celebração de Iemanjá de Salvador e do Carnaval do Rio, entre outras festas, produzidos por fotógrafos como Januário Garcia, Marcel Gautherot, Maureen Bisilliat e Walter Firmo.
Veja aqui galeria de fotos do livro
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael Concli Leitura de trecho do livro: Priscila CamazanoSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 22 Jun 2024 - 195 - Carlos Poggio: Brasil freou ação imperial dos EUA na América do Sul
Para entender como os EUA exercem seu poder no resto do continente, é preciso se afastar do conceito de América Latina. Essa ideia é defendida por Carlos Poggio em "O Império Ausente", resultado da sua tese de doutorado em relações internacionais.
Poggio, hoje professor universitário no Kentucky, ressalta que o padrão de intervenção dos EUA nos últimos dois séculos foi muito diferente na região que abarca o México, a América Central e o Caribe e na América do Sul.
O pesquisador aponta que, na sua vizinhança mais imediata, os Estados Unidos consolidaram uma ação imperial mais nítida —com a desestabilização indireta de governos eleitos ou a invasão de países por tropas militares. Na América do Sul, por outro lado, o Brasil, pilar da estabilidade regional, afetou a equação de custos e benefícios de intervenções americanas mais severas.
Essa análise dá peso à política externa brasileira e refuta a ideia de que o país segue os ditames de Washington como um fantoche. O retrato que emerge, no entanto, pode ser ainda mais desabonador para o país, como no caso do envolvimento da ditadura militar brasileira no golpe no Chile em 1973.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 08 Jun 2024 - 194 - Luís Fernando Tófoli: Ayahuasca não pode ser sequestrada pelo capitalismo
O Ilustríssima Conversa desta semana recebe Luís Fernando Tófoli, professor de psiquiatria da Unicamp e coordenador da Icaro, rede de pesquisa e divulgação sobre a ayahuasca.
Tófoli é um dos organizadores de uma coletânea de textos sobre a bebida psicodélica. "Visões Multidisciplinares da Ayahuasca" reúne trabalhos que analisam, entre outros temas, a história do uso do chá no Brasil, as evidências de seu potencial no tratamento de transtornos mentais e seus efeitos no cérebro humano.
Na entrevista, Tófoli discute a evolução das pesquisas sobre a ayahuasca e o que se sabe hoje sobre seus efeitos terapêuticos em pacientes com depressão e o que ainda precisa ser investigado.
O pesquisador também trata das demandas de povos originários —a ayahuasca, afinal, tem raízes em grupos indígenas da América do Sul— e dos rumos atuais da política de drogas do Brasil.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 18 May 2024 - 193 - Pedro Arantes: PT virou unidade de política pacificadora
A imagem de uma multidão rumando às sedes do poder para derrubar um regime político não era, até pouco tempo atrás, uma fantasia da direita. Rebeliões desse tipo foram uma utopia da esquerda desde, pelo menos, a Revolução Russa. A invasão do Capitólio e o 8 de Janeiro escancaram, nesse sentido, uma grande transformação simbólica.
As sucessivas inversões entre direita e esquerda, ordem e desordem e pacificação e insurgência na história brasileira recente são o fio condutor de "8/1: a Rebelião dos Manés" (Hedra), de Pedro Arantes, Fernando Frias e Maria Luiza Meneses.
Arantes, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e convidado deste episódio, defende que as forças progressistas devem levar a sério as propostas e as ações da extrema direita brasileira.
Para ele, o 8 de Janeiro é uma oportunidade para a esquerda refletir sobre seus rumos recentes —em uma conjuntura de perda de vitalidade e conformação em administrar uma ordem precária e desigual.
Na entrevista, o pesquisador aborda as prisões e as condenações de participantes do 8 de Janeiro. Para Arantes, Alexandre de Moraes e o STF estão subindo a régua do punitivismo, o que instaura um controle totalitário sobre iniciativas de contestação social que se abate tanto sobre golpistas de direita quanto sobre movimentos de esquerda.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 04 May 2024 - 192 - Monica Benicio, viúva de Marielle: Prisões não encerram luta por justiça
Pouco mais de seis anos depois do assassinato de Marielle Franco, a Polícia Federal prendeu no fim de março o deputado federal Chiquinho Brazão, Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, e o delegado Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil fluminense.
Esse desfecho, porém, não deve ser visto como o fim do movimento de luta por justiça por Marielle Franco e Anderson Gomes, diz Monica Benicio, viúva da vereadora.
Para ela, que hoje também ocupa uma cadeira na Câmara Municipal do Rio pelo PSOL, as investigações precisam continuar para apurar a eventual participação de outras pessoas no caso. Benicio defende, por outro lado, que o clamor pela elucidação do crime se desdobre em um projeto de futuro —de combate às desigualdades e às opressões de gênero, orientação sexual e raça.
Ela acaba de lançar "Marielle & Monica: uma História de Amor e Luta", obra que apresenta um relato íntimo do relacionamento entre elas. Benicio expõe os altos e baixos de uma relação intensa e o sofrimento depois do assassinato de Marielle, período em que enfrentou depressão, alcoolismo e diz ter encontrado no engajamento político e na escrita das memórias da sua vida com Marielle caminhos para elaborar seu luto.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 20 Apr 2024 - 191 - Carlos Fico: O que separa o discurso bolsonarista da propaganda da ditadura
Mesmo quem nasceu depois do fim da ditadura provavelmente tem na cabeça alguns dos slogans ou das canções criados pelo regime militar. "Este é um país que vai pra frente" e "Brasil: ame-o ou deixe-o" continuam ecoando quase 40 anos depois da redemocratização, o que indica que a propaganda teve êxito em seus objetivos.
Para Carlos Fico, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), isso se deve, sobretudo, à forma como a ditadura militar mobilizou um imaginário nacional muito arraigado: a visão otimista que concebia o Brasil como um país destinado à grandeza.
O historiador acaba de lançar uma nova edição de "Reinventando o Otimismo", livro que examina como a ditadura mobilizou os discursos otimistas sobre o Brasil para criar uma propaganda que parecia despolitizada.
Neste episódio, Fico afirma que as campanhas do regime encapsulavam a ideia, dominante entre os militares, de que a sociedade brasileira precisava ser tutelada pelas Forças Armadas para que o país pudesse se desenvolver.
O autor também compara a utopia da ditadura, que imaginava um futuro brilhante para o Brasil, e os discursos atuais do bolsonarismo e da extrema direita, centrados na restauração dos valores de um passado visto com nostalgia.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Laila Mouallem e Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 06 Apr 2024 - 190 - Fernando Pinheiro: Como Clarice Lispector e Paulo Coelho forjaram suas imagens literárias
Uma obra literária, diz Fernando Pinheiro, professor de sociologia da USP, pode ser entendida como a soma do texto escrito e da imagem do seu autor —e a forma como os escritores se projetam tem forte influência sobre a posição que conseguem alcançar no sistema literário.
No recém-publicado "O Mago, o Santo, a Esfinge", Pinheiro se concentra nas representações de Paulo Coelho, Manuel Bandeira e Clarice Lispector. Os ensaios reunidos no livro analisam como os autores se tornaram personagens distintos da literatura brasileira.
Neste episódio, o pesquisador discute por que Paulo Coelho, mesmo tendo vendido mais de 300 milhões de cópias em todo o mundo, nunca ultrapassou uma condição marginal no campo literário do país.
Pinheiro também explora como Clarice Lispector, por outro lado, conseguiu manejar um aparente paradoxo: se transformar em esfinge, considerada até hoje uma escritora indecifrável e, ao mesmo tempo, recusar a figura de intelectual, afirmando, por exemplo, que não gostava de ler e que escrevia crônicas para se sustentar.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 16 Mar 2024 - 189 - Mauricio Stycer: Como Gilberto Braga mudou as novelas no Brasil
Poucos nomes marcaram tanto a telenovela no Brasil quanto Gilberto Braga. Nas quatro décadas em que escreveu para a TV, criou grandes sucessos, abordou temas que se tornaram discussões nacionais e cativou intelectuais como nenhum outro colega de profissão. Também trouxe uma sensibilidade diferente para o gênero, com um olhar mais sofisticado para o mundo dos ricos e das classes médias.
A trajetória do escritor é tema da biografia "Gilberto Braga: O Balzac da Globo" (ed. Intrínseca), escrita por Mauricio Stycer. "A obra dele tinha características que permitiam fazer essa alusão a Balzac", comenta o biógrafo, jornalista especializado em TV e colunista da Folha.
Na entrevista ao Ilustríssima Conversa, Stycer fala sobre essa trajetória e como Gilberto Braga e outros autores fizeram da novela o grande produto audiovisual brasileiro.
Produção e apresentação: Marco Rodrigo Almeida Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 02 Mar 2024 - 188 - Noemi Jaffe: Literatura precisa perturbar o leitor
A escritora Noemi Jaffe se inspirou em sua experiência como professora de escrita de ficção para compor seu mais recente livro, "Escrita em Movimento: Sete Princípios do Fazer Literário".
Noemi encara a escrita como um longo processo de aprendizagem que nunca tem fim, por mais consagrado que seja um autor. E a autora também não acredita em regra rígidas ou fórmulas engessadas para a criação.
No lugar disso, Noemi apresenta sete princípios que, a seu ver, são comuns aos bons textos literários: palavras, simplicidade, consciência narrativa, originalidade, estranhamento, detalhes e experimentação.
Neste episódio, ela comenta desde questões mais práticas a outras mais literárias e teóricas. "Tem muito esse pensamento de que a arte deve distrair, e eu acho contrário. Acho que a arte precisa contrair, sei lá, deixar a pessoa mais incomodada, deixar a pessoa perturbada. Grande parte da boa literatura é sobre coisas ruins mesmo, sobre coisas difíceis de enfrentar" reflete.
Produção e apresentação: Marco Rodrigo Almeida Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 17 Feb 2024 - 187 - Guilherme Varella: Carnaval de rua não é bagunça, é direito constitucional
O Carnaval de rua de São Paulo, cidade tantas vezes chamada de túmulo do samba, despertou nos últimos dez anos. Antes acanhada, a festa viu o número de blocos e foliões se multiplicar —e o interesse de patrocinadores aumentou, como também cresceram os conflitos com moradores e episódios de repressão policial.
Guilherme Varella foi um dos coordenadores da política para o Carnaval de rua de São Paulo desenhada a partir de 2013, na gestão Fernando Haddad (PT). Em sua tese de doutorado, agora publicada em livro, ele analisa as balizas, as disputas e os resultados dessa política pública.
Hoje professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Varella propõe em "Direito à Folia" que a ocupação de ruas e espaços públicos por blocos é um direito constitucional, que deve ser viabilizado pelo Estado, não domesticado ou reprimido.
Neste episódio, ele fala sobre os significados históricos e políticos do Carnaval de rua e discute algumas das tensões que cercam essa manifestação cultural, como o crescimento dos megablocos e as ameaças representadas pela "ambevização", do seu ponto de vista, à preservação do espírito transgressor do Carnaval.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 03 Feb 2024 - 186 - Christian Dunker: Psicanálise deve descer do pedestal para dialogar com críticos
No ano passado, houve uma reação intensa ao enquadramento da psicanálise como pseudociência em "Que Bobagem!", livro de Natalia Pasternak e Carlos Orsi.
A contenda motivou Christian Dunker, professor da USP, e Gilson Iannini, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a escrever o livro-resposta "Ciência Pouca É Bobagem: Por Que a Psicanálise Não É Pseudociência", publicado em dezembro.
O trabalho parte das críticas à psicanálise que vieram à tona para discutir, de forma mais ampla, a cientificidade e a eficácia do campo psicanalítico.
Dunker e Iannini investem em três frentes para se contrapor à conceituação da psicanálise como pseudociência. Os autores apresentam evidências para sustentar que a psicanálise tem resultados clínicos, afirmam que uma crença estreita no cientificismo guia parte dos críticos e defendem que as bobagens, vistas como expressões sem significado em outras áreas do conhecimento, são essenciais na escuta psicanalítica.
Dunker, convidado deste episódio, não faz, por outro lado, uma defesa cega de seus colegas: em sua avaliação, psicanalistas brasileiros se acostumaram a habitar um condomínio elitista, se recusam a dialogar com profissionais de outros campos e justificar suas práticas e precisam descer do pedestal para enfrentar a transformação que a psicanálise deve sofrer nos próximos anos.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 20 Jan 2024 - 185 - Rodrigo Nunes: Política pode ser vista como ecologia
Rodrigo Nunes, professor da Universidade de Essex, no Reino Unido, se debruça em seu livro mais recente sobre os grandes dilemas da organização política, que tem oscilado, nas últimas décadas, entre perspectivas mais verticais ou mais horizontais, mais ou menos centralizadas, mais hierarquizadas ou mais autonomistas.
Em "Nem Vertical Nem Horizontal", o autor defende que não faz sentido pensar em uma forma ideal de mobilização política: as dinâmicas de organização são contingentes historicamente e, para Nunes, a transformação social depende da articulação de atores políticos com escalas de ação, estratégias e objetivos diversos, muitas vezes conflitivos.
Neste episódio, o pesquisador discute as linhas gerais do argumento da obra, publicada originalmente em 2021, como a ideia de que a organização está em toda parte e que a política pode ser entendida como uma ecologia —uma trama que faz com que todos os sujeitos políticos sejam interdependentes e que nenhum deles consiga olhar a realidade social de fora dela.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 09 Dec 2023 - 184 - Autora fala de livro sobre Mengele, nazista que se escondeu no Brasil
Josef Mengele, médico que torturou e matou milhares de pessoas em Auschwitz, levou uma vida pacata no Brasil nos anos 1960 e 1970.
Depois da queda de Hitler, Mengele se instalou na Argentina de Perón, fugiu em seguida para o Paraguai e, por fim, chegou ao Brasil, onde contou com uma rede de amigos leais para protegê-lo e alguns golpes de sorte que evitaram que fosse capturado.
Sua identidade foi preservada mesmo depois da sua morte. Mengele se afogou em uma praia em Bertioga em 1979 e foi enterrado com um nome falso em Embu das Artes. A história do fugitivo nazista no Brasil só foi descoberta seis anos depois, causando furor no país e no exterior.
Betina Anton, jornalista da Globo e autora de "Baviera Tropical", tinha seis anos quando a sua professora não apareceu mais na escola. Anton descobriu, anos depois, que ela havia sido uma das responsáveis por dar guarida a Mengele, e desse entrecruzamento surgiu a ideia de esquadrinhar os anos do médico nazista no Brasil.
Neste episódio, a autora fala sobre as fontes de pesquisa de seu livro, os experimentos de Mengele com prisioneiros do campo de concentração e os riscos da extrema direita e de ideologias racistas, que ainda persistem.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Laila MouallemSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 25 Nov 2023 - 183 - Marcelo Medeiros: Desigualdade de gênero e raça vai muito além de questão identitária
Marcelo Medeiros, professor visitante na Universidade Columbia, em Nova York, defende que toda política deve ser uma política de combate à desigualdade.
Em "Os Ricos e os Pobres", o pesquisador expõe alguns contornos da gigantesca concentração de renda do Brasil: os 5% mais ricos da população se apropriam de metade do crescimento econômico do país, enquanto as pessoas entre os 50% mais pobres vivem com menos de R$ 30 por dia.
No livro, o economista e sociólogo também aponta que os 80% mais pobres da população brasileira compõem um universo relativamente igualitário, enquanto o grupo dos mais ricos é muito heterogêneo, com grandes variações de renda.
Neste episódio, Medeiros diz que não existe panaceia para reduzir os níveis de desigualdade no Brasil. Em sua avaliação, esse processo, de longo prazo, requer uma mobilização política de envergadura e vai esbarrar em resistências de grupos organizados.
O pesquisador também discute a sobreposição de desigualdades de gênero, raça e renda no Brasil e afirma que tratar a discriminação de negros e mulheres no mercado de trabalho a partir da noção de política identitária é uma bobagem.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Laila MouallemSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 11 Nov 2023 - 182 - Larissa Bombardi: Agrotóxicos criam colonialismo que chega às células
A agricultura deixou de ser um sinônimo de produção de alimentos há algumas décadas, desde que corporações globais passaram a dominar o setor, diz a professora da USP Larissa Bombardi.
Para a pesquisadora, a massificação do uso de agrotóxicos cria um novo tipo de violência, agora por meio de moléculas que alcançam as células de humanos e outros animais e provocam danos à saúde e ao meio ambiente.
Em "Agrotóxicos e Colonialismo Químico", Bombardi discute o duplo padrão de países europeus, que permitem a exportação de agrotóxicos banidos em seus territórios, o que, para ela, molda uma geografia do abismo, permitindo que empresas químicas da Europa faturem bilhões com a venda de seus produtos para países periféricos.
Neste episódio, a geógrafa afirma que as mulheres estão entre as mais afetadas pelo uso de agrotóxicos e, ao mesmo tempo, são protagonistas em movimentos de denúncia desse modelo de produção e em experiências de agroecologia.
Bombardi também falou sobre a liberação de agrotóxicos durante o governo Bolsonaro (PL) e das intimidações que a fizeram deixar o Brasil.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 21 Oct 2023 - 181 - Aviso: Novo episódio vai ao ar em 21 de outubro
Em razão do feriado, o novo episódio do Ilustríssima Conversa vai ao ar em 21 de outubro.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 14 Oct 2023 - 180 - Flavia Rios: STF branco reflete racismo estrutural do Brasil
Branquitude, democracia racial, interseccionalidade, mestiçagem, raça —os termos usados no debate étnico-racial são complexos, têm histórias longas e podem ser objeto de interpretações disputadas.
Para ajudar leitores interessados a navegar por esse universo, Flavia Rios, Marcio André dos Santos e Alex Ratts organizaram o recém-publicado "Dicionário das Relações Étnico-raciais Contemporâneas".
O livro tem 55 verbetes, escritos por mais de 70 especialistas, que dão uma visão geral da trajetória acadêmica de cada expressão, seus principais autores e as críticas mais comuns que recebem.
Convidada deste episódio, Rios discute o conceito de identidade, um dos termos mais controversos do debate atual, e diz estar convencida que o racismo pode ser entendido como estrutural no Brasil —em contraposição à interpretação de Muniz Sodré— e que a composição majoritariamente branca do STF é um sintoma desse fenômeno.
Para ela, Lula erra ao criar obstáculos à indicação de uma mulher negra à corte e perde a chance de acompanhar o debate global sobre a representação de grupos radicalizados em instâncias de poder.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 30 Sep 2023 - 179 - Bruno Paes Manso: Periferias criaram governo de baixo para cima com facções e igrejas
Um homicídio em 1993 deu origem a conflitos que resultaram em 156 mortes em cinco anos. Esse dado, incluído em "A Fé e o Fuzil", de Bruno Paes Manso, sintetiza o cenário de violência nas periferias de São Paulo na época: um assassinato levava a ciclos de vingança intermináveis, produzindo um efeito bola de neve.
A situação, que parecia não ter saída, foi pouco a pouco se distensionando. Não de cima para baixo, a partir das polícias ou da Justiça, mas principalmente de baixo para cima, argumenta o jornalista em seu livro recém-lançado.
Manso chama a atenção para o novo sistema de valores difundido por igrejas pentecostais e por facções criminosas e afirma que a reprogramação de mentes por meio da conversão permitiu que o Brasil popular das periferias inventasse mecanismos para se governar.
Neste episódio, o autor diz que a onda pentecostal recorre à imagem do Deus vingativo do Antigo Testamento e impulsiona discursos de batalha espiritual e perseguição a infiéis, em que a pretensa guerra do bem contra o mal logo passa a influenciar os rumos da política nacional.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 16 Sep 2023 - 178 - Gabriela Leal: Grafitti não é tinta no muro, é reinvenção da cidade
O grafitti —uma das expressões da cultura hip-hop, que completa 50 anos— é muito mais que tinta no muro, diz a antropóloga Gabriela Leal.
Autora de uma dissertação de mestrado sobre os usos do espaço urbano no universo da arte de rua, ela afirma que o grafitti é uma maneira de existir nas cidades, que molda como seus praticantes concebem o mundo e se enxergam nele.
A pesquisa, agora editada no livro "Cidade: Modos de Ler, Usar e se Apropriar", descreve os princípios éticos e morais que regem a cena do grafitti em São Paulo.
Leal também registra as relações entre os praticantes e seus espaços de socialização na cidade, apontando como o conhecimento é transmitido entre as gerações e como os iniciantes se formam e constroem sua reputação.
Neste episódio, a pesquisadora discute como uma distinção entre arte e vandalismo passou a estruturar os discursos e as leis sobre o grafitti e a pixação e explora algumas das contradições que os grafiteiros enfrentam ao tentar se inserir no mercado de arte, um movimento que vem se intensificando nas últimas décadas.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliOuça o novo podcast da Folha, Caso das 10 mil
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 02 Sep 2023 - 177 - Antônio Bispo: Estado e partidos são colonialistas
O pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos buscou no Gênesis o documento de fundação da humanidade eurocristã. Para ele, ao apartar os humanos da natureza e criar a imagem de um Deus terrorista, a Bíblia deu origem à cosmofobia, um regime monoteísta em que só cabe um modo de existir no mundo.
Essa impossibilidade de relacionamento orgânico com outras vidas, ele diz, é o pilar do colonialismo e explica a perseguição aos povos tradicionais, que se veem como criaturas da natureza e não têm a pretensão de se tornar criadores de um mundo sintético.
Bispo apresenta, em "A Terra Dá, a Terra Quer", sua crítica ao pensamento decolonial e defende que o Estado, os partidos políticos e os sindicatos carregam o colonialismo em suas estruturas e que, por isso, os governos reproduzem essa lógica, sejam de direita, sejam de esquerda.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 19 Aug 2023 - 176 - Rosane Svartman: O presente e o futuro das novelas
As telenovelas não só sobreviveram às mudanças tecnológicas, mas também são a melhor aposta para o futuro do audiovisual brasileiro. É o que argumenta Rosane Svartman, autora da novela "Vai na Fé", um dos maiores sucessos recentes da TV Globo, que levou à telinha uma protagonista evangélica.
Além de trabalhar como criadora, Svartman também tem um trabalho como pesquisadora. Ela acaba de publicar "A Telenovela e o Futuro da Televisão Brasileira" (ed. Cobogó), fruto da pesquisa de doutorado dela na UFF (Universidade Federal Fluminense).
Na obra, Svartman explica as matrizes do gênero, conta como funciona a criação de uma história do tipo nos bastidores —e analisa como fica a novela com as transformações recentes do mercado audiovisual.
Convidada do Ilustríssima Conversa deste sábado (5), Svartman discute ainda o que as novelas brasileiras têm de particular, analisa a influência delas nos debates da sociedade e projeta qual será o papel dessas narrativas no futuro.
Produção e apresentação: Maurício Meireles Edição de som : Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 05 Aug 2023 - 175 - Adriana Abujamra: Arqueóloga revolucionou a região da Serra da Capivara
A arqueóloga franco-brasileira Niéde Guidon, que recentemente completou 90 anos de idade, é a grande responsável pelo projeto que transformou a Serra da Capivara em parque nacional, e promoveu mudanças drásticas na vida da população que habitava a região.
Para contar essa história, a jornalista Adriana Abujamra viajou ao sertão do Piauí, onde conversou com a arqueóloga e com muitos dos outros personagens envolvidos no processo de construção do patrimônio cultural. Os relatos se somam à pesquisa de Adriana, convidada do Ilustríssima Conversa deste sábado (22), no livro "Niéde Guidon: uma arqueóloga no sertão", da editora Rosa dos Tempos.
Foi a partir dos anos 1970 que Niéde pôde ver de perto as pinturas rupestres e iniciar os trabalhos de escavação que, de tão surpreendentes, colocaram em dúvida a teoria corrente sobre a origem do homem nas Américas. A questão permanece um impasse científico entre especialistas.
Os sertanejos que ocupavam o local têm uma relação complexa com a arqueóloga. Alguns foram removidos de suas terras, e a culpam por isso, outros puderam ficar e veem nela o esforço contínuo por melhorar as condições de vida na Serra da Capivara.
Produção e apresentação: Caio Sens Edição de som: Raphael ConcliOs áudios usados na entrevista foram gravados por Adriana Abujamra e cedidos ao podcast.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 22 Jul 2023 - 174 - Roberto Andrés: Junho de 2013 tornou passe livre um debate real
O Ilustríssima Conversa volta ao debate sobre os 10 anos de Junho de 2013. O convidado do episódio deste sábado (8), o urbanista Roberto Andrés, acaba de lançar o livro "A Razão dos Centavos - Crise Urbana, Vida Democrática e as Revoltas de 2013" (ed. Zahar).
Em um panorama amplo que vai do período imperial ao terceiro mandato de Lula, Andrés mostra como a urbanização descontrolada e os problemas de transporte público intensificam a desigualdade e estimularam revoltas ao longo da história.
Professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, Andrés realça em sua pesquisa o vínculo central da crise urbana com Junho de 2013, embora os protestos tenham depois sido associados a uma vasta gama de pautas e reivindicações.
Como legado positivo dos atos, ele destaca que a ideia da tarifa zero para o transporte público deixou de ser um sonho para se tornar um debate possível, encampado até por prefeitos de fora da esquerda. Por outro lado, o autor pondera que a agenda urbana continua sem receber a devida atenção por parte do governo federal.
Produção e apresentação: Marco Rodrigo Almeida Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 08 Jul 2023 - 173 - Como Oswald de Andrade conheceu Vinicius de Moraes fugindo da guerra
Em 1939, o poeta, escritor e polemista Oswald de Andrade, um dos expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922, foi à Europa representar o Brasil num congresso literário. Àquela altura, ele e sua então mulher, a poeta Julieta Barbara Guerrini, tinham decidido passar uma temporada no Rio de Janeiro.
O casal partiu da Praça Mauá rumo a Londres, de onde iriam para Estocolmo, onde encontrariam escritores de diversos países. O que os dois não esperavam é que as tropas de Hitler fossem invadir a Polônia, dando início ao que seria a Segunda Guerra Mundial.
O escritor, pesquisador e também músico carioca Mariano Marovatto, convidado do podcast Ilustríssima Conversa deste sábado (24), conta as peripécias de Oswald e Julieta na Europa em seu recém-lançado "A Guerra Invisível de Oswald de Andrade" (editora Todavia).
O fundamental naquele momento era dar um jeito de retornar ao Brasil. A melhor opção era tentar ir para Portugal, país que havia se declarado neutro. O casal passou por boas aventuras antes de conseguir chegar a Lisboa –entre elas, uma movimentada viagem a bordo de uma ambulância. Na capital portuguesa, entre outros episódios, o livro narra o encontro de Oswald com o jovem poeta carioca Vinicius de Moraes.
Produção e apresentação: Marcos Augusto Gonçalves Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 24 Jun 2023 - 172 - Mauricio Stycer: O Homem do Sapato Branco e o sensacionalismo na TV
Jacinto Figueira Júnior, conhecido como o Homem do Sapato Branco, foi um dos precursores do sensacionalismo na TV brasileira, com programas que apelavam a crimes, barracos de vizinho e confusões na rua.
O personagem é o tema do livro "O Homem do Sapato Branco: A Vida do Inventor do Mundo Cão na Televisão Brasileira" (ed. Todavia), do jornalista, crítico de TV e colunista da Folha Mauricio Stycer, que é o convidado do Ilustríssima Conversa deste sábado (10).
"Sempre me interessaram as ondas de sensacionalismo na história da TV brasileira", diz Stycer. "Em diferentes momentos, há um excesso de apelação e, depois, um refluxo."
Escolheu Jacinto porque, a partir da trajetória dele, é possível ver como esse tipo de programa se estabeleceu no país.
Entre os anos 1960 e os anos 1990, com intervalos e um período de ostracismo no meio, o apresentador teve várias encarnações na TV, dos primórdios da TV Cultura —que ainda tinha Assis Chateaubriand como dono— aos primeiros passos da TV Globo e do SBT.
O apresentador até promoveu inovações na TV ao trazer para o debate público assuntos que não eram retratados ou ao mostrar o que acontecia nas ruas, mesmo com câmeras difíceis de tirar do estúdio. Mas também deixou heranças problemáticas, que podem ser vistas no trabalho de herdeiros atuando hoje na televisão.
Na entrevista ao Ilustríssima Conversa, Stycer conta a trajetória do Homem do Sapato Branco, discute os problemas dos programas sensacionalistas na TV e analisa os dilemas da mistura entre jornalismo e entretenimento. O autor também discute a moda das produções sobre crimes reais, as questões éticas envolvidas na exposição da violência –e como fica o trabalho da crítica de TV no meio disso.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 10 Jun 2023 - 171 - Angela Alonso: País perdeu chance de isolar direita autoritária em 2013
Não basta olhar as Jornadas de Junho de 2013 como a origem de sucessivas crises políticas que o Brasil viveu depois delas. Para entender os protestos que explodiram dez anos atrás, é preciso avaliá-los como uma consequência —e analisar as causas que levaram à sua eclosão.
É essa a espinha dorsal do novo livro de Angela Alonso, professora de sociologia de USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que também é colunista Folha.
Alonso é a convidada do Ilustríssima Conversa deste sábado (27).
Em "Treze - A Política de Rua de Lula a Dilma" (Companhia das Letras), ela analisa as transformações que a chegada do PT ao poder provocou na política de rua, com movimentos à esquerda e à direita começando a articular uma crítica ao governo.
Alonso mapeia os grupos que passaram a se organizar e também os principais conflitos que se desenrolavam na sociedade brasileira desde o começo das gestões petistas, de pautas econômicas a questões morais.
A socióloga sustenta que o governo de Dilma Rousseff e analistas políticos falharam em identificar os movimentos de direita nas ruas e reconhecê-los como atores políticos legítimos. Essa dificuldade impediu que esses grupos fossem levados à mesa de negociação e tivessem suas demandas ouvidas
"Como a interpretação dominante é que eram protestos à esquerda, a resposta governamental também foi à esquerda", afirma ela. "Se esses movimentos tivessem sido ouvidos, teria havido a possibilidade de trazer os mais liberais ou conservadores democráticos para o jogo político-institucional de maneira mais efetiva, em vez de ficarem misturados aos movimentos autoritários, que eram minoria. Há ali uma chance perdida de isolar a parte autoritária da rua."
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 27 May 2023 - 170 - Fernando Limongi: Estamos pagando a conta do impeachment de Dilma
Para afastar um presidente, apenas a vontade da oposição não basta. Afinal, é preciso dois terços dos votos dos parlamentares tanto na Câmara quanto no Senado.
A perda de apoio dos congressistas foi central para a queda da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. Por isso, para entender o processo de impeachment dela, é necessário compreender como a base parlamentar que a petista herdou de Lula implodiu. E como, na hora decisiva, aliados se voltaram contra ela.
O derretimento dessa coalizão é o eixo central do livro “Operação Impeachment - Dilma Rousseff e o Brasil da Lava Jato” (ed. Todavia), escrito pelo cientista político Fernando Limongi, que é professor da USP e da FGV. Ele é o convidado do Ilustríssima Conversa deste sábado (13).
Na obra, Limongi lembra como a aliança de partidos liderada pelo PT governou o Brasil desde a primeira eleição de Lula —e sustenta que a união não tinha nada de frágil.
Para explicar o desmonte dessa base, o cientista político volta ao começo do primeiro mandato de Dilma, quando a presidente fez trocas em ministérios e mudanças na diretoria da Petrobras, abraçando o discurso anticorrupção.
Na entrevista ao podcast, Limongi analisa as consequências dessa escolha de Dilma e como a atuação da Lava Jato contribuiu para a queda dela.
O cientista político defende que Dilma e o PT foram as cargas lançadas ao mar para salvar a embarcação –ou seja, o impeachment seria uma tentativa da classe política de se proteger das investigações do Ministério Público.
Mas ele aponta que, enquanto o PT conseguiu sobreviver como alternativa eleitoral, os partidos que encamparam o impeachment foram os principais prejudicados pelos impactos do processo no sistema político.
"A direita ou centro-direita foi a principal vítima. Tem um lado paradoxal, eles acabaram se matando ali. O Aécio Neves (PSDB-MG) é um símbolo disso", afirma Limongi, acrescentando ver danos desse processo para o bom funcionamento do sistema político hoje. "O impeachment foi uma investida de tolos que acabou prejudicando a todos. Quem está pagando a conta somos nós."
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Fri, 12 May 2023 - 169 - [DICA] Conheça o Brasil à Vista, podcast de políticas públicas da Folha
Te convidamos a conhecer o Brasil à Vista, podcast da Folha de S.Paulo que vai desfazer os nós das políticas públicas e discutir o futuro do país. A cada semana, os apresentadores Irapuã Santana e Angela Boldrini recebem dois especialistas para debater e pensar em soluções para questões estruturantes da sociedade brasileira, como desigualdade de renda, habitação e racismo.
O primeiro episódio estreia nesta quarta-feira (10) e traz a economista Laura Müller Machado e o sociólogo Rafael Osório, do Ipea, em uma conversa sobre a nova cara do Bolsa Família e o futuro do combate à pobreza.
Você encontra o Brasil à Vista nas principais plataformas de podcaste no site da Folha.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Mon, 08 May 2023 - 168 - Luiz Marques: Capitalismo sem limites acelera crise climática
Grande parte do que se sabe hoje sobre o aquecimento global já era conhecido no final dos anos 1970, afirma Luiz Marques, professor aposentado do Departamento de História da Unicamp.
No entanto, o conhecimento científico sobre os mecanismos que provocam o aumento da temperatura do planeta não levou a uma mudança de rumos para mitigar a crise climática que a humanidade vive hoje.
Muito pelo contrário: nas últimas décadas, lembra o historiador, houve uma aceleração do desmatamento, do uso de combustíveis fósseis e de outros processos que, movidos por um capitalismo globalizado que não é capaz de respeitar os limites do planeta, vem emitindo quantidades colossais de gases de efeito estufa na atmosfera.
Ao mesmo tempo, os resultados de convenções internacionais para limitar o aquecimento global são extremamente frustrantes, o que faz com que as ações tomadas nos anos 2020 sejam determinantes para o futuro da vida na Terra e as chances de sobrevivência da humanidade.
Esse é a tese do recém-lançado "O Decênio Decisivo: Propostas para uma Política de Sobrevivência".
Em sua avaliação, esse desafio existencial deve ser enfrentado abandonando o que se entende hoje por realismo: não mais usar o passado como régua do futuro, não mais apostar em mudanças brandas e graduais. Sobreviver em uma era de colapso socioambiental não exige cautela, diz Marques, mas uma redefinição profunda dos fundamentos da economia e da política que regem nossa vida social.
Neste episódio, o autor defende a superação do princípio da soberania nacional absoluta e a subordinação da economia capitalista à dimensão ecológica do planeta. Marques também faz uma avaliação da política ambiental brasileira e das contradições que o governo Lula (PT) terá que enfrentar em relação à Amazônia.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 29 Apr 2023 - 167 - Bela Gil: Trabalho doméstico sem salário não é amor, é escravidão
No clássico "Geografia da Fome", de 1946, Josué de Castro virou pelo avesso o debate sobre o flagelo que assolava milhões de brasileiros. A fome, ele dizia, não pode ser reduzida à falta de alimentos, causada por secas ou outros fenômenos naturais: ela precisa ser vista como uma questão política.
Quase 80 anos depois, o Brasil enfrenta mais uma vez taxas alarmantes de insegurança alimentar, mas hoje, lembra Bela Gil, a fome não é o único nó quando se pensa em comida.
O consumo de ultraprocessados vem impulsionando um novo tipo de desnutrição, em um cenário que, para a chef de cozinha, lembra um genocídio silencioso, que afeta pessoas pobres e racializadas com mais força.
No recém-lançado "Quem Vai Fazer essa Comida", Bela Gil lança um olhar amplo sobre os hábitos alimentares difundidos pelo agronegócio e pela indústria alimentícia.
O livro se distancia da responsabilização individual e reflete sobre as questões econômicas e sociais que fazem com que a alimentação saudável seja um privilégio para poucos.
Neste episódio, a autora defende que é preciso revolucionar a produção e o consumo de alimentos e finalmente remunerar o trabalho doméstico, feito principalmente por mulheres, tão essencial para a existência de outras ocupações fora de casa.
Leia a transcrição do episódio em folha.com/32w05ef4
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Laila MouallemSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 15 Apr 2023 - 166 - Aviso: Novo episódio vai ao ar em 15 de abril
Em razão do feriado de Páscoa, o novo episódio do Ilustríssima Conversa vai ao ar em 15 de abril.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 08 Apr 2023 - 165 - Javier Montes: Luz del Fuego, queer e protofeminista, é bússola para superar intolerância
Durante cinco anos, no final dos anos 1940 e começo dos anos 1950, Luz del Fuego causou alvoroço na entrada do Baile de Gala do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A regra do Carnaval é subverter as regras, mas tudo tem limite.
Durante cinco anos, a dançarina desceu do seu conversível, subiu a escadaria do teatro —algumas vezes carregando uma das suas jiboias, algumas vezes besuntada em óleo, mas sempre completamente nua— e foi barrada pelos porteiros.
Em 1952, para a surpresa de todos, Del Fuego chegou fantasiada de noiva e pôde entrar no baile. O traje de mulher que se rendeu aos bons costumes não era mais que uma fantasia. Dentro do teatro, ela sacou duas pistolas e começou a atirar para o teto, causando um verdadeiro pandemônio entre os convidados.
O escritor espanhol Javier Montes, autor de um livro recém-lançado sobre Luz del Fuego, escolheu essa cena para apresentar aos leitores a dançarina, naturista, guerrilheira urbana ou performer.
São muitas as possibilidades para se referir a ela —em comum, todas parecem estar à frente do tempo em que Luz del Fuego viveu. A falta de palavras para defini-la, diz Montes, correspondeu a uma dificuldade em enxergá-la, o que explica o seu apagamento em vida e depois de seu assassinato, em 1967.
Neste episódio, Montes fala sobre o pioneirismo de Luz del Fuego em várias frentes: ela fundou o primeiro clube naturista da América Latina, em uma ilhota na baía de Guanabara, e tentou criar um partido com o lema "menos roupa e mais pão!".
Foi também uma protofeminista e uma protoqueer, afirma o autor, e incorporou com naturalidade, em sua vida, questões de gênero e sexualidade dissidentes que ainda hoje despertam ódio e preconceito.
Veja fotos de Luz del Fuego e da ilha do Sol em folha.com/z4qenm1t
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 25 Mar 2023 - 164 - Paulo Arantes: Mesmo sem projeto, Lula terá sucesso se frear extrema direita
Paulo Arantes, professor sênior de filosofia da USP, se notabilizou por suas análises críticas das contradições do capitalismo brasileiro e da arquitetura política concebida pelo lulismo.
Agora, no terceiro mês do terceiro mandato de Lula, ele diz que nunca foi tão a favor de um governo. Em sua avaliação, o presidente tem pouca margem para fazer algo diferente das políticas dos governos anteriores do PT, sintetizadas por ele na ideia de redução de danos.
Neste episódio, ele diz não ter certeza que Lula vai conseguir chegar ao fim do ano no Planalto ou cumprir todo o mandato e que seu governo já terá tido sucesso se for capaz de adiar um eventual retorno da extrema direita ao poder.
Arantes acaba de lançar em livro um ensaio publicado no início dos anos 2000, "A Fratura Brasileira do Mundo", que trata do debate sobre a brasilianização dos países desenvolvidos.
Leia a transcrição do episódio em folha.com/51tds08o
Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael ConcliSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Sat, 11 Mar 2023 - 163 - Folha estreia podcast Ilustríssima ConversaWed, 21 Feb 2018
- 162 - Concurso de universidade seleciona sociopatas, diz youtuber Pirula
O biólogo Pirula, dono de canal no YouTube com quase 800 mil inscritos, e o jornalista de ciência Reinaldo José Lopes escreveram juntos o livro "Darwin sem Frescura" (HarperCollins) e participam do podcast da semana. A conversa com Walter Porto...
Mon, 20 May 2019 - 161 - Proibição de drogas foi pauta histórica de esquerda e direita
O convidado do podcast desta semana é o professor Henrique Carneiro, do Departamento de História da USP, que lança o livro "Drogas - A História do Proibicionismo', pela editora Autonomia Literária. Na conversa com o repórter Walter Porto, ele...
Mon, 06 May 2019 - 160 - Estelionato eleitoral passou por cruzado, câmbio e pessimildo, diz ex-ministro
Thomas Traumann, jornalista e ex-ministro de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff, é o convidado do podcast desta semana. No livro “O Pior Emprego do Mundo” (Planeta), analisa a trajetória de ex-ministros da Fazenda desde a ditadura...
Mon, 22 Apr 2019 - 159 - Crimes revelam muito sobre a história das cidades, diz Boris Fausto
O historiador Boris Fausto é o convidado do podcast desta semana. Fausto lança o livro “O Crime da Galeria de Cristal”, no qual reconstitui três assassinatos que tiveram grande repercussão na São Paulo do início do século 20. A partir de...
Mon, 08 Apr 2019 - 158 - Banho de sangue marcou formação do Brasil, conta jornalista
O jornalista Thales Guaracy é o convidado do podcast desta semana. Autor de dois livros sobre o início da história do país - ”A Conquista do Brasil: 1500 - 1600” e “A Criação do Brasil: 1600 - 1700”, ele contesta a autoimagem que o...
Mon, 25 Mar 2019 - 157 - Internet e capital financeiro embaçaram o mundo, diz Guilherme Wisnik
O convidado desta semana é Guilherme Wisnik, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Seu novo livro, “Dentro do Nevoeiro” (Ubu), interliga a história da política mundial, a crítica de arte e uma análise da...
Mon, 11 Mar 2019 - 156 - Descaso com vida humana explica tragédias de Mariana e Brumadinho, diz jornalista
A jornalista Cristina Serra é a convidada do podcast desta semana. Autora de “Tragédia em Mariana” (ed. Record), livro lançado no fim do ano passado sobre o rompimento da barragem na cidade mineira em 2015, ela fala sobre como o descaso do...
Mon, 18 Feb 2019
Podcasts similar to Ilustríssima Conversa
Miguel Sousa Tavares de Viva Voz Expresso
Contra-Corrente José Manuel Fernandes e Helena Matos
TSF - Visão de Jogo - Podcast Luís Freitas Lobo, Sofia Oliveira e Nuno Vieira
A História repete-se Margarida de Magalhães Ramalho e Lourenço Pereira Coutinho
O Bom, o Mau e o Vilão Miguel Pinheiro
A História do Dia Observador
A Vida Dupla do Espião Traidor Observador
E o campeão é... Observador
E o Resto é História Observador
Gabinete de Guerra Observador
Expresso da Manhã Paulo Baldaia
Contas-Poupança Pedro Andersson
O Homem que Mordeu o Cão Rádio Comercial | Nuno Markl
Renascença - Extremamente Desagradável Renascença
Assim Vamos Ter de Falar de Outra Maneira Ricardo Araújo Pereira, Miguel Góis, José Diogo Quintela
O Amor é RTP Antena 1
Prova Oral RTP Antena 3
Realpolitik Sérgio Sousa Pinto e Miguel Pinheiro
Alta Definição SIC
Irritações SIC
Isto É Gozar Com Quem Trabalha SIC
Eixo do Mal SIC Notícias
Leste/Oeste de Nuno Rogeiro SIC Notícias
Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer SIC Notícias
Other Arts Podcasts
Sertanejo Flávio Xavier
Meditation music. Peaceful calm music 528, 432 Hz Nobody
Pagode Por Elas Pagode Por Elas
Legião Urbana Vandelma
David Guetta David Guetta
Alvorada Vintage Alvorada FM | Música
A Dana Perino Podcast: Everything Will Be Okay FOX News Podcasts
Un Libro Una Hora SER Podcast
Rádio Companhia Companhia das Letras
Marília: O outro lado da sofrência G1
The Beatles 57-70 Jaap Kuyper
Samba Mateus Rodrigues
BTS Miah Duarte
97.5 R&B jaylon brice
são coisas são coisas
Románticas Club 2.0 Ivette Chardis y Mónica Linares
吳淡如人生實用商學院 吳淡如
Canción Infantil Bren Alvarado
The Book Club Goalhanger
Una de Vaqueros Israel García
