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RFI Brasil

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

666 - Corrida presidencial brasileira terá reflexos em toda a América Latina, avalia cientista político
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  • 666 - Corrida presidencial brasileira terá reflexos em toda a América Latina, avalia cientista político

    A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 4 de outubro, a campanha entra na reta final marcada mais por denúncias e ataques entre candidatos do que pela discussão de propostas de governo. Em entrevista à RFI, o cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics (LSE), avalia que o ambiente político brasileiro permanece profundamente polarizado e que uma parcela crescente do eleitorado demonstra sinais de esgotamento com a disputa.

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    Segundo Gaspard Estrada, as pesquisas de opinião apontam não apenas uma disputa apertada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o conservador Flávio Bolsonaro, mas também um forte desengajamento dos eleitores. “Há uma forma de crítica dos brasileiros à oferta eleitoral. As pesquisas mostram um forte desengajamento nesse pleito, o que pode ter uma tradução muito concreta no dia da eleição, com aumento da taxa de abstenção, embora o voto seja obrigatório”, afirma.

    Para o especialista, a polarização observada no Brasilnão é um fenômeno isolado. Ele lembra que eleições recentes em outros países da América do Sul também foram decididas por margens mínimas. “Na eleição anterior [2022], a disputa presidencial foi definida por menos de dois pontos. E isso não acontece apenas no Brasil. No Peru e na Colômbia, as últimas eleições também foram definidas por diferenças extremamente estreitas”, ressalta.

    Estrada avalia que a sociedade brasileira está dividida entre dois campos políticos consolidados, mas observa que cresce o desejo de parte do eleitorado por uma alternativa às figuras que dominam a cena política nacional há anos.

    O espaço para um outsider

    Nesse contexto surge a candidatura de Augusto Cury, psiquiatra e escritor sem trajetória partidária tradicional. Para Gaspard Estrada, o fenômeno dos outsiders não é novidade na América Latina. Ele cita exemplos como o ex-presidente peruano Alberto Fujimori e, mais recentemente, Javier Milei na Argentina.

    Apesar disso, o cientista político vê limites para o sucesso desse tipo de candidatura no Brasil. “Um país tão grande e tão complexo como o Brasil tem um sistema político muito fragmentado. É difícil, sem fazer alianças, conseguir governar um país deste tamanho”, afirma. Segundo ele, esse cenário reduz as chances de uma candidatura outsider alcançar um desempenho eleitoral expressivo.

    Economia melhora, mas eleitor não percebe

    Outro ponto destacado pelo cientista político é que embora indicadores econômicos apresentem resultados positivos para o governo Lula, como queda do desemprego, crescimento econômico e redução do desmatamento na Amazônia, boa parte da população não sente esses avanços no dia a dia. “Há um descompasso entre os bons números da macroeconomia e a percepção das famílias. O aumento do salário mínimo acaba sendo corroído pela inflação de itens da cesta básica e pelo aumento do endividamento”, explica.

    Para o pesquisador, esse fator ajuda a entender por que Lula não consegue transformar indicadores favoráveis em uma vantagem mais confortável nas pesquisas eleitorais.

    “O desafio principal do presidente Lula nesses últimos dias de campanha será explicar como um eventual quarto mandato poderá melhorar concretamente a vida dos brasileiros. Não basta falar de soberania ou inteligência artificial. É preciso mostrar o que mudará no cotidiano das pessoas”, afirma.

    A batalha pela narrativa digital

    Estrada também considera que a campanha de Lula pode ter demorado a ampliar sua presença paga nas plataformas digitais. Segundo ele, embora a estratégia digital exista desde o início da disputa, o impulsionamento de conteúdo teria começado tardiamente. “Pelo que a imprensa revelou, a campanha começou a pagar propaganda nas redes sociais apenas nos últimos quinze dias. Isso é muito pouco”, avalia.

    Já o campo bolsonarista, observa, mantém sua tradicional capacidade de mobilização na internet. “O bolsonarismo sempre foi muito eficaz no uso das mídias sociais e, mais uma vez, está conseguindo pautar a agenda digital”, avalia.

    Flávio Bolsonaro resiste a desgaste

    Mesmo diante das denúncias envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro não parece ter sofrido perdas significativas de apoio eleitoral. Para Estrada, isso ocorre porque uma parte do eleitorado identifica o sobrenome Bolsonaro com a ideia de mudança em relação ao atual governo.

    “As pesquisas mostram que esta é uma eleição de mudança. E Bolsonaro é o sobrenome que encarna essa mudança”, afirma.

    Ao mesmo tempo, ele observa que o candidato conservador também enfrenta elevados índices de rejeição. “Existem muitos aspectos negativos associados ao sobrenome Bolsonaro, o que explica a taxa de rejeição elevada e o equilíbrio observado nas pesquisas.”

    ONU e política externa entram em cena

    Enquanto a campanha se aproxima do desfecho, Lula participa da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, onde discursa nesta terça-feira (22). Para Gaspard Estrada, a viagem oferece ao presidente a oportunidade de reforçar sua imagem internacional.

    “É importante para o Lula mostrar essa diferença de status entre ele, como chefe de Estado em exercício, e seu adversário. Ele pode destacar uma política externa baseada na defesa do multilateralismo e do direito internacional”, afirma.

    O especialista considera ainda que um eventual contato de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ser um dos pontos mais observados da viagem, especialmente diante da influência que a política americana exerce sobre o debate brasileiro.

    Uma eleição observada além das fronteiras

    Para Gaspard Estrada, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro não terá consequências apenas para o Brasil. O resultado também poderá influenciar os rumos da América Latina e o posicionamento internacional do país.

    “Se o Brasil passar a se alinhar automaticamente ao governo Trump, como ocorreu durante a gestão de Jair Bolsonaro, isso terá consequências para a autonomia estratégica do país e para sua capacidade de manter posições próprias nos grandes temas internacionais”, afirma.

    Por isso, conclui, o processo eleitoral brasileiro desperta atenção muito além das fronteiras nacionais. “Esta eleição está sendo acompanhada de perto pelas principais capitais do mundo. É um tema que deveria interessar muito aos eleitores antes de decidirem seu voto”, conclui. 

    Tue, 22 Sep 2026
  • 665 - Festival em Paris exibe documentário sobre violência agrária e impunidade no Brasil

    Destaque do Festival Brasil em Movimentos, em cartaz até domingo (20) em Paris, o documentário "Pau d'Arco", da jornalista e documentarista Ana Aranha, revisita um dos mais graves massacres agrários da história recente do Brasil. O longa mostra como os conflitos pela terra continuam produzindo violência, medo e impunidade no país.

    O filme acompanha, durante sete anos, a luta por justiça de um sobrevivente sem terra e de seu advogado após a morte de dez trabalhadores rurais em uma operação policial no sul do Pará, em 2017. Depois de estrear nos cinemas brasileiros em 2025 e chegar à plataforma Netflix, o documentário segue em sua trajetória internacional.

    Para a diretora Ana Aranha, a participação em um festival voltado a conflitos sociais e ambientais do Brasil tem um significado particular. Segundo ela, trata-se de um cinema que busca não apenas entreter, mas aproximar realidades frequentemente invisíveis para quem vive nos grandes centros urbanos.

    "O filme serve para gerar conexão entre pessoas que têm acesso ao cinema e às plataformas e aquelas que vivem questões pouco visíveis no Brasil", resumiu Ana Aranha à RFI.

    Ela lembra que o massacre de Pau d'Arco recebeu ampla cobertura quando aconteceu. "Foi capa dos jornais e notícia internacional. Mas nós ficamos lá", conta. Enquanto a maior parte da imprensa acompanhou os desdobramentos imediatos do caso, a equipe decidiu seguir documentando a trajetória dos sobreviventes.

    No centro da narrativa está Fernando, trabalhador sem terra e homossexual que sobreviveu à chacina e teve coragem de depor contra os policiais envolvidos, ao lado do advogado que o acompanha na busca por justiça. Ao longo das filmagens, novos episódios dramáticos marcaram a vida dos dois protagonistas.

    "Fatos gravíssimos aconteceram com essas pessoas enquanto filmávamos. Tivemos uma oportunidade rara de registrar os acontecimentos enquanto eles aconteciam", conta Ana Aranha.

    Essa é uma das particularidades do documentário. Em vez de reconstruir fatos do passado por meio de entrevistas retrospectivas, "Pau d'Arco" acompanha a história em tempo real.

    Entre o jornalismo e o cinema

    Coordenadora de projetos especiais da agência Repórter Brasil e ex-chefe de redação do veículo, Ana Aranha diz que a própria força da história a levou a ultrapassar os limites da reportagem e a realizar seu primeiro longa-metragem. O ponto de virada ocorreu quando conheceu Fernando.

    "Ele tem uma força, um brilho e uma presença diante da câmera que me fizeram pensar: isso é cinema", relembra.

    A diretora afirma que foi a potência humana do personagem que atraiu outros profissionais do audiovisual para o projeto. Segundo ela, a narrativa acabou adquirindo uma estrutura próxima à de um filme de ficção, embora todos os acontecimentos registrados sejam reais.

    Derrubando preconceitos

    Nas discussões realizadas após as exibições, um aspecto chama particularmente a atenção da cineasta: a surpresa do público ao entrar em contato com a realidade dos trabalhadores sem terra. Segundo Aranha, isso ocorre tanto na França quanto no Brasil.

    "Existe muito preconceito e pouca informação sobre quem são essas pessoas", afirma. "Quando o espectador entra na vida do Fernando e entende o que significa querer transformar um pasto abandonado em uma plantação de mandioca, batata ou quiabo, ele passa a enxergar essa realidade de outra maneira."

    Para a diretora, o filme ajuda a desmontar estereótipos ao mostrar os motivos que levam famílias inteiras a participar de ocupações de terra.

    "As pessoas que ocupavam aquela fazenda estavam passando fome. Havia crianças e idosos em situação de insegurança alimentar. É preciso uma necessidade muito grande para correr um risco desses", observa.

    Ao acompanhar a vida de um sobrevivente da chacina, "Pau d'Arco" procura deslocar o olhar do espectador para quem vive diretamente os conflitos fundiários, e não para os grandes proprietários ou para as disputas políticas em torno do tema.

    "A proposta é criar uma conexão humana. O cinema permite isso. Quando as pessoas se emocionam com uma história, elas conseguem compreender realidades que antes lhes eram completamente desconhecidas", destaca Ana Aranha.

    O filme será exibido neste sábado (19), às 19h, no cinema 7 Parnassiens, na capital francesa.

    Fri, 18 Sep 2026
  • 664 - Camila Fremder apresenta 'É noia minha?' pela primeira vez na Europa

    A escritora, roteirista e apresentadora de podcasts brasileira Camila Fremder inicia sua primeira temporada de apresentações na Europa. A turnê, que passa por oito cidades e termina em Paris, já acumula sessões extras e ingressos quase esgotados. Em entrevista à RFI, ela fala sobre o sucesso do espetáculo e suas próprias paranóias antes da viagem.

    Vitória Barreto, de Paris

    Entre os dias 19 e 27 de setembro, Camila Fremder apresenta o "É Noia Minha?" em Londres, Dublin, Amsterdã, Lisboa, Porto, Berlim, Barcelona e Paris.

    O criador de conteúdo Fábio Cruz, conhecido como Fabão, participa de toda a turnê, que também terá convidados brasileiros como a comediante Julia Rabelo, no Porto, e a atriz e apresentadora Fernanda Rodrigues, em Lisboa.

    O podcast, que ficou famoso por reunir convidados para discutir as paranoias da vida adulta, acumula cerca de 77 milhões de plays no Spotify e mais de 4,5 milhões de visualizaçoes no Youtube, segundo a assessoria da podcaster. Entre os convidados que já passaram pelo programa estão nomes como Lázaro Ramos, Regina Casé, Emicida e Taís Araújo. 

    Mesmo sendo um dos podcasts de maior visibilidade do Brasil, Camila admite que ficou chocada com a demanda pelos shows na Europa. Depois do sucesso da turnê pelo Brasil, veio o convite de uma produtora que organiza apresentações de humor para brasileiros no continente. 

    “Eu achei tudo muito surreal, porque para mim já era inacreditável ter público em Recife e Porto Alegre”, afirma a apresentadora. 

    Na turnê da Europa, a capacidade é de quase quatro mil ingressos, e, segundo a assessora da apresentadora, com mais de 75% vendidos, com sessões extras em Dublin, Londres e Berlim. 

    Em Paris, a procura foi tão grande que o espetáculo precisou ser transferido para um teatro maior e hoje, restam poucos ingressos. Em Barcelona, a sessão já está esgotada e não há espaço na agenda para uma apresentação extra. 

    Todo mundo tem uma nóia

    Para quem ainda não acompanha o “É Noia Minha?”, Camila garante que ouvir o podcast não é um pré-requisito para assistir ao espetáculo. 

    “Todo mundo tem nóia com alguma coisa. Às vezes a noia é boa, às vezes pesa e toma conta de uma parte do nosso cérebro e fica ali martelando. Mas eu encontrei no (podcast) noia uma maneira de colocar as coisas em outra perspectiva. Quando a gente decide debater uma noia, seja sobre relacionamento ou trabalho, [...} ela diminui de tamanho porque você percebe que não é uma pessoa esquisita. Você reconhece isso em outras pessoas também. Então é um abraço, né?” 

    Antes do espetáculo, os espectadores escrevem e entregam à produção algo que os preocupa ou inquieta. Durante a apresentação, Camila e Fabão podem comentar alguns desses relatos. Diferentemente do podcast, que passa por roteiro e gravação e só recebe o retorno do público semanas depois do lançamento, o espetáculo se constrói quase em tempo real. 

    Um tema recorrente, no entanto, já apareceu em episódios anteriores e deve voltar à tona: o constrangimento de cometer gafes fora do Brasil, seja por palavras parecidas que têm significados diferentes em outro idioma, seja pelo desconhecimento de costumes locais. 

    Barreira das línguas

    Perguntada sobre suas próprias ansiedades em relação à turnê, Camila não hesitou: o grande número de voos em tão pouco tempo já é, por si só, motivo de nervosismo, mas conversar em outra língua é sua maior noia. 

    “Em Paris, por exemplo, a gente sabe três palavras em francês, então eu fico meio perturbada. Será que vou conseguir me comunicar? Ao mesmo tempo, é muito doido porque eu trabalho me comunicando, né? Meu filho fala uma coisa muito engraçada: ‘Mamãe, você ganha dinheiro para conversar’. E é mais ou menos isso mesmo [...] Eu ganho dinheiro conversando e vou para um monte de lugares onde justamente conversar é a minha maior barreira.” 

    Camila Fremder tem uma longa trajetória na comunicação. Formada em publicidade, começou a carreira como redatora publicitária, manteve blogs, trabalhou como ghostwriter e publicou diversos livros, antes de se tornar uma das podcasters mais populares do Brasil.

    Apesar de admitir que sentiu ansiedade nas primeiras apresentações ao vivo, Camila afirma que logo se encantou pelos palcos.

    “O teatro é fantástico porque é imediato. Você fala uma coisa e vê a reação das pessoas, seja porque ficaram espantadas, porque acharam engraçado ou porque concordaram com você. Ver 300 cabecinhas concordando com você é algo viciante. Eu sou muito feliz fazendo apresentações ao vivo.” 

    Thu, 17 Sep 2026
  • 663 - Crise no STF expõe desgaste institucional e desafia credibilidade da Corte, aponta cientista político

    Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou-se como um dos principais protagonistas da vida pública brasileira, acumulando decisões de forte impacto político e institucional. Ao mesmo tempo, a Corte passou a enfrentar questionamentos crescentes sobre os limites de sua atuação e sobre sua capacidade de preservar a confiança da sociedade. A crise mais recente, desencadeada pelos desdobramentos das investigações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, aprofundou o debate sobre transparência, imparcialidade e prestação de contas no Judiciário. 

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    Para o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o episódio se insere em um contexto mais amplo de instabilidade política que o país atravessa desde as eleições de 2022. 

    "O país parecia que, com a vitória de Lula em 2022, iria entrar no rumo normal. Mas não entrou. E isso agora está agravado pela crise do Supremo Tribunal Federal, que hoje está completamente desacreditado", afirma. 

    "Essa fraude do Banco Master não atinge só o Supremo, atinge vários políticos e atinge todo mundo. Atinge o próprio Flávio Bolsonaro, que é um dos candidatos. Então, o país está numa crise muito grande", diz. 

    Apesar das críticas ao momento atual da Corte, Ranulfo faz questão de destacar o papel desempenhado pelo Judiciário brasileiro durante os anos de maior tensão institucional do governo Jair Bolsonaro. 

    "Quem garantiu a democracia no Brasil, no governo Bolsonaro, foi o Supremo e foi o TSE depois", afirma. "Sem um Judiciário independente e forte, a democracia no Brasil teria piorado muito." 

    O cientista político considera que existe uma aparente contradição entre o prestígio conquistado pela Corte ao atuar como barreira contra ameaças institucionais e a atual crise de credibilidade. Segundo ele, parte desse desgaste decorre de erros cometidos pelos próprios ministros. 

    "O Supremo se enredou em uma série de problemas. Decisões monocráticas e ministros se envolvendo onde não deveriam se envolver ou estabelecendo relações com empresários daqui e dali, aceitando convites para isso ou para aquilo. E aí acaba se desmoralizando", avalia. 

    Ranulfo também ressalta que o tribunal vem sendo alvo de uma campanha sistemática de ataques por parte da extrema direita, sobretudo após as condenações relacionadas aos atos golpistas. "A extrema direita não aceita a prisão do Jair Bolsonaro. Acha que o julgamento foi uma fraude. Não foi. As provas são evidentes. Os caras tentaram o golpe", afirma. 

    Imagem do Judiciário é abalada

    Ainda assim, ele reconhece que as revelações recentes envolvendo integrantes da própria Corte contribuíram para enfraquecer a imagem institucional do STF. 

    "No caso Master, dois ministros foram pegos com problemas. Primeiro foi o caso do Dias Toffoli. Agora, o caso do Moraes, que era um personagem emblemático na defesa da democracia no Brasil e foi pego em diálogos comprometedores com Daniel Vorcaro", aponta. 

    Na avaliação do professor da UFMG, esse cenário fortalece politicamente grupos que defendem mudanças profundas no tribunal. "Quando esse negócio vira um escândalo nacional, esses candidatos se fortalecem e aí o Supremo perde credibilidade", diz. 

    Renovação do STF

    Para além da crise imediata, Ranulfo chama atenção para outro fator que poderá marcar o futuro da Corte: a ampla renovação em sua composição nos próximos anos. Segundo ele, independentemente de quem vença a próxima eleição presidencial, haverá um volume expressivo de indicações para o STF. 

    "O próximo presidente, seja ele quem for, vai nomear cinco ministros do Supremo", afirma. Para o cientista político, esse processo torna ainda mais delicada a tarefa de recompor a autoridade institucional do tribunal. "A recuperação da sua credibilidade não depende das urnas. Essencialmente, é por isso que o problema é mais amplo", conclui. 

    A análise sugere que a crise atual ultrapassa os desdobramentos do caso Banco Master e os embates políticos do momento. Mais do que o resultado de investigações ou julgamentos específicos, o desafio colocado diante do STF é reconstruir a confiança pública em uma instituição que foi decisiva para a preservação da democracia brasileira nos últimos anos, mas que hoje enfrenta questionamentos sobre sua própria legitimidade. 

    Thu, 17 Sep 2026
  • 662 - Eleição presidencial no Brasil se tornou um 'duelo de rejeições', diz cientista político

    As eleições de 4 de outubro no Brasil serão acompanhadas não apenas como uma disputa pelo comando do país, mas também como um importante termômetro da relação dos brasileiros com os partidos políticos, as instituições e a própria democracia. Em um ambiente marcado pela polarização e pela desconfiança em relação ao sistema político, o comportamento do eleitorado poderá indicar os rumos da política nacional nos próximos anos.

    Maria Paula Carvalho,da RFI

    Em entrevista à RFI, o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que o pleito atual apresenta características singulares. Segundo ele, os dois candidatos que lideram as pesquisas carregam índices elevados de rejeição. 

    "É um duelo de rejeições", resume o professor. "Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro têm rejeição acima de 50%. Isso por si só é complicado porque, ganhe quem ganhar, a outra metade do país estará insatisfeita." 

    Na avaliação de Ranulfo,o Brasil permanece preso à polarizaçãoiniciada em 2018. "O país está cristalizado numa disputa que se inicia em 2018 e vai até hoje. Isso não é bom. Quem assumir continuará governando em meio a uma guerra política na qual a verdade acaba ficando de lado", afirma. 

    O cientista político também vê no crescimento recente de candidatos fora do eixo petismo-bolsonarismo um sintoma do desgaste dessa polarização. Segundo ele, parte do eleitorado demonstra estar em busca de uma alternativa às duas correntes que dominam a cena política brasileira há mais de uma década. 

    "Vemos um súbito crescimento de um outsider. Nas pesquisas, um escritor de autoajuda [Augusto Cury, candidato pelo partido Avante] tem se destacado", diz. "Mas o negócio dele é autoajuda, ele não entende absolutamente nada de eleições, de política ou de governo, mas está subindo na preferência do eleitorado", completa. "Ele começou a subir feito foguete porque as pessoas estão procurando uma alternativa ao petismo ou bolsonarismo", conclui. 

    PT enfrenta dificuldade para renovar lideranças 

    Questionado sobre a capacidade do Partido dos Trabalhadores (PT) de construir novas lideranças além de Lula, Ranulfo avalia que o partido enfrenta dificuldades para promover uma renovação interna. 

    "O Lula tem claramente uma fadiga de material. Ser presidente quatro vezes facilita o discurso de quem defende uma mudança", afirma. Segundo ele, embora novas lideranças tenham surgido, "a força do Lula é tão grande que não há espaço para lideranças novas". 

    Do outro lado do espectro político, o pesquisador observa que a derrota de Bolsonaro em 2022 não enfraqueceu seu movimento político. 

    "O bolsonarismo hoje é uma força muito enraizada no Brasil", avalia. Para ele, um eventual enfraquecimento desse campo político dependerá do desempenho eleitoral de seus principais representantes. Ao mesmo tempo, destaca que setores da direita tradicional também demonstram resistência à influência bolsonarista. 

    Centrão seguirá decisivo 

    Independentemente do resultado das urnas, Carlos Ranulfo Félix de Mello acredita que o Centrão continuará ocupando posição estratégica na sustentação do próximo governo. 

    Segundo ele, tanto o lulismo quanto o bolsonarismo contam com núcleos relativamente fiéis no Congresso, enquanto a maior parte dos parlamentares se concentra em partidos do chamado Centrão. 

    "O Congresso vai continuar sendo predominantemente de direita e conservador", afirma. Para o cientista político, a principal disputa deverá ocorrer no Senado, envolvendo a direita tradicional e o bolsonarismo. 

    Embora avalie que o bolsonarismo deverá ampliar sua presença na Casa, Ranulfo considera improvável que conquiste maioria absoluta. 

    Governabilidade dependerá da composição política 

    Sobre a relação entre Executivo e Legislativo, o professor destaca que o cenário será distinto conforme o vencedor da eleição. 

    "Flávio Bolsonaro conseguiria maioria mais facilmente. Ideologicamente, o Centrão é muito mais próximo dos Bolsonaros do que de Lula", afirma. 

    Para ele, um eventual quarto mandato de Lula encontraria dificuldades maiores que as enfrentadas no terceiro governo. O cientista político associa esse quadro à longa crise de representação vivida pelo país e à transformação do sistema partidário brasileiro. 

    Segundo Ranulfo, partidos que anteriormente estruturavam o centro político, como PSDB, PFL e Democratas, perderam protagonismo ao longo dos últimos anos. "A pá de cal nesse sistema foi a vitória de Jair Bolsonaro, que desarticulou completamente o centro e fortaleceu o bolsonarismo", avalia. 

    Ampliação do poder do Congresso preocupa 

    Outro ponto destacado pelo pesquisador é o fortalecimento do Congresso Nacional, impulsionado pelo crescimento das emendas parlamentares. Segundo ele, a mudança constitucional que tornou obrigatória a execução dessas emendas alterou profundamente o equilíbrio entre os poderes da República. 

    "Hoje o Congresso está executando cerca de R$ 50 bilhões por ano. É muito dinheiro", afirma. 

    Ranulfo faz críticas ao modelo atual e sustenta que a situação é incomum em comparação com outras democracias. "Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Um Legislativo que ordena despesas do orçamento é uma jabuticaba que só tem no Brasil", declara. 

    Democracia corre menos riscos do que em 2022 

    Apesar da polarização persistente, o cientista político acredita que o resultado das urnas será mais amplamente aceito desta vez. 

    "Essa eleição não terá as turbulências da eleição passada", afirma. Segundo ele, lideranças da extrema direita compreenderam que não há espaço para rupturas institucionais ou aventuras golpistas. 

    "Seja qual for o resultado, ele será respeitado", avalia. 

    Ainda assim, o professor alerta para desafios que permanecerão após o encerramento da disputa eleitoral. Entre eles, destaca o avanço do conservadorismo na sociedade brasileira e as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal. 

    "A democracia não corre tanto risco como corria na eleição passada porque a extrema direita aprendeu que não há espaço para golpe de Estado. Mas temos uma crise séria no STF que não se resolve pelas eleições", conclui. 

    Wed, 16 Sep 2026
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