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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
- 666 - Corrida presidencial brasileira terá reflexos em toda a América Latina, avalia cientista político
A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 4 de outubro, a campanha entra na reta final marcada mais por denúncias e ataques entre candidatos do que pela discussão de propostas de governo. Em entrevista à RFI, o cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics (LSE), avalia que o ambiente político brasileiro permanece profundamente polarizado e que uma parcela crescente do eleitorado demonstra sinais de esgotamento com a disputa.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Segundo Gaspard Estrada, as pesquisas de opinião apontam não apenas uma disputa apertada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o conservador Flávio Bolsonaro, mas também um forte desengajamento dos eleitores. “Há uma forma de crítica dos brasileiros à oferta eleitoral. As pesquisas mostram um forte desengajamento nesse pleito, o que pode ter uma tradução muito concreta no dia da eleição, com aumento da taxa de abstenção, embora o voto seja obrigatório”, afirma.
Para o especialista, a polarização observada no Brasilnão é um fenômeno isolado. Ele lembra que eleições recentes em outros países da América do Sul também foram decididas por margens mínimas. “Na eleição anterior [2022], a disputa presidencial foi definida por menos de dois pontos. E isso não acontece apenas no Brasil. No Peru e na Colômbia, as últimas eleições também foram definidas por diferenças extremamente estreitas”, ressalta.
Estrada avalia que a sociedade brasileira está dividida entre dois campos políticos consolidados, mas observa que cresce o desejo de parte do eleitorado por uma alternativa às figuras que dominam a cena política nacional há anos.
O espaço para um outsider
Nesse contexto surge a candidatura de Augusto Cury, psiquiatra e escritor sem trajetória partidária tradicional. Para Gaspard Estrada, o fenômeno dos outsiders não é novidade na América Latina. Ele cita exemplos como o ex-presidente peruano Alberto Fujimori e, mais recentemente, Javier Milei na Argentina.
Apesar disso, o cientista político vê limites para o sucesso desse tipo de candidatura no Brasil. “Um país tão grande e tão complexo como o Brasil tem um sistema político muito fragmentado. É difícil, sem fazer alianças, conseguir governar um país deste tamanho”, afirma. Segundo ele, esse cenário reduz as chances de uma candidatura outsider alcançar um desempenho eleitoral expressivo.
Economia melhora, mas eleitor não percebe
Outro ponto destacado pelo cientista político é que embora indicadores econômicos apresentem resultados positivos para o governo Lula, como queda do desemprego, crescimento econômico e redução do desmatamento na Amazônia, boa parte da população não sente esses avanços no dia a dia. “Há um descompasso entre os bons números da macroeconomia e a percepção das famílias. O aumento do salário mínimo acaba sendo corroído pela inflação de itens da cesta básica e pelo aumento do endividamento”, explica.
Para o pesquisador, esse fator ajuda a entender por que Lula não consegue transformar indicadores favoráveis em uma vantagem mais confortável nas pesquisas eleitorais.
“O desafio principal do presidente Lula nesses últimos dias de campanha será explicar como um eventual quarto mandato poderá melhorar concretamente a vida dos brasileiros. Não basta falar de soberania ou inteligência artificial. É preciso mostrar o que mudará no cotidiano das pessoas”, afirma.
A batalha pela narrativa digital
Estrada também considera que a campanha de Lula pode ter demorado a ampliar sua presença paga nas plataformas digitais. Segundo ele, embora a estratégia digital exista desde o início da disputa, o impulsionamento de conteúdo teria começado tardiamente. “Pelo que a imprensa revelou, a campanha começou a pagar propaganda nas redes sociais apenas nos últimos quinze dias. Isso é muito pouco”, avalia.
Já o campo bolsonarista, observa, mantém sua tradicional capacidade de mobilização na internet. “O bolsonarismo sempre foi muito eficaz no uso das mídias sociais e, mais uma vez, está conseguindo pautar a agenda digital”, avalia.
Flávio Bolsonaro resiste a desgaste
Mesmo diante das denúncias envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro não parece ter sofrido perdas significativas de apoio eleitoral. Para Estrada, isso ocorre porque uma parte do eleitorado identifica o sobrenome Bolsonaro com a ideia de mudança em relação ao atual governo.
“As pesquisas mostram que esta é uma eleição de mudança. E Bolsonaro é o sobrenome que encarna essa mudança”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele observa que o candidato conservador também enfrenta elevados índices de rejeição. “Existem muitos aspectos negativos associados ao sobrenome Bolsonaro, o que explica a taxa de rejeição elevada e o equilíbrio observado nas pesquisas.”
ONU e política externa entram em cena
Enquanto a campanha se aproxima do desfecho, Lula participa da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, onde discursa nesta terça-feira (22). Para Gaspard Estrada, a viagem oferece ao presidente a oportunidade de reforçar sua imagem internacional.
“É importante para o Lula mostrar essa diferença de status entre ele, como chefe de Estado em exercício, e seu adversário. Ele pode destacar uma política externa baseada na defesa do multilateralismo e do direito internacional”, afirma.
O especialista considera ainda que um eventual contato de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ser um dos pontos mais observados da viagem, especialmente diante da influência que a política americana exerce sobre o debate brasileiro.
Uma eleição observada além das fronteiras
Para Gaspard Estrada, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro não terá consequências apenas para o Brasil. O resultado também poderá influenciar os rumos da América Latina e o posicionamento internacional do país.
“Se o Brasil passar a se alinhar automaticamente ao governo Trump, como ocorreu durante a gestão de Jair Bolsonaro, isso terá consequências para a autonomia estratégica do país e para sua capacidade de manter posições próprias nos grandes temas internacionais”, afirma.
Por isso, conclui, o processo eleitoral brasileiro desperta atenção muito além das fronteiras nacionais. “Esta eleição está sendo acompanhada de perto pelas principais capitais do mundo. É um tema que deveria interessar muito aos eleitores antes de decidirem seu voto”, conclui.
Tue, 22 Sep 2026 - 665 - Festival em Paris exibe documentário sobre violência agrária e impunidade no Brasil
Destaque do Festival Brasil em Movimentos, em cartaz até domingo (20) em Paris, o documentário "Pau d'Arco", da jornalista e documentarista Ana Aranha, revisita um dos mais graves massacres agrários da história recente do Brasil. O longa mostra como os conflitos pela terra continuam produzindo violência, medo e impunidade no país.
O filme acompanha, durante sete anos, a luta por justiça de um sobrevivente sem terra e de seu advogado após a morte de dez trabalhadores rurais em uma operação policial no sul do Pará, em 2017. Depois de estrear nos cinemas brasileiros em 2025 e chegar à plataforma Netflix, o documentário segue em sua trajetória internacional.
Para a diretora Ana Aranha, a participação em um festival voltado a conflitos sociais e ambientais do Brasil tem um significado particular. Segundo ela, trata-se de um cinema que busca não apenas entreter, mas aproximar realidades frequentemente invisíveis para quem vive nos grandes centros urbanos.
"O filme serve para gerar conexão entre pessoas que têm acesso ao cinema e às plataformas e aquelas que vivem questões pouco visíveis no Brasil", resumiu Ana Aranha à RFI.
Ela lembra que o massacre de Pau d'Arco recebeu ampla cobertura quando aconteceu. "Foi capa dos jornais e notícia internacional. Mas nós ficamos lá", conta. Enquanto a maior parte da imprensa acompanhou os desdobramentos imediatos do caso, a equipe decidiu seguir documentando a trajetória dos sobreviventes.
No centro da narrativa está Fernando, trabalhador sem terra e homossexual que sobreviveu à chacina e teve coragem de depor contra os policiais envolvidos, ao lado do advogado que o acompanha na busca por justiça. Ao longo das filmagens, novos episódios dramáticos marcaram a vida dos dois protagonistas.
"Fatos gravíssimos aconteceram com essas pessoas enquanto filmávamos. Tivemos uma oportunidade rara de registrar os acontecimentos enquanto eles aconteciam", conta Ana Aranha.
Essa é uma das particularidades do documentário. Em vez de reconstruir fatos do passado por meio de entrevistas retrospectivas, "Pau d'Arco" acompanha a história em tempo real.
Entre o jornalismo e o cinema
Coordenadora de projetos especiais da agência Repórter Brasil e ex-chefe de redação do veículo, Ana Aranha diz que a própria força da história a levou a ultrapassar os limites da reportagem e a realizar seu primeiro longa-metragem. O ponto de virada ocorreu quando conheceu Fernando.
"Ele tem uma força, um brilho e uma presença diante da câmera que me fizeram pensar: isso é cinema", relembra.
A diretora afirma que foi a potência humana do personagem que atraiu outros profissionais do audiovisual para o projeto. Segundo ela, a narrativa acabou adquirindo uma estrutura próxima à de um filme de ficção, embora todos os acontecimentos registrados sejam reais.
Derrubando preconceitos
Nas discussões realizadas após as exibições, um aspecto chama particularmente a atenção da cineasta: a surpresa do público ao entrar em contato com a realidade dos trabalhadores sem terra. Segundo Aranha, isso ocorre tanto na França quanto no Brasil.
"Existe muito preconceito e pouca informação sobre quem são essas pessoas", afirma. "Quando o espectador entra na vida do Fernando e entende o que significa querer transformar um pasto abandonado em uma plantação de mandioca, batata ou quiabo, ele passa a enxergar essa realidade de outra maneira."
Para a diretora, o filme ajuda a desmontar estereótipos ao mostrar os motivos que levam famílias inteiras a participar de ocupações de terra.
"As pessoas que ocupavam aquela fazenda estavam passando fome. Havia crianças e idosos em situação de insegurança alimentar. É preciso uma necessidade muito grande para correr um risco desses", observa.
Ao acompanhar a vida de um sobrevivente da chacina, "Pau d'Arco" procura deslocar o olhar do espectador para quem vive diretamente os conflitos fundiários, e não para os grandes proprietários ou para as disputas políticas em torno do tema.
"A proposta é criar uma conexão humana. O cinema permite isso. Quando as pessoas se emocionam com uma história, elas conseguem compreender realidades que antes lhes eram completamente desconhecidas", destaca Ana Aranha.
O filme será exibido neste sábado (19), às 19h, no cinema 7 Parnassiens, na capital francesa.
Fri, 18 Sep 2026 - 664 - Camila Fremder apresenta 'É noia minha?' pela primeira vez na Europa
A escritora, roteirista e apresentadora de podcasts brasileira Camila Fremder inicia sua primeira temporada de apresentações na Europa. A turnê, que passa por oito cidades e termina em Paris, já acumula sessões extras e ingressos quase esgotados. Em entrevista à RFI, ela fala sobre o sucesso do espetáculo e suas próprias paranóias antes da viagem.
Vitória Barreto, de Paris
Entre os dias 19 e 27 de setembro, Camila Fremder apresenta o "É Noia Minha?" em Londres, Dublin, Amsterdã, Lisboa, Porto, Berlim, Barcelona e Paris.
O criador de conteúdo Fábio Cruz, conhecido como Fabão, participa de toda a turnê, que também terá convidados brasileiros como a comediante Julia Rabelo, no Porto, e a atriz e apresentadora Fernanda Rodrigues, em Lisboa.
O podcast, que ficou famoso por reunir convidados para discutir as paranoias da vida adulta, acumula cerca de 77 milhões de plays no Spotify e mais de 4,5 milhões de visualizaçoes no Youtube, segundo a assessoria da podcaster. Entre os convidados que já passaram pelo programa estão nomes como Lázaro Ramos, Regina Casé, Emicida e Taís Araújo.
Mesmo sendo um dos podcasts de maior visibilidade do Brasil, Camila admite que ficou chocada com a demanda pelos shows na Europa. Depois do sucesso da turnê pelo Brasil, veio o convite de uma produtora que organiza apresentações de humor para brasileiros no continente.
“Eu achei tudo muito surreal, porque para mim já era inacreditável ter público em Recife e Porto Alegre”, afirma a apresentadora.
Na turnê da Europa, a capacidade é de quase quatro mil ingressos, e, segundo a assessora da apresentadora, com mais de 75% vendidos, com sessões extras em Dublin, Londres e Berlim.
Em Paris, a procura foi tão grande que o espetáculo precisou ser transferido para um teatro maior e hoje, restam poucos ingressos. Em Barcelona, a sessão já está esgotada e não há espaço na agenda para uma apresentação extra.
Todo mundo tem uma nóia
Para quem ainda não acompanha o “É Noia Minha?”, Camila garante que ouvir o podcast não é um pré-requisito para assistir ao espetáculo.
“Todo mundo tem nóia com alguma coisa. Às vezes a noia é boa, às vezes pesa e toma conta de uma parte do nosso cérebro e fica ali martelando. Mas eu encontrei no (podcast) noia uma maneira de colocar as coisas em outra perspectiva. Quando a gente decide debater uma noia, seja sobre relacionamento ou trabalho, [...} ela diminui de tamanho porque você percebe que não é uma pessoa esquisita. Você reconhece isso em outras pessoas também. Então é um abraço, né?”
Antes do espetáculo, os espectadores escrevem e entregam à produção algo que os preocupa ou inquieta. Durante a apresentação, Camila e Fabão podem comentar alguns desses relatos. Diferentemente do podcast, que passa por roteiro e gravação e só recebe o retorno do público semanas depois do lançamento, o espetáculo se constrói quase em tempo real.
Um tema recorrente, no entanto, já apareceu em episódios anteriores e deve voltar à tona: o constrangimento de cometer gafes fora do Brasil, seja por palavras parecidas que têm significados diferentes em outro idioma, seja pelo desconhecimento de costumes locais.
Barreira das línguas
Perguntada sobre suas próprias ansiedades em relação à turnê, Camila não hesitou: o grande número de voos em tão pouco tempo já é, por si só, motivo de nervosismo, mas conversar em outra língua é sua maior noia.
“Em Paris, por exemplo, a gente sabe três palavras em francês, então eu fico meio perturbada. Será que vou conseguir me comunicar? Ao mesmo tempo, é muito doido porque eu trabalho me comunicando, né? Meu filho fala uma coisa muito engraçada: ‘Mamãe, você ganha dinheiro para conversar’. E é mais ou menos isso mesmo [...] Eu ganho dinheiro conversando e vou para um monte de lugares onde justamente conversar é a minha maior barreira.”
Camila Fremder tem uma longa trajetória na comunicação. Formada em publicidade, começou a carreira como redatora publicitária, manteve blogs, trabalhou como ghostwriter e publicou diversos livros, antes de se tornar uma das podcasters mais populares do Brasil.
Apesar de admitir que sentiu ansiedade nas primeiras apresentações ao vivo, Camila afirma que logo se encantou pelos palcos.
“O teatro é fantástico porque é imediato. Você fala uma coisa e vê a reação das pessoas, seja porque ficaram espantadas, porque acharam engraçado ou porque concordaram com você. Ver 300 cabecinhas concordando com você é algo viciante. Eu sou muito feliz fazendo apresentações ao vivo.”
Thu, 17 Sep 2026 - 663 - Crise no STF expõe desgaste institucional e desafia credibilidade da Corte, aponta cientista político
Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou-se como um dos principais protagonistas da vida pública brasileira, acumulando decisões de forte impacto político e institucional. Ao mesmo tempo, a Corte passou a enfrentar questionamentos crescentes sobre os limites de sua atuação e sobre sua capacidade de preservar a confiança da sociedade. A crise mais recente, desencadeada pelos desdobramentos das investigações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, aprofundou o debate sobre transparência, imparcialidade e prestação de contas no Judiciário.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Para o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o episódio se insere em um contexto mais amplo de instabilidade política que o país atravessa desde as eleições de 2022.
"O país parecia que, com a vitória de Lula em 2022, iria entrar no rumo normal. Mas não entrou. E isso agora está agravado pela crise do Supremo Tribunal Federal, que hoje está completamente desacreditado", afirma.
"Essa fraude do Banco Master não atinge só o Supremo, atinge vários políticos e atinge todo mundo. Atinge o próprio Flávio Bolsonaro, que é um dos candidatos. Então, o país está numa crise muito grande", diz.
Apesar das críticas ao momento atual da Corte, Ranulfo faz questão de destacar o papel desempenhado pelo Judiciário brasileiro durante os anos de maior tensão institucional do governo Jair Bolsonaro.
"Quem garantiu a democracia no Brasil, no governo Bolsonaro, foi o Supremo e foi o TSE depois", afirma. "Sem um Judiciário independente e forte, a democracia no Brasil teria piorado muito."
O cientista político considera que existe uma aparente contradição entre o prestígio conquistado pela Corte ao atuar como barreira contra ameaças institucionais e a atual crise de credibilidade. Segundo ele, parte desse desgaste decorre de erros cometidos pelos próprios ministros.
"O Supremo se enredou em uma série de problemas. Decisões monocráticas e ministros se envolvendo onde não deveriam se envolver ou estabelecendo relações com empresários daqui e dali, aceitando convites para isso ou para aquilo. E aí acaba se desmoralizando", avalia.
Ranulfo também ressalta que o tribunal vem sendo alvo de uma campanha sistemática de ataques por parte da extrema direita, sobretudo após as condenações relacionadas aos atos golpistas. "A extrema direita não aceita a prisão do Jair Bolsonaro. Acha que o julgamento foi uma fraude. Não foi. As provas são evidentes. Os caras tentaram o golpe", afirma.
Imagem do Judiciário é abalada
Ainda assim, ele reconhece que as revelações recentes envolvendo integrantes da própria Corte contribuíram para enfraquecer a imagem institucional do STF.
"No caso Master, dois ministros foram pegos com problemas. Primeiro foi o caso do Dias Toffoli. Agora, o caso do Moraes, que era um personagem emblemático na defesa da democracia no Brasil e foi pego em diálogos comprometedores com Daniel Vorcaro", aponta.
Na avaliação do professor da UFMG, esse cenário fortalece politicamente grupos que defendem mudanças profundas no tribunal. "Quando esse negócio vira um escândalo nacional, esses candidatos se fortalecem e aí o Supremo perde credibilidade", diz.
Renovação do STF
Para além da crise imediata, Ranulfo chama atenção para outro fator que poderá marcar o futuro da Corte: a ampla renovação em sua composição nos próximos anos. Segundo ele, independentemente de quem vença a próxima eleição presidencial, haverá um volume expressivo de indicações para o STF.
"O próximo presidente, seja ele quem for, vai nomear cinco ministros do Supremo", afirma. Para o cientista político, esse processo torna ainda mais delicada a tarefa de recompor a autoridade institucional do tribunal. "A recuperação da sua credibilidade não depende das urnas. Essencialmente, é por isso que o problema é mais amplo", conclui.
A análise sugere que a crise atual ultrapassa os desdobramentos do caso Banco Master e os embates políticos do momento. Mais do que o resultado de investigações ou julgamentos específicos, o desafio colocado diante do STF é reconstruir a confiança pública em uma instituição que foi decisiva para a preservação da democracia brasileira nos últimos anos, mas que hoje enfrenta questionamentos sobre sua própria legitimidade.
Thu, 17 Sep 2026 - 662 - Eleição presidencial no Brasil se tornou um 'duelo de rejeições', diz cientista político
As eleições de 4 de outubro no Brasil serão acompanhadas não apenas como uma disputa pelo comando do país, mas também como um importante termômetro da relação dos brasileiros com os partidos políticos, as instituições e a própria democracia. Em um ambiente marcado pela polarização e pela desconfiança em relação ao sistema político, o comportamento do eleitorado poderá indicar os rumos da política nacional nos próximos anos.
Maria Paula Carvalho,da RFI
Em entrevista à RFI, o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que o pleito atual apresenta características singulares. Segundo ele, os dois candidatos que lideram as pesquisas carregam índices elevados de rejeição.
"É um duelo de rejeições", resume o professor. "Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro têm rejeição acima de 50%. Isso por si só é complicado porque, ganhe quem ganhar, a outra metade do país estará insatisfeita."
Na avaliação de Ranulfo,o Brasil permanece preso à polarizaçãoiniciada em 2018. "O país está cristalizado numa disputa que se inicia em 2018 e vai até hoje. Isso não é bom. Quem assumir continuará governando em meio a uma guerra política na qual a verdade acaba ficando de lado", afirma.
O cientista político também vê no crescimento recente de candidatos fora do eixo petismo-bolsonarismo um sintoma do desgaste dessa polarização. Segundo ele, parte do eleitorado demonstra estar em busca de uma alternativa às duas correntes que dominam a cena política brasileira há mais de uma década.
"Vemos um súbito crescimento de um outsider. Nas pesquisas, um escritor de autoajuda [Augusto Cury, candidato pelo partido Avante] tem se destacado", diz. "Mas o negócio dele é autoajuda, ele não entende absolutamente nada de eleições, de política ou de governo, mas está subindo na preferência do eleitorado", completa. "Ele começou a subir feito foguete porque as pessoas estão procurando uma alternativa ao petismo ou bolsonarismo", conclui.
PT enfrenta dificuldade para renovar lideranças
Questionado sobre a capacidade do Partido dos Trabalhadores (PT) de construir novas lideranças além de Lula, Ranulfo avalia que o partido enfrenta dificuldades para promover uma renovação interna.
"O Lula tem claramente uma fadiga de material. Ser presidente quatro vezes facilita o discurso de quem defende uma mudança", afirma. Segundo ele, embora novas lideranças tenham surgido, "a força do Lula é tão grande que não há espaço para lideranças novas".
Do outro lado do espectro político, o pesquisador observa que a derrota de Bolsonaro em 2022 não enfraqueceu seu movimento político.
"O bolsonarismo hoje é uma força muito enraizada no Brasil", avalia. Para ele, um eventual enfraquecimento desse campo político dependerá do desempenho eleitoral de seus principais representantes. Ao mesmo tempo, destaca que setores da direita tradicional também demonstram resistência à influência bolsonarista.
Centrão seguirá decisivo
Independentemente do resultado das urnas, Carlos Ranulfo Félix de Mello acredita que o Centrão continuará ocupando posição estratégica na sustentação do próximo governo.
Segundo ele, tanto o lulismo quanto o bolsonarismo contam com núcleos relativamente fiéis no Congresso, enquanto a maior parte dos parlamentares se concentra em partidos do chamado Centrão.
"O Congresso vai continuar sendo predominantemente de direita e conservador", afirma. Para o cientista político, a principal disputa deverá ocorrer no Senado, envolvendo a direita tradicional e o bolsonarismo.
Embora avalie que o bolsonarismo deverá ampliar sua presença na Casa, Ranulfo considera improvável que conquiste maioria absoluta.
Governabilidade dependerá da composição política
Sobre a relação entre Executivo e Legislativo, o professor destaca que o cenário será distinto conforme o vencedor da eleição.
"Flávio Bolsonaro conseguiria maioria mais facilmente. Ideologicamente, o Centrão é muito mais próximo dos Bolsonaros do que de Lula", afirma.
Para ele, um eventual quarto mandato de Lula encontraria dificuldades maiores que as enfrentadas no terceiro governo. O cientista político associa esse quadro à longa crise de representação vivida pelo país e à transformação do sistema partidário brasileiro.
Segundo Ranulfo, partidos que anteriormente estruturavam o centro político, como PSDB, PFL e Democratas, perderam protagonismo ao longo dos últimos anos. "A pá de cal nesse sistema foi a vitória de Jair Bolsonaro, que desarticulou completamente o centro e fortaleceu o bolsonarismo", avalia.
Ampliação do poder do Congresso preocupa
Outro ponto destacado pelo pesquisador é o fortalecimento do Congresso Nacional, impulsionado pelo crescimento das emendas parlamentares. Segundo ele, a mudança constitucional que tornou obrigatória a execução dessas emendas alterou profundamente o equilíbrio entre os poderes da República.
"Hoje o Congresso está executando cerca de R$ 50 bilhões por ano. É muito dinheiro", afirma.
Ranulfo faz críticas ao modelo atual e sustenta que a situação é incomum em comparação com outras democracias. "Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Um Legislativo que ordena despesas do orçamento é uma jabuticaba que só tem no Brasil", declara.
Democracia corre menos riscos do que em 2022
Apesar da polarização persistente, o cientista político acredita que o resultado das urnas será mais amplamente aceito desta vez.
"Essa eleição não terá as turbulências da eleição passada", afirma. Segundo ele, lideranças da extrema direita compreenderam que não há espaço para rupturas institucionais ou aventuras golpistas.
"Seja qual for o resultado, ele será respeitado", avalia.
Ainda assim, o professor alerta para desafios que permanecerão após o encerramento da disputa eleitoral. Entre eles, destaca o avanço do conservadorismo na sociedade brasileira e as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal.
"A democracia não corre tanto risco como corria na eleição passada porque a extrema direita aprendeu que não há espaço para golpe de Estado. Mas temos uma crise séria no STF que não se resolve pelas eleições", conclui.
Wed, 16 Sep 2026 - 661 - Negação da ditadura alimenta avanço da extrema direita, alerta autora de livro sobre a tortura
Num contexto internacional marcado pelo avanço de movimentos de extrema direita e pela circulação massiva de desinformação, revisitar a história tornou-se também uma forma de compreender os desafios do presente. É o que propõe a jornalista e escritora Leneide Duarte-Plon em "A tortura como arma de guerra: da Argélia ao Brasil", lançado recentemente em francês pela editora L'Harmattan.
Publicado no Brasil há dez anos e posteriormente traduzido na Argélia, o livro "La torture comme arme de guerre, de l'Algérie au Brésil" chega ao público francês num momento em que as disputas em torno da memória histórica, do autoritarismo e da democracia voltam a ocupar lugar central no debate público.
Em Paris, onde participa de uma sessão de autógrafos e de um debate com os historiadores Maud Chirio e Rodrigo Nabuco de Araujo, Leneide revisita as conexões entre a repressão francesa na Guerra da Argélia (1954 e 1962) e a ditadura brasileira, estabelecendo pontes entre os sistemas repressivos do passado e os desafios políticos do presente.
Em entrevista à RFI, Leneide detalha como a chamada teoria do "inimigo interno", formulada no contexto das guerras coloniais francesas, ajudou a moldar as estratégias repressivas adotadas pelas ditaduras sul-americanas, especialmente no Brasil. Segundo ela, a novidade dessa doutrina era identificar a ameaça não como um exército estrangeiro, mas como um adversário que estaria "dentro do país", disfarçado entre professores, estudantes, sindicalistas, religiosos ou intelectuais.
A autora também reflete sobre os efeitos duradouros da Lei da Anistia brasileira. Para ela, a negociação que permitiu o retorno dos exilados ao país teve como contrapartida a impunidade dos agentes da repressão. "Nenhum torturador foi para a prisão, nenhum torturador esteve no banco dos réus", afirma.
Na avaliação de Leneide, essa ausência de responsabilização ajudou a criar um ambiente em que setores da extrema direita ainda conseguem negar ou relativizar os crimes cometidos pela ditadura.
Dever de memória
Ao abordar as disputas em torno da memória histórica, a escritora sustenta que "é importante para a extrema direita reescrever a história e apagar a história", minimizando a violência de Estado e o legado da tortura. Em sua avaliação, o desconhecimento desse passado pelas novas gerações torna ainda mais urgente o que ela define como um "dever de memória".
Comparando o caso brasileiro com iniciativas de reconhecimento promovidas pelo Estado francês, Leneide cita um episódio que a marcou profundamente: a visita do presidente Emmanuel Macron, em 2018, à viúva do matemático e militante anticolonialista Maurice Audin, preso, torturado e morto por militares franceses durante a Guerra da Argélia. Na ocasião, Macron reconheceu oficialmente a responsabilidade do Estado francês pelo desaparecimento e pela morte de Audin, encerrando décadas de silêncio institucional.
Para a jornalista, aquele gesto teve um valor histórico que ultrapassa as fronteiras francesas. "Isso foi talvez o maior momento do governo Macron", afirma. "Ele fez uma coisa que nem o presidente François Hollande, de esquerda, teve a coragem de fazer." Na avaliação de Leneide, o reconhecimento dos crimes cometidos pelo Estado é um passo essencial para a construção da memória democrática.
A autora lamenta que o Brasil nunca tenha realizado um movimento semelhante em relação aos crimes da ditadura militar. "Isso deveria ter sido imitado no Brasil pelos militares: reconhecer torturas, reconhecer execuções sumárias e reconhecer desaparecidos", diz.
"Até hoje tem uma lista enorme de desaparecidos no Brasil. Isso não foi feito por nós."
Para ela, a dificuldade em enfrentar esse passado ajuda a explicar por que ainda há espaço para a negação ou a relativização das violações cometidas durante o regime militar. "Quanto menos a gente contar essa realidade, melhor para a extrema direita", resume.
Debate reúne especialistas
O debate que acompanha nesta quarta-feira (16) o lançamento francês da obra reúne pesquisadores cujos trabalhos dialogam diretamente com as questões levantadas por Leneide.
Maud Chirio, autora com Mariana Joffily do livro "Torturadores", investigou o perfil dos agentes da repressão e os mecanismos institucionais que sustentaram a prática sistemática da tortura durante a ditadura brasileira.
Rodrigo Nabuco de Araujo, por sua vez, estudou a transferência para o Brasil das doutrinas francesas de guerra contrarrevolucionária e tem se dedicado mais recentemente à análise das direitas e extremas direitas contemporâneas, explorando as relações entre conservadorismo, anticomunismo, democracia e autoritarismo.
Juntas, essas pesquisas ajudam a iluminar os vínculos entre os sistemas repressivos do passado e os debates atuais sobre memória, radicalização política e democracia.
Wed, 16 Sep 2026 - 660 - Karol Maia leva a festival na França reflexão sobre heranças da escravidão nas casas brasileiras
O documentário "Aqui Não Entra Luz", da cineasta paulista Karol Maia, é um dos destaques da programação do Festival Brasil em Movimentos, que acontece de 17 a 19 de setembro em Paris. Filha de uma trabalhadora doméstica, Karol parte de memórias pessoais para investigar como os quartos de empregada revelam a permanência de hierarquias sociais e raciais herdadas da escravidão.
Ao cruzar relatos de mulheres negras, pesquisa histórica e reflexão sobre o espaço doméstico, o filme discute a forma como essas estruturas continuam moldando a sociedade brasileira. Nas sessões realizadas na Europa, Karol diz ter percebido uma reação recorrente do público estrangeiro: a surpresa diante da relação de proximidade e dependência entre patrões e empregadas domésticas no Brasil.
"Na Europa, aparentemente, essa dinâmica de trabalho não acontece da mesma forma. Mas, sobretudo, o fato de ter uma funcionária dormindo na sua casa é o que mais causa estranhamento", afirma.
O documentário reúne relatos de seis trabalhadoras domésticas, entre elas a própria mãe da diretora. Ao longo da narrativa, o filme mostra como o espaço reservado às empregadas dentro das residências revela hierarquias sociais herdadas da escravidão e ainda presentes no cotidiano brasileiro.
Para Karol, um dos principais obstáculos para enfrentar essas desigualdades está justamente na naturalização da profissão. Segundo ela, o trabalho doméstico permanece invisível porque está profundamente incorporado à vida social brasileira.
"É uma profissão que está dentro da nossa vida de uma forma bastante natural e a gente não para muito para conversar sobre ela", observa. "Culturalmente, ela não tem um valor social, cultural e econômico dentro da sociedade brasileira."
A cineasta aponta que a presença da empregada doméstica é constante na cultura nacional, mas quase sempre tratada de forma superficial. "A gente liga a televisão, assiste uma novela, e aquela figura surge às vezes como alívio cômico e depois desaparece. Mas estamos falando de pessoas quase onipresentes, que de alguma forma ditam como a sociedade brasileira funciona hoje."
Salários no centro do debate
Após as exibições no Brasil, Karol relata ter recebido reações muito diversas, de filhos de empregadas domésticas a pessoas criadas por babás. Nos debates com o público, ela procura deslocar a discussão para um aspecto concreto: a remuneração dessas profissionais.
"Eu sempre tento provocar sobre a questão financeira, sobre a valorização pela via do dinheiro", explica. "É um dos mecanismos que a gente pode usar para que essa profissão seja mais considerada dentro do sistema de trabalho e da economia do país."
Embora reconheça que mudanças de comportamento dependem de escolhas individuais, a diretora acredita no potencial transformador dos encontros promovidos pelo filme. "Quero acreditar que quem se abre para as histórias do filme também esteja aberto a rever seu próprio comportamento."
Filme realiza sonho de trabalhadora mineira
Um dos efeitos mais marcantes da trajetória do documentário, segundo ela, tem sido o impacto na vida das mulheres retratadas. O caso que mais a emociona é o de Rosarinha, trabalhadora doméstica mineira que conta no filme ter abandonado o sonho de se tornar professora.
Recentemente, Rosarinha passou a participar de aulas em cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discutindo os temas abordados no documentário. Em uma das iniciativas, tornou-se colaboradora de uma disciplina inspirada no filme.
"Fiquei muito emocionada", conta Karol. "O filme acabou sendo um mediador para a realização desse sonho dela."
Segundo a diretora, o professor responsável pela disciplina entendeu que não faria sentido discutir o tema sem a presença de uma trabalhadora doméstica. "A Rosarinha tem sido essa representante do filme dentro da sala de aula."
Violência social e racial
O documentário também dialoga com discussões mais amplas sobre violência social e racial. Karol lembra que ficou profundamente impactada pelo caso do menino Miguel Otávio, de 5 anos, que morreu após cair do 9º andar de um edifício no Recife, em 2020, depois de ser deixado sozinho no elevador pela empresária e primeira-dama de Tamandaré, Sarí Côrte Real, no prédio onde sua mãe, Mirtes Renata, trabalhava como empregada doméstica.
"Quando vi a notícia, passei a noite sem dormir pensando na Mirtes e no Miguel", recorda.
A cineasta acompanha desde então a trajetória de Mirtes e diz ter se emocionado ao vê-la concluir recentemente o curso de Direito. Para ela, a história evidencia como a desvalorização do trabalho doméstico afeta também as famílias dessas mulheres.
"O Miguel é um exemplo de como essa profissão é desvalorizada e, consequentemente, como as famílias dessas trabalhadoras também são."
Karol observa que o filme aborda diversas formas de violência associadas ao trabalho doméstico. Ela cita a história de uma personagem que teme perder os vínculos com a própria filha por passar mais tempo cuidando dos filhos da patroa, e outra que relata ter tido a filha afastada de sua convivência.
"Existe uma dinâmica bastante violenta em relação à valorização da maternidade dentro dessas casas", afirma. "E tudo isso está atravessado pelas questões de raça e classe."
Ao comentar os frequentes casos de trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão, a cineasta defende respostas mais firmes das instituições brasileiras.
"É importante o Brasil dar nome para esses monstros que nos cercam, esses monstros que a escravidão foi deixando no nosso caminho", diz. Para ela, casos recentes envolvendo trabalhadoras domésticas submetidas a décadas de exploração mostram que o país ainda convive com práticas herdadas de seu passado escravista.
Risco de retrocesso
Apesar do reconhecimento alcançado pelo filme, Karol admite preocupação com o cenário político brasileiro e com o espaço ocupado por discursos conservadores. Ela lembra que o ex-presidente Jair Bolsonaro votou contra a chamada PEC das Domésticas quando era deputado federal e vê uma continuidade dessas posições no debate público atual.
"Não é um pensamento político preocupado com a vida das trabalhadoras domésticas, nem com a vida das mulheres", afirma.
Entre memórias familiares, denúncia social e reflexão histórica, "Aqui Não Entra Luz" propõe um olhar sobre um dos ambientes mais invisibilizados da arquitetura brasileira para revelar algo maior: a permanência de desigualdades que atravessam as paredes das casas e continuam moldando as relações sociais no país. "A semente a gente está plantando", resume Karol. "Espero que as pessoas saiam dessas conversas dispostas a mudar."
O Festival Brasil em Movimentos tornou-se uma das mais importantes mostras de documentários brasileiros da Europa. Sua programação é dedicada a filmes que exploram questões sociais, políticas e ambientais do Brasil contemporâneo. "Aqui Não Entra Luz" será exibido ao público na próxima sexta-feira (18), no Cinema 7 Parnassiens, em Paris. Após a sessão, às 19h30 (horário local), Karol Maia participará de um debate com o público e especialistas.
No Brasil, o documentário está disponível em streaming na plataforma Doc Canal Brasil.
Tue, 15 Sep 2026 - 659 - Memória do nazismo já não basta para conter avanço da extrema direita na Alemanha, diz pesquisador
A vitória da sigla AfD durante a eleição regional em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, reacendeu o debate sobre os limites das estratégias usadas para conter a extrema direita. Para o sociólogo Sérgio Costa, da Freie Universität Berlin, o fenômeno combina heranças da antiga divisão entre leste e oeste, ressentimentos sociais persistentes e erros dos partidos tradicionais. Ele afirma que copiar o discurso da direita radical fortalece a própria AfD e não responde às frustrações do eleitorado.
Durante décadas, a Alemanha cultivou a convicção de que o enfrentamento sistemático de seu passado nazista funcionaria como uma espécie de vacina democrática contra o retorno da extrema direita. A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD), no entanto, vem submetendo essa certeza a um teste cada vez mais severo.
Para o sociólogo brasileiro Sérgio Costa, professor-titular da Freie Universität Berlin, o fenômeno não pode ser reduzido ao crescimento da imigração, à crise econômica ou mesmo às particularidades do leste alemão. O que está em jogo, afirma, é uma combinação entre heranças históricas da reunificação, mudanças profundas na maneira como a política é produzida e consumida e erros sucessivos cometidos pelos partidos tradicionais ao tentar responder ao avanço da direita radical.
A primeira explicação, segundo ele, está na própria história alemã do pós-guerra. Embora a memória dos crimes do nazismo tenha se tornado um dos pilares da cultura política do país, esse processo ocorreu de forma desigual entre as duas Alemanhas.
"O primeiro fator a se destacar é que esse estado da eleição que houve domingo é um estado que faz parte da antiga Alemanha Oriental", afirma. "Esse trabalho de processamento, de discussão dos horrores do nazismo, foi muito menos pronunciado no leste do que no oeste."
Costa observa que a chamada "pedagogia da memória", concebida como instrumento para impedir a repetição dos erros do passado, foi muito mais desenvolvida na antiga Alemanha Ocidental do que na parte oriental do país. Para o sociólogo, essa diferença ajuda a compreender parte da força da AfD no leste alemão, mas não é suficiente para explicar, sozinha, o avanço da extrema direita.
Na avaliação do pesquisador, o fenômeno deve ser inserido em um contexto internacional mais amplo. "O segundo fator é, de fato, uma mudança na política global. A extrema direita vem crescendo no mundo todo. Enfim, poucos países são aí uma exceção", afirma. Segundo Costa, a própria dinâmica da disputa política se transformou nos últimos anos. "É uma dinâmica diferente da política. É a política que é feita pelas redes sociais, sem uma discussão profunda de conteúdos, sem um conhecimento da história." Para ele, esse ambiente favorece o fortalecimento de forças radicais. "Tudo isso leva a esse resultado tão favorável a um partido que é considerado pelos organismos de vigilância constitucional na Alemanha como um partido de extrema direita."
Uma divisão que persiste, mas já não explica tudo
Quase quatro décadas após a queda do Muro de Berlim, os mapas eleitorais continuam revelando uma Alemanha atravessada por divisões que a reunificação não conseguiu eliminar completamente. "Qualquer pessoa que olhe no mapa da Alemanha vai ver que o partido de extrema direita AfD tem muito mais votação no lado leste do que no lado oeste, ou seja, muito mais na antiga Alemanha socialista do que na Alemanha capitalista." Segundo ele, essa realidade está ligada a frustrações acumuladas ao longo das últimas décadas, embora a interpretação de uma simples "questão oriental" seja insuficiente diante do crescimento do partido em outras regiões do país.
O sociólogo ressalta que a reunificação produziu avanços significativos e rejeita a ideia de que a persistente força da AfD no leste seja consequência de um fracasso econômico. "Os padrões de vida nos dois lados da Alemanha hoje são muito mais uniformes do que eram alguns anos atrás", afirma. Na sua avaliação, "a unificação foi exitosa nesse trabalho de promover o desenvolvimento econômico da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental, de alguma maneira articulá-los e vinculá-los". Ainda assim, ele chama atenção para desigualdades que permanecem visíveis, sobretudo na distribuição de riqueza. "A diferença significativa que existe é em termos de patrimônio. Os alemães ocidentais têm até hoje um patrimônio muito maior do que os alemães orientais, o que se explica através da história."
Mas, para Costa, a chave da questão talvez esteja menos nos indicadores econômicos do que na percepção de perda de relevância experimentada por parcelas da população. "Por que essa análise, ainda que importante, é insuficiente? Porque há outros fatores. A AfD está crescendo muito também no leste", observa. Segundo ele, cidades industriais que ocupavam posições centrais perderam influência política, econômica e simbólica ao longo do tempo. O resultado, afirma, é uma sensação difusa de declínio e perda de status que a AfD conseguiu explorar politicamente.
"Então há uma sensação de perda de poder. A AfD, através da sua propaganda, através da sua capilaridade nas redes sociais, faz reavivar, faz ressuscitar esse ressentimento e essa possibilidade de uma mudança no quadro atual." Mais do que capitalizar uma divisão histórica entre leste e oeste, conclui, o partido tem conseguido transformar descontentamentos diversos em força eleitoral. "Ela mobiliza frustrações dos dois lados da Alemanha."
O dilema do "cordão sanitário"
À medida que a AfD amplia sua votação, cresce também a pressão sobre o chamado Brandmauer, o "cordão sanitário" erguido pelos partidos tradicionais para impedir qualquer coalizão com a legenda. Para Costa, porém, essa estratégia continua plenamente justificada. "O cordão sanitário que é feito para impedir que um partido de extrema direita chegue ao poder é uma ação democrática", afirma. Na sua avaliação, a medida não representa uma limitação da democracia, mas um mecanismo de defesa institucional." Embora reconheça o peso eleitoral alcançado pela AfD, o sociólogo argumenta que o debate não pode ignorar os "efeitos concretos" de uma eventual chegada do partido ao governo.
Ao comentar o caso da Saxônia-Anhalt, Costa ressalta que, apesar de ter pouco mais de 2 milhões de habitantes, o estado possui uma relevância simbólica que ultrapassa seu tamanho. "É um estado muito pequeno, menor do que a minha cidade natal, Belo Horizonte, mas ele tem um papel simbólico muito importante." Segundo ele, lideranças da própria AfD já indicaram algumas das mudanças que pretendem implementar. "A AfD chegando ao poder nesse estado, e já disse que vai fazer isso, vai, por exemplo, abolir o dever das pessoas enviarem crianças à escola."
O pesquisador cita ainda propostas relacionadas à imigração e ao funcionamento do aparato estatal. "Ela vai basicamente abolir o direito de asilo político, que é um direito constitucional" e "vai seguramente se valer do serviço secreto, no nível estadual, para perseguir inimigos, para acumular informações". Diante desse cenário, conclui, "impedir que esse partido chegue ao poder é uma ação democrática".
Um caso que assusta a Europa
A extrema direita cresce em diversos países europeus, mas Costa considera que a Alemanha continua ocupando um lugar singular nesse debate. "O que torna o caso alemão diferente é o fato de que o cordão sanitário havia funcionado até agora", afirma, referindo-se à recusa dos partidos tradicionais em formar coalizões com a AfD. Mas, na sua avaliação, a excepcionalidade alemã vai além das estratégias partidárias. "É singular pela sua história."
Para o sociólogo, o peso simbólico do fenômeno é inevitável. "O país que protagonizou os horrores do nazismo, menos de cem anos depois, chega a ter esse partido, que se parece muito com o Partido Nazista outra vez chegando ao poder", diz. Embora ressalte que "é preciso guardar as proporções", Costa não esconde a preocupação diante desse cenário. "É algo muito assustador."
Leia também'Choque fascista': imprensa francesa reage à vitória da extrema direita na Alemanha
O erro de copiar a extrema direita
Se há um ponto em que Costa é categórico, é ao analisar as estratégias adotadas pelos partidos tradicionais para conter a AfD. Ele identifica um primeiro equívoco na forma como parte da classe política enxergou os eleitores da extrema direita.
"O primeiro erro foi entender que os eleitores que votavam na extrema direita não sabiam o que estava acontecendo e eram, portanto, vítimas da sua própria ignorância." Para o sociólogo, essa interpretação sempre esteve fadada ao fracasso.
"Considerar o eleitor ignorante é um péssimo diagnóstico para quem quer ganhar os votos desse eleitor."
Na avaliação do pesquisador, porém, um segundo erro continua sendo cometido. "O segundo erro, e esse é particularmente o erro que os partidos de centro têm cometido, de centro-direita, não só na Alemanha, é pensar que com um discurso semelhante ao da AfD eles podem conquistar os eleitores da AfD." A experiência recente aponta justamente na direção contrária, afirma. "Isso não vem acontecendo. Quanto mais os partidos de centro e de centro-direita se aproximam em suas reivindicações, em suas bandeiras da AfD, mais eles perdem votos, mais eles fortalecem a AfD."
Para Costa, a resposta não está na imitação da extrema direita, mas na construção de uma alternativa capaz de canalizar insatisfações legítimas para um projeto político democrático. "O que falta é construir um horizonte político novo que permita que esse ressentimento realmente existente, sobretudo na população do leste da Alemanha, mas não só nela, possa ser transformado numa expectativa de um futuro melhor."
Segundo o sociólogo, uma das razões do sucesso eleitoral da própria AfD é justamente sua capacidade de converter descontentamento em promessa de futuro. "A política que olha para o futuro, que é capaz de criar um contexto favorável, um contexto de otimismo, é essa política que tem ganhado os votos dos eleitores." Ele vê esse mecanismo de forma clara na atuação da liderança regional da legenda. "O que o líder da AfD na Saxônia fez foi precisamente isso. Ele é risonho. Ele promoveu a transformação do ressentimento numa mensagem de otimismo." Na visão de Costa, os adversários da extrema direita ainda não encontraram uma resposta equivalente. "É isso que os partidos democráticos precisam aprender a fazer."
O alerta para democracias como Brasil, França e Estados Unidos
Ao olhar para além da Alemanha, Costa vê na experiência alemã uma advertência para democracias que enfrentam polarização crescente e o avanço de lideranças nacional-populistas. Na sua avaliação, a principal lição é que a estratégia adotada por muitos partidos tradicionais tem produzido o efeito contrário ao desejado.
"A principal advertência é aquilo a que eu me referia antes: o fato de que imitar a extrema direita só cria mais força e votos para a extrema direita."
Para o sociólogo, a simples defesa das instituições democráticas continua necessária, mas deixou de ser suficiente para mobilizar parcelas do eleitorado atraídas por discursos radicais. "Não basta só dizer: precisamos proteger a democracia. Essa mensagem é insuficiente para ganhar o coração dos eleitores."
Em vez de reproduzir parte da agenda da extrema direita, Costa defende a construção de uma alternativa política capaz de responder às inquietações concretas da população. "É preciso criar um horizonte novo de expectativas. É preciso criar uma mensagem nova", afirma. Essa mensagem, segundo ele, deve reconhecer as dificuldades enfrentadas pelos eleitores sem recorrer à retórica do medo ou da exclusão.
"É preciso uma mensagem que seja da política de vida contra a política de morte, que seja a mensagem de novas perspectivas econômicas, de reconhecer efetivamente quais são os dramas cotidianos que o eleitor enfrenta."
Para o pesquisador, muitos dos cidadãos que migram para a extrema direita estão expressando demandas reais, ainda que encontrem respostas problemáticas. "É preciso transformar essa vontade sincera do eleitor, é preciso captá-la e responder a ela."
Costa também critica abordagens que tratam o eleitorado como um problema a ser corrigido ou educado. Na sua visão, o erro de parte dos partidos democráticos está em acreditar que basta explicar melhor suas posições ou ensinar o cidadão a votar. "O eleitor não quer ouvir que precisamos ensiná-lo à política ou ensiná-lo a votar", afirma. O desafio, argumenta, é mais complexo e passa pela capacidade de ouvir segmentos da sociedade que se sentem ignorados pelas elites políticas. "Ele quer ser escutado." E conclui: "Essa escuta profunda é algo que os partidos de centro e de esquerda precisam fazer com muito mais atenção do que têm feito até hoje."
Mon, 07 Sep 2026 - 658 - Escândalo do Banco Master reforça desconfiança na política e torna eleição mais instável, diz cientista político
Para o cientista político Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o escândalo envolvendo o Banco Master contribui para ampliar a deslegitimação do sistema político brasileiro em um momento de forte desinteresse eleitoral. Em entrevista à RFI, ele afirma que o caso atinge inclusive instituições que mantinham altos índices de credibilidade junto à população e avalia que o Brasil ainda não retomou uma trajetória de estabilidade democrática.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Faltando poucas semanas paraas eleições presidenciais de 4 de outubro, o cientista político Leonardo Avritzer avalia que o Brasil atravessa mais um momento de instabilidade democrática. Autor de diversos trabalhos sobre democracia, participação cidadã e instituições políticas, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais afirma que o país ainda vive um ciclo marcado por avanços e retrocessos na consolidação democrática.
Segundo Avritzer, as eleições brasileiras dos últimos anos deixaram de ser apenas disputas convencionais de poder e passaram a envolver a própria continuidade da ordem democrática. Na sua avaliação, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e os acontecimentos posteriores evidenciaram essa fragilidade institucional.
“O Brasil não tem uma construção democrática estável. Pelo contrário, nós temos ainda idas e vindas na nossa democracia”, afirma. Para ele, embora tenha havido alguma recuperação institucional após a eleição de 2022, o cenário continua longe da estabilidade. Como exemplo, cita a força eleitoral do Partido Liberal (PL) nas eleições proporcionais e a presença do filho de Bolsonaro na atual disputa presidencial.
Desânimo eleitoral e escândalo político
Ao analisar o atualprocesso eleitoral, Avritzer destaca dois elementos centrais. O primeiro é o que descreve como um profundo desinteresse da população pela campanha. Segundo ele, esse fenômeno pode ser observado tanto na pouca mobilização das ruas quanto no comportamento dos candidatos.
“O processo eleitoral é marcado por um enorme desânimo, desinteresse da população brasileira em relação ao próprio processo eleitoral”, afirma.
O segundo fator é o escândalo envolvendo o Banco Master. Embora ressalte que o caso não afeta diretamente o governo federal, Avritzer considera que ele contribui para enfraquecer a confiança dos brasileiros nas instituições.
“O pano de fundo é um escândalo de corrupção bastante forte ligado ao Banco Master”, observa.
Ele menciona o envolvimento de figuras influentes da política nacional e também as repercussões sobre o Supremo Tribunal Federal (STF).
"Ainda que o escândalo do Banco Master tenha características muito específicas e não seja um caso sistêmico de corrupção envolvendo o conjunto do sistema político, como foram o mensalão e a Lava Jato, ele acaba transmitindo a impressão de que o sistema político está à venda", resume Avritzer.
Segundo o cientista político, trata-se sobretudo de um caso envolvendo um banqueiro que teria buscado ampliar a influência de sua instituição por meio da aproximação com figuras de grande poder na República. "Por exemplo, podemos citar o ministro Alexandre de Moraes, além dos senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner, que aparecem entre os implicados. Ainda que não existam provas contundentes e nenhum dos envolvidos tenha sido condenado, o caso reforça a percepção de que o sistema político brasileiro pode ser influenciado por interesses privados", reitera.
Mudanças no equilíbrio entre os Poderes
Para Avritzer, a atual conjuntura também reflete transformações profundas na relação entre os três Poderes da República.
Historicamente, afirma, o Executivo sempre ocupou posição central na política brasileira, particularmente desde os anos 1930. No entanto, a Constituição de 1988 fortaleceu o STF ao ampliar suas prerrogativas institucionais. Mais recentemente, o Congresso Nacional também ganhou influência política com o fortalecimento das emendas parlamentares.
O resultado, segundo ele, é uma configuração inédita na história recente do país.
“Hoje nós vivemos uma situação no Brasil diferente da nossa trajetória histórica. O Executivo é o poder mais fraco, mais dependente dos outros dois poderes”, avalia.
Polarização persiste, mas é mais intensa nas redes
Questionado sobre a polarização política, Avritzer considera que o fenômeno continua presente, sobretudo nas redes sociais. No entanto, ele chama atenção para pesquisas que apontam uma realidade diferente quando se observa o comportamento dos brasileiros fora do ambiente digital.
Segundo ele, levantamentos recentes mostram que a maioria dos eleitores não rejeita relações pessoais com pessoas de posicionamentos políticos diferentes. Esse cenário contrastaria, por exemplo, com o observado atualmente nos Estados Unidos.
Para o pesquisador, isso sugere que a polarização social pode ser menos intensa do que a polarização observada nas plataformas digitais.
Diferenças regionais e de gênero no comportamento eleitoral
Ao analisar as motivações do eleitorado, Avritzer identifica diferenças importantes entre regiões do país.
Segundo ele, os eleitores mais pobres, especialmente do Nordeste, tendem a dar maior importância às políticas de proteção social, ao valor do salário mínimo e à expectativa de melhoria das condições de vida. Já no Sudeste, afirma, é mais forte a rejeição ao sistema político, ao Estado e às empresas estatais.
O cientista político também destaca diferenças entre homens e mulheres. Em sua avaliação, os homens apresentam posições mais conservadoras e maior rejeição às políticas sociais, enquanto as mulheres tendem a reconhecer mais claramente a importância dos mecanismos de proteção social.
Partidos seguem no centro da disputa
Apesar da baixa confiança dos brasileiros nos partidos políticos, Avritzer observa que eles continuam sendo os principais organizadores da competição eleitoral.
Segundo ele, pesquisas mostram níveis muito elevados de desconfiança da população em relação às legendas. Ainda assim, PT e PL concentram atualmente cerca de 70% das intenções de voto, demonstrando que a disputa política continua estruturada em torno dos partidos.
Para o professor, a maior dificuldade surge no Congresso Nacional, onde a fragmentação partidária permanece elevada e contribui para os desafios de governabilidade enfrentados pelos sucessivos governos.
Juventude entre participação e afastamento
Em relação aos jovens, Avritzer considera que o cenário é ambivalente. Por um lado, pesquisas indicam crescimento do número de jovens entre 16 e 24 anos que se identificam com posições de direita. Por outro, ele observa que esse mesmo grupo continua demonstrando interesse em obter o título de eleitor mesmo quando o voto é facultativo.
Ao mesmo tempo, ressalta, os jovens também figuram entre os segmentos que mais se abstêm de votar, o que torna difícil afirmar se estão efetivamente se aproximando ou se afastando da política institucional.
Para Avritzer, essa combinação de fatores ajuda a explicar um dos principais desafios das eleições de 2026: a coexistência entre a permanência das disputas políticas tradicionais e uma crescente desconfiança dos eleitores em relação ao sistema político brasileiro.
Fri, 04 Sep 2026 - 657 - Eleitorado brasileiro em Paris cresce mais de 32% para o pleito de outubro
Os preparativos para as eleições presidenciais brasileiras de outubro estão em fase final em Paris, onde está concentrado o maior colégio eleitoral brasileiro da França. O número de brasileiros aptos a votar na capital francesa chegou a 27,8 mil, um aumento de aproximadamente 32% em relação a 2022, quando pouco mais de 21 mil eleitores estavam registrados.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Apesar da alta expressiva no eleitorado, a expectativa é que cerca de 14 mil pessoas compareçam às urnas, o equivalente a aproximadamente 50% dos inscritos, percentual semelhante ao observado nas últimas eleições.
Em entrevista à RFI, o cônsul-geral do Brasil em Paris, Fábio Mendes Marzano, afirmou que a organização da votação está praticamente concluída. A votação em Paris ocorrerá no Espaço Vinci, localizado no número 25 da Rue des Jeûneurs, no 2º distrito da capital francesa.
O local é facilmente acessível por transporte público e fica a poucos minutos a pé das estações Grands Boulevards, servida pelas linhas 8 e 9 do metrô de Paris, e Bourse, na linha 3. Segundo o consulado-geral do Brasil, a escolha do espaço levou em conta a facilidade de acesso para os eleitores e a capacidade de receber um grande fluxo de votantes ao longo do dia.
“Esperamos o comparecimento de dezenas de milhares de brasileiros, porque é um momento muito importante da nossa democracia. Temos tudo praticamente organizado para o grande dia”, afirmou o cônsul-geral do Brasil.
Segundo o consulado, serão disponibilizadas 34 urnas eletrônicas para atender os eleitores. Os equipamentos ainda aguardam envio pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e passarão por testes assim que chegarem à França. Como medida de segurança, também já foram recebidas urnas de lona para eventual substituição em caso de falha técnica.
Na últimaeleição presidencial, duas urnas eletrônicas apresentaram problemas e foi necessário recorrer ao voto manual em algumas seções.
A organização da votação mobilizará 185 pessoas, entre servidores do Ministério das Relações Exteriores e voluntários. Mais de 80 integrantes da equipe pertencem aos quadros do consulado, da embaixada do Brasil na França, da delegação brasileira junto à Unesco e da representação do país na OCDE. “Os brasileiros fazem questão de ajudar, de colaborar nesse processo e de participar”, destacou Marzano.
Assim como os demais brasileiros residentes no exterior, os eleitores registrados na França poderão votar apenas para presidente da República – diferentemente do que ocorre no território brasileiro, onde os eleitores escolherão também governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais ou distritais. Em caso de segundo turno, uma nova votação será realizada nas representações eleitorais brasileiras no exterior.
Como votar
A votação seguirá a ordem de chegada, com prioridade para idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida. Os eleitores deverão apresentar o título de eleitor ou um documento oficial com foto.
Assim como no Brasil, será proibida qualquer forma de propaganda eleitoral dentro do local de votação, incluindo a chamada boca de urna e o uso de roupas ou acessórios que identifiquem candidatos ou partidos políticos.
Segundo o cônsul-geral, o clima nas eleições anteriores foi marcado pela tranquilidade.
“Os brasileiros vêm com muita alegria participar e nunca tivemos problemas de arruaça ou comportamentos indevidos”, afirmou.
A segurança do entorno ficará sob responsabilidade da polícia francesa, que atuará do lado de fora do local de votação. No interior do recinto, agentes privados contratados pelo consulado serão responsáveis pela manutenção da ordem.
Além de coordenar a estrutura de votação, Marzano exercerá a função de juiz eleitoral em Paris. Caberá a ele resolver eventuais situações excepcionais, como problemas de identificação dos eleitores ou outras ocorrências durante o pleito.
Primeira votação em Marselha
Esta será também a primeira eleição presidencial brasileira com votação em Marselha, a segunda maior cidade da França e principal centro urbano da região sul do país, às margens do Mar Mediterrâneo. A nova seção eleitoral reúne cerca de 2,8 mil eleitores inscritos, número dez vezes menor do que o de Paris.
Para Marzano, a criação da seção no sul da França não deve reduzir significativamente a participação na capital francesa. Pelo contrário, ele acredita que a nova estrutura pode incentivar mais brasileiros a comparecer às urnas, ao facilitar o acesso ao voto para quem vive distante de Paris.
“Convido todos os brasileiros eleitores a participarem desse grande dia. É um dos momentos mais importantes da nossa democracia. Vamos recebê-los de braços abertos, com toda a organização, segurança e logística necessárias."
Mon, 31 Aug 2026 - 656 - Conheça os desafios de Lula e Flávio para conquistar o voto dos eleitores indecisos
O RFI Convida entrevistou o analista Rodolfo Marques, doutor em ciência política e professor da Universidade da Amazônia, sobre a acirrada disputa entre os dois principais candidatos à presidência da República: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Ele afirmou que enquanto o primeiro precisa quebrar resistência de setores como a classe média, o segundo precisa mostrar que tem capacidade administrativa e não é apenas a sombra do pai.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
Os candidatos do PT e do PL têm desafios diferentes, mas o mesmo objetivo de alcançar a maioria dos eleitores para ocupar a principal cadeira política da República brasileira. O foco de ambos se volta para uma parcela importante do eleitorado, os indecisos. Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, 72% dos eleitores estão totalmente certos de qual número vão apertar na urna em outubro. Os demais ainda hesitam.
Para o analista político Rodolfo Marques, “Lula precisa preservar sua base e dialogar com setores que hoje têm resistência ao governo, por exemplo, a classe média, o segmento evangélico e parte do agronegócio. E também precisa evitar que problemas envolvendo integrantes da sua família ou aliados contaminem a campanha”.
“Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa transformar a força política do sobrenome Bolsonaro em uma candidatura capaz de conquistar eleitores que não são exatamente bolsonaristas. Seria a direita não bolsonarista. E parte dessa direita não bolsonarista esteve com Lula em 2022. São desafios bem grandes para os dois principais candidatos”, afirmou Marques.
Investigações
Sobre os casos em investigação, o professor avalia que as apurações, relacionadas de alguma forma aos dois candidatos, podem ter peso importante, mas não necessariamente ser determinantes. Segundo ele, "o ponto central é o eleitor entender se existe responsabilidade direta do candidato ou do partido nesses casos.”
“Lula precisa descaracterizar e tentar afastar toda essa questão do Lulinha. E Flávio Bolsonaro precisa explicar a questão das conexões financeiras e comerciais que ele já demonstrou ter com Daniel Volcaro, inclusive pedindo milhões de reais para o filme Dark Horse. Flávio tenta enterrar a situação, mas ela ainda está muito ativa.”
Aliados de Lula têm criticado vazamento de informações do caso Lulinha, enquanto apontam que outras investigações, como a do Banco Master, não avançam. Já apoiadores de Flávio Bolsonaro tecem críticas a setores do judiciário. O analista reconhece o momento delicado e destaca o papel relevante das instituições tanto na apuração quanto na demonstração de que não estão agindo politicamente.
“Existe de fato uma tensão importante. É bom ressaltar que Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário precisam investigar e cumprir suas funções, independentemente do calendário eleitoral. O problema emerge quando a sociedade passa a interpretar cada decisão institucional a partir da disputa político-eleitoral. As instituições precisam atuar com independência, mas também precisam preservar a percepção de imparcialidade”, frisou.
Religião e gênero
Rodolfo Marques lembrou que nichos específicos não são homogêneos, como os evangélicos, os produtores rurais ou o eleitorado feminino. Mas disse que existem sim desafios peculiares para cada candidato nessas áreas.
“Há uma lacuna muito grande da campanha do PT e da coligação do governo em relação aos evangélicos e ao agronegócio, mas acredito que seja possível abrir um canal de diálogo com esses setores, principalmente a partir da habilidade política e de comunicação de Lula. Já Flávio tem um histórico muito negativo em relação às mulheres, não só ele, mas o próprio pai, Jair Bolsonaro, e o irmão, Eduardo. Então, a campanha de Flávio tem essa cruzada para buscar o voto feminino, mas tende a ter mais dificuldades.”
Propagando eleitoral
A partir do próximo dia 28 a campanha passa a contar também com o horário eleitoral exibido no rádio e na televisão. O analista político diz que mesmo com impacto limitado em tempos digitais, trata-se de uma ferramenta importante na campanha.
“Nos dias de hoje, o eleitor recebe conteúdo político de forma muito mais personalizada nas redes sociais, por vezes criado dentro de uma bolha a partir dos algoritmos. Já o rádio e a televisão têm uma característica importante no sentido de atingir um público amplo e diversificado, ainda que o alcance não seja como antes”.
Na propaganda eleitoral, o eleitor acompanha um programa na sequência do outro e não apenas o material do seu candidato. Justamente por ser uma forma menos nichada, pode atingir quem ainda não se decidiu. “Na televisão, e no rádio, existe um pouco daquela propaganda sem interrupção. Os candidatos e as candidatas conseguem falar com quem não estava prestando atenção neles ou com quem eventualmente ainda não se decidiu. E os recortes desses programas vão para as redes sociais. A propaganda, assim, pode ter certa influência. Mas é claro que os eleitores vão tomar suas decisões a partir de vários elementos.”
Mon, 24 Aug 2026 - 655 - 'A França está liderando uma revolução na moda', diz Alexandra Farah em Paris
Durante décadas, a indústria do luxo foi considerada um dos setores mais resilientes da economia global. Mesmo em momentos de crise, marcas tradicionais francesas continuaram registrando crescimento e preservando seu prestígio. Mas esse cenário começa a mudar. Para a jornalista Alexandra Farah, especialista em moda, sustentabilidade e comportamento, a Europa vive hoje uma verdadeira revolução industrial que está remodelando os rumos do setor.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Em entrevista àRFI, Farah afirmou que a França ocupa posição de destaque nesse processo por liderar iniciativas voltadas à transparência, rastreabilidade e economia circular. Segundo ela, as novas exigências regulatórias prometem alterar profundamente a forma como roupas e acessórios são produzidos, vendidos e descartados.
"A França está encabeçando esse movimento. Estamos no meio de uma revolução industrial baseada na transparência, na circularidade e em uma indústria mais moderna", resume.
Entre as mudanças mais significativas está a criação do chamado passaporte digital do produto. A ferramenta permitirá que consumidores tenham acesso a informações detalhadas sobre a origem das peças, matérias-primas utilizadas, emissão de carbono e processos produtivos.
A medida surge em um momento de questionamento crescente sobre os bastidores do mercado de luxo. Escândalos recentes envolvendo condições de produção e a enorme diferença entre custos de fabricação e preços finais ao consumidor contribuíram para desgastar a imagem de algumas grandes marcas.
Farah observa que o setor ainda sente os efeitos do chamado revenge buying, fenômeno registrado após a pandemia, quando consumidores voltaram às compras de forma intensa após os períodos de confinamento. Agora, porém, os sinais apontam para desaceleração.
"As marcas cresceram muito naquele período, mas hoje várias delas enfrentam queda nas vendas. Algumas registram recuos significativos em comparação com anos anteriores", afirma a jornalista, que já atuou em diversos veículos de comunicação, incluindo revistas, rádio e televisão. "A avenida Montaigne, endereço do luxo francês, está vazia", aponta.
A pressão sobre a fast fashion
Se o mercado de luxo enfrenta desafios,a moda ultrarrápida também está sob crescente escrutínio. Plataformas digitais capazes de lançar milhares de modelos por dia transformaram radicalmente o consumo de vestuário.
Farah cita o caso da gigante chinesa Shein para ilustrar a velocidade inédita do setor. Segundo ela, algoritmos e inteligência artificial permitem testar pequenas quantidades de produtos e ampliar rapidamente a produção quando determinado item viraliza nas redes sociais.
O impacto ambiental desse modelo preocupa reguladores europeus. A jornalista destaca que, durante muito tempo, a responsabilidade pelo consumo sustentável foi atribuída exclusivamente ao comprador. Agora, o foco começa a se deslocar para a cadeia produtiva.
"Não adianta colocar toda a responsabilidade sobre o consumidor. As pessoas compram o que está disponível e acessível. A responsabilidade precisa recair também sobre quem produz e coloca esses produtos no mercado", defende.
Na Europa, novas regras vêm sendo implementadas para monitorar não apenas roupas, mas também embalagens utilizadas pelos mais diversos setores da economia. A meta é reduzir o desperdício e tornar os processos mais transparentes.
Moda reflete mudanças sociais
Para Alexandra Farah, a moda nunca pode ser analisada isoladamente. As tendências de vestuário refletem transformações políticas, econômicas e culturais em escala global.
Ela cita como exemplo o retorno de peças clássicas e de maior durabilidade, como os sapatos de couro, observado entre jovens consumidores na Europa após décadas de predominância dos tênis. O movimento, segundo ela, não está relacionado somente à busca por produtos mais duráveis, mas também reflete um contexto social marcado por comportamentos mais conservadores.
"A moda responde ao que está acontecendo no mundo. Ela não é uma bolha", afirma.
O olhar sobre o Brasil
Ao comparar o cenário europeu com o brasileiro, Farah ressalta a diversidade regional do país e destaca características específicas do consumo nacional. Em sua avaliação, fatores como clima tropical e menor poder aquisitivo médio influenciam diretamente os hábitos de compra.
"A gente não tem o mesmo perfil de consumo visto em países europeus. A gente gosta de corpo, pele, cabelo. O brasileiro tende a ter uma relação mais prática com a roupa", observa.
Ela lembra que o Brasil possui uma cadeia têxtil completa, capaz de produzir desde a matéria-prima até o produto final. Apesar disso, enfrenta desafios próprios ligados à produção agrícola e à competitividade diante do avanço das plataformas internacionais de moda.
Inteligência artificial e o futuro da indústria
Além de acompanhar as transformações do mercado, Alexandra Farah trabalha atualmente em um novo livro dedicado aos bastidores da produção de moda. O projeto, desenvolvido em parceria com Ricardo Nascimento, um pesquisador baseado em Londres, busca traduzir para profissionais e consumidores as profundas mudanças em curso na indústria.
A publicação abordará temas como inteligência artificial, rastreabilidade, novos materiais e circularidade. Segundo a jornalista, o desenvolvimento do livro levou anos justamente porque as transformações regulatórias e tecnológicas continuam acontecendo em ritmo acelerado.
Hoje, afirma, ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas em áreas como logística, design, pesquisa de tendências e reciclagem têxtil.
"Estamos vivendo uma transição histórica. A inteligência artificial está presente em praticamente todas as etapas da cadeia da moda", diz.
Para Farah, o futuro do setor dependerá da capacidade de equilibrar inovação tecnológica, responsabilidade ambiental e transparência. E, nessa corrida, a França aparece como um dos principais laboratórios mundiais das mudanças que deverão chegar em breve a outros mercados.
"Quando a moda muda, ela está refletindo mudanças muito maiores que estão acontecendo na sociedade", conclui.
Fri, 21 Aug 2026 - 654 - Quarteto curitibano Terraplana realiza sua primeira turnê europeia e se apresenta em Paris
O grupo de rock alternativo Terraplana realiza neste mês sua primeira turnê europeia e se apresenta em Paris nesta quarta-feira (19), na sala Supersonic. Com dois álbuns de estúdio lançados, a banda de Curitiba, no Paraná, se consolida como um dos principais nomes da cena alternativa brasileira e conquista, cada vez mais, espaço no circuito internacional.
Daniella Franco,da RFI
Com duas datas em Portugal, uma em Londres, Dublin, Paris e Berlim, Terraplana apresenta ao público europeu uma amostra potente do rock alternativo brasileiro. Formada por Stéphani Heuczuk (voz e baixo), Vinícius Lourenço (voz e guitarra), Cassiano Kruchelski (voz e guitarra) e Wendeu Silverio (bateria), a banda não abre mão das letras em português e acredita no alcance do público por meio da força de sua atmosfera musical.
“Eu acho que a gente tem um pouco de sorte de estar neste nicho de rock alternativo e shoegaze em que as pessoas não se conectam só com a letra, como acontece mais com a música pop”, afirma Vinícius Lourenço. “As pessoas que estão no show ouvem os álbuns em casa e procuram o significado das letras, exatamente como a gente faz com a música em inglês no Brasil”, explica.
No ano passado, o site americano de música Stereogum colocou o segundo álbum do Terraplana, “Natural”, em uma lista dos dez melhores discos de shoegaze de 2025. A banda caiu no gosto da crítica americana depois de uma longa turnê nos Estados Unidos, que impulsionou a carreira internacional do quarteto.
“Sempre foi uma vontade nossa conseguir tocar nos Estados Unidos e na Europa, porque os palcos de Londres, Paris, Dublin ou Los Angeles, Nova York são muito importantes para a história da música no geral”, reitera.
Ainda assim, é com o público brasileiro que Terraplana encontra mais calor. “O Brasil é famoso por isso, então as pessoas que são nossos fãs lá são muito fãs. Na Europa e nos Estados Unidos, as pessoas são mais ‘na delas’, mais reservadas”, diz. “Mas é legal ver essa diferença de comportamento das pessoas em cada país.”
O rótulo shoegaze
Na imprensa nacional ou no exterior, Terraplana é majoritariamente descrita como uma banda de shoegaze, “que internacionalmente tem um teto muito mais alto do que no Brasil”. No entanto, as composições transitam entre vários gêneros introspectivos dentro do rock alternativo – como post-rock, indie, slowcore, dream-pop, entre outros.
“Eu, pessoalmente, prefiro não estar definido somente como shoegaze porque não somos só isso. Pode ser que, no próximo álbum, as músicas não sejam tão shoegaze como foram no último”, diz. “Então eu prefiro que se refiram à gente mais como um grupo de rock alternativo do que nos colocarem numa caixa e a gente não conseguir sair mais disso”.
De fato, com riffs que dialogam com a mítica Slowdive, mas também com outros grupos célebres do gênero, como Whirr e DIIV, conduzidos pela doce voz de Stéphani Heuczuk, Terraplana mescla diversos estilos sem a necessidade de se fixar em um rótulo. Na cena nacional, a banda também se destaca pela originalidade com que explora o rock alternativo, consolidando‑se como um dos projetos mais singulares desta vertente.
Depois de um ano intenso de promoção e turnês de “Natural”, o quarteto pretende se dedicar a novas composições ao final da turnê europeia. Segundo Vinícius, novas faixas serão lançadas em breve em parceria com uma banda americana, antes de o grupo mergulhar no projeto de um terceiro disco.
Wed, 19 Aug 2026 - 653 - Élodie Bouny revisita legado de Baden Powell em álbum gravado com o último violão do mestre
A obra de Baden Powell ganha uma nova leitura nas mãos da violonista e compositora francesa Élodie Bouny. Com acesso a arquivos inéditos e ao último violão usado pelo compositor nos dez anos finais de sua vida, ela prepara 'Echoes of Baden Powell', álbum previsto para 2027. O projeto homenageia um dos maiores gênios da música brasileira com um toque de originalidade da instrumentista, profundamente influenciada pelos sons latino-americanos.
Luiza Ramos, da RFI
Em entrevista à RFI, a artista explicou o processo de pesquisa por trás do projeto e revelou como vem transformando manuscritos e rascunhos incompletos do mestre em novas peças para o disco. Essa investigação artística se deu graças à colaboração de Philippe Baden, filho de Baden Powell radicado na França, que forneceu os arquivos pessoais do pai, com esboços e obras que nunca chegaram a ser publicadas.
“São centenas de páginas. Tem o manuscrito do ‘Berimbau’ (música lançada por Powell e Vinícius de Moraes em 1963), tem letras muito conhecidas, canções, um monte de coisa. (...) Dentro disso tem umas pérolas escondidas. Algumas peças inéditas que ele deixou. A maior parte delas é inacabada, então a gente vai ter que fazer esse trabalho de reorganização, de completar as músicas”, conta.
O trabalho exigiu um verdadeiro esforço de reconstrução musical. Segundo a violonista, muitas vezes o material encontrado era fragmentário, exigindo pesquisa, interpretação e criação.
“É uma forma de arqueologia musical, porque às vezes tem uma melodia só com os acordes, por exemplo, umas cifras, então, nesse caso, tenho que fazer um arranjo para violão. Ou às vezes tem só alguns elementos e a gente tem que decodificar aquilo e então restituir alguma coisa mais completa”, detalha a compositora.
O violão queridinho de Baden Powell
O projeto também tem uma dimensão emocional. As gravações serão realizadas com o último violão utilizado por Baden Powell. Um instrumento que ele adorava e com o qual ele registrou alguns dos trabalhos mais importantes de sua discografia: “Ele gravou dez anos de álbuns fundamentais nesse violão. Gravou ‘Tempo Feliz’, por exemplo. São discos referenciais para todos nós. É um violão extremamente valioso”, conta.
“Foi uma loucura. Eu demorei semanas para conseguir tocar porque eu só olhava para ele, cheirava, observava. Esse violão tem muita história”, lembra Élodie, que já gravou três faixas solo com o instrumento do artista, entre elas ‘Ecos de Baden’, que ilustra esta entrevista no começo do áudio e do vídeo.
Uma homenagem a Baden com a personalidade de Élodie
O desafio, porém, não era apenas acessar esse patrimônio musical e simplesmente reproduzi-lo. Para Élodie, era preciso encontrar uma perspectiva própria sobre uma obra profundamente associada à identidade brasileira. Ela revela que precisou pensar em um conceito do álbum até achar um caminho próprio.
“Qual é o diferencial de eu ser uma não-brasileira, mas também alguém de coração brasileiro, que conhece muito bem a música brasileira, interpretando um dos brasileiros mais importantes da história da música brasileira? Eu achei um caminho para o álbum ter a minha cara: compor uma peça para ele, chamar convidados para o projeto, justamente para trazer luzes diferentes sobre a obra dele. Por isso o nome também é ‘Ecos’... De que maneira o Baden fica ressoando até hoje no coração dos músicos, sejam eles brasileiros ou não”, diz a musicista.
Além das obras inéditas de Baden Powell, Echoes of Baden reunirá peças emblemáticas do repertório do compositor e composições originais inspiradas em seu universo musical. O álbum contará ainda com participações internacionais, entre elas a clarinetista israelense Anat Cohen, o cavaquinhista brasileiro Matheus Donato e o gaitista belga Steven De Bruyn. Além do Phillippe, filho de Baden, que vai tocar piano em uma das faixas.
Nascida em Caracas, de mãe boliviana e pai francês, e formada na França, Élodie viveu muitos anos no Rio de Janeiro, onde também fez um mestrado em música e trabalhou com seu ex-marido, o também violonista Yamandu Costa. A experiência na América Latina ajudou a moldar uma identidade artística marcada pelo trânsito entre culturas e linguagens musicais.
“Essa multiculturalidade virou o que eu sou hoje como artista. Durante muito tempo eu tentei me identificar com algum desses países. (...) Fui explorando esse lado e percebi que todas essas influências me alimentavam e eu não precisava escolher apenas uma”, afirma Élodie.
Legado de Baden Powell ressoa pelo mundo
Para ela, o legado do compositor continua vivo justamente pela capacidade de atravessar fronteiras e influenciar músicos de diferentes gerações e origens.
“O projeto é dizer o quanto ele continua ecoando na gente. Em mim e em todos os artistas brasileiros que eu conheço, o Baden tem uma importância grande. Ele começou a tocar e a compor e já estava mudando a história da música brasileira e da música do mundo. Eu acho que ele iria gostar dessa homenagem”, diz esperançosa.
Previsto para o primeiro semestre de 2027, Echoes of Baden busca revelar a atualidade da obra de Baden Powell, mostrando como sua música continua inspirando artistas muito além das fronteiras brasileiras.
Tue, 18 Aug 2026 - 652 - Fundação Príncipe Albert II de Mônaco recompensa inovação brasileira de fios têxteis à base de algas
Um projeto brasileiro para a produção de fibras têxteis à base de algas marinhas acaba de ser recompensado pelo programa internacional Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco. A iniciativa brasileira visa contribuir para a transformação global do setor da moda, hoje um dos mais poluidores do planeta.
A fabricação de fibras têxteis à base de algas no Brasil está sendo desenvolvida pela Phycolabs, startup sediada em São Paulo, fundada há quatro anos pela empresária Thamires Pontes, profissional com longa experiência na indústria têxtil que migrou para a biotecnologia e soluções climáticas relacionadas ao oceano. O projeto foi um dos dez selecionados este ano pelo programa Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco para recompensar projetos de jovens empreendedores engajados com a proteção do meio ambiente.
Thamires é a segunda brasileira recompensada pelo programa do principado, depois de Ezequiel Vedana da Rosa, criador do produto inovador “Piipee”, em 2004. Durante um ano, a Phycolabs receberá acompanhamento da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco e maior visibilidade internacional.
Em entrevista à RFI, a empreendedora considera o reconhecimento do Líderes do Futuro um marco importante, especialmente por vir de uma instituição com forte atuação na proteção ambiental e dos oceanos. Segundo a CEO da Phycolabs, a premiação amplia a credibilidade e abre portas para uma rede de contatos internacionais de alto nível. A iniciativa já havia sido reconhecida por importantes organizações do setor da moda, mas a “validação da Fundação para a Phycolabs é indispensável nesse setor” de proteção do meio-ambiente.
A startup trabalha com comunidades costeiras brasileiras para desenvolver uma biotecnologia sustentável voltada à indústria têxtil. O setor da moda responde por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, 24% de pesticidas e inseticidas no ar e 35% dos microplásticos nos oceanos. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento e os fios à base de algas ainda não estão disponíveis no mercado.
Algas como matéria-prima
A empreendedora explica que os impactos ambientais da indústria têxtil estão presentes em toda a cadeia produtiva, do cultivo das matérias-primas ao descarte das roupas. A ideia dos fios à base de algas surgiu durante seu mestrado na USP, após mais de uma década trabalhando no setor. "Quanto mais eu conhecia a indústria têxtil a fundo, mais eu fui ficando frustrada e comecei a pensar quais poderiam ser as soluções."
Segundo Thamires, as algas são uma matéria-prima estratégica porque apresentam uma das maiores taxas de crescimento do planeta e podem acompanhar a escala de consumo exigida pela indústria têxtil.
Ela destaca que o cultivo dessa biomassa não compete com terras agrícolas e tem rápida capacidade de regeneração. "Se a gente quer uma alternativa para uma indústria que consome muito, a gente precisa de um recurso natural que seja capaz de acompanhar esse consumo."
Para cultivar algas, são necessários apenas água do mar, luz solar e CO₂. Além disso, elas não exigem pesticidas ou inseticidas, ajudam a absorver gases de efeito estufa e favorecem a biodiversidade marinha. Thamires ressalta que as algas podem ser utilizadas não apenas para tecidos, mas também para alimentação humana, animal e outros bioprodutos.
Desafios tecnológicos
A Phycolabs trabalha atualmente no aprimoramento das propriedades dos fios, como resistência, acabamento, tingimento e compatibilidade com a infraestrutura já utilizada pela indústria. Um dos maiores desafios é fazer com que os novos materiais possam ser processados nos maquinários existentes, facilitando sua adoção em larga escala.
A fundadora da startup observa um interesse crescente da indústria da moda, impulsionado por novas regulamentações ambientais, sobretudo na Europa, e por consumidores cada vez mais atentos à sustentabilidade.
A tecnologia está sendo desenvolvida inicialmente para roupas, mas poderá futuramente ser aplicada também a calçados, bolsas e acessórios. Como ainda está em desenvolvimento, o material tem custo superior ao das fibras convencionais. A expectativa é que os preços diminuam conforme a produção aumente.
A estratégia inicial da Phycolabs é atuar no segmento de luxo e junto a grandes marcas, que demandam menores volumes e valorizam a inovação e a sustentabilidade dos materiais. Thamires revela que grandes marcas, brasileiras e internacionais, já se interessaram pelo novo produto, e diz que em breve os consumidores poderão vestir uma camisa de fibra à base de alga.
Parceria com comunidades costeiras
A empresa mapeia produtores de algas em diferentes regiões do Brasil e trabalha com comunidades costeiras, especialmente nos estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Nos testes mais recentes, a biomassa foi adquirida de uma produtora localizada na Ilha Grande, no município litorâneo de Angra dos Reis (RJ). Segundo Thamires, o cultivo de algas pode criar novas fontes de renda para pescadores e comunidades locais, especialmente em períodos de baixa atividade pesqueira ou turística.
Apesar dos desafios, Thamires acredita que a transformação da indústria da moda é possível e que novos biomateriais terão papel central nesse processo.
"É por isso que eu acordo todos os dias. Eu acredito, do fundo do meu coração, que sim, vai haver essa mudança."
Para ela, o mercado, os consumidores e as empresas já estão se movendo em direção a soluções mais sustentáveis, abrindo espaço para uma nova geração de materiais capazes de reduzir os impactos ambientais da moda.
Fri, 14 Aug 2026 - 651 - Clarinetista cearense leva ritmos brasileiros para concertos e conservatórios da França
Há duas décadas, uma oportunidade de estudos levou o clarinetista Alison Pereira a trocar Fortaleza pelos Alpes franceses. Hoje, radicado na região da Savoia, no sudeste da França, o músico atua como professor, diretor de orquestra e divulgador da música brasileira em conservatórios e festivais europeus. Ele acaba de participar do tradicional Festival de Violoncelos de Briançon, cidade onde estudou na juventude.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
A história começou em 2006, quando Alison foi selecionado para participar do projeto "Tempo de Brasil", criado em Briançon pelo violoncelista Fernando Lima. Na época, ele já tocava em orquestras em Fortaleza e buscava novos desafios profissionais.
“Eu estava no Brasil, em Fortaleza, e recebi uma ligação de um professor da universidade me contando que havia um projeto começando em Briançon. Eles estavam procurando estudantes brasileiros com um certo nível para fazer um curso intensivo no Conservatório du Briançonnais”, relembra.
Selecionado após um processo que incluía o envio de currículo e de vídeos tocando clarinete, ele desembarcou na França acompanhado de outros dois músicos brasileiros selecionados. O que seria inicialmente um intercâmbio acabou mudando o rumo de sua vida.
A ligação com Briançon permanece forte. Além de trabalhar em eventos culturais da cidade, Alison construiu ali uma família e uma rede de amigos.
Formação clássica com raízes brasileiras
Apesar de ter seguido uma formação voltada para a música clássica em conservatórios de Briançon, Lyon e Paris, o músico nunca deixou de lado suas raízes brasileiras.
O choro, a bossa nova e o samba continuam presentes em seu trabalho pedagógico e artístico. “Sempre tive um pé na música popular brasileira. Toco pandeiro, bateria, violão e o que mais puder fazer batucada”, brinca.
“A música brasileira é a minha especialidade maior. Essa influência sempre aparece nos meus trabalhos, seja como diretor musical de orquestra sinfônica, banda de música na região da Savoia – onde eu tenho projetos que são ligados à música brasileira – ou em intervenções em conservatórios por toda a França”, diz Alison Pereira.
Música do Brasil enriquece o ensino europeu
O clarinetista diz que sempre que possível adiciona a riqueza rítmica e melódica das composições brasileiras no repertório de seus alunos, pois, segundo ele, representa um importante complemento para a formação dos estudantes europeus. “A música brasileira enriquece muito o aluno porque tem muita nota, muito ritmo e coisas interessantes musicalmente falando”, aponta.
“Compositores brasileiros fazem parte da história da música. Nossa Bossa Nova, por exemplo, tem influências do impressionismo francês de Claude Debussy e Maurice Ravel. Quando apresentamos esse repertório em exames nos conservatórios, os júris e colegas professores ficam impressionados com a 'cor' e o ritmo, que soam exóticos sem perder nada em dificuldade técnica”, afirma.
Atualmente, Alison divide seu tempo entre aulas, apresentações e projetos musicais em diferentes países europeus. No fim de agosto, ele ministrará uma oficina de clarinete em Autrans-Méaudre en Vercors com alunos da França e da Bélgica.
Dirigida por ele, Orquestra Sinfônica de Pays d'Arlysère, na região da Savoia, fará um concerto de Natal no fim de semana de 12 e 13 de dezembro. E além disso, o músico tem a agenda lotada de projetos diferentes até 2028. Ele costuma publicar suas apresentações nas redes sociais.
Aos jovens brasileiros que sonham em seguir uma carreira internacional na música, Alison Pereira deixa uma mensagem de perseverança: “O conselho que dou é que tenham confiança em si e sejam sérios nos estudos. Cada minuto que passamos estudando se 'paga' depois, não é tempo perdido. Quem tiver a oportunidade de vir estudar aqui, que aproveite bem”, aconselha o clarinetista.
Mon, 10 Aug 2026 - 650 - Filme pernambucano 'A Margem do Rio' leva o Brasil à competição principal do Festival de Locarno
O Festival de Locarno, na Suíça, um dos mais importantes eventos do cinema independente no mundo, começa nesta quarta-feira (5) e tem um filme brasileiro na disputa. O longa “A Margem do Rio”, codirigido e escrito por Enock Carvalho e Matheus Farias, compete ao Leopardo de Ouro, o prêmio máximo da mostra. Os dois diretores representam o cinema pernambucano, que tem acumulado conquistas no Brasil e no mundo.
“A Margem do Rio” é o primeiro longa da dupla, que já realizou três curtas-metragens, premiados em vários festivais internacionais. Eles tinham acabado de finalizar o filme, rodado em 2025, e a seleção para o 79º Festival de Cinema de Locarno foi uma surpresa, conta Enock Carvalho em entrevista à RFI.
“Para a gente, esse é um festival que representa um berço do cinema de autor. Muitos grandes cineastas já passaram pela competição de Locarno e foram descobertos dentro desse festival, que inspira também a gente desde sempre. Ficamos muito felizes e, sendo o único filme brasileiro na competição, essa chance de apresentar ele para o mundo foi uma ótima notícia”, ressalta.
Em seus 80 anos de existência, Locarno sempre acolheu e acolhe o cinema de autor brasileiro. Mas, se vencer, “A Margem do Rio” será a terceira obra brasileira na história a receber o Leopardo de Ouro, depois de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, em 1967, e “Regra 34”, de Julia Murat, em 2022.
“Saber que existe essa possibilidade cria um certo frio na barriga. Mas eu estou desde já muito empolgado com a participação do filme na competição oficial. Independentemente de prêmio, eu tenho muito orgulho por estar representando Pernambuco e o Brasil nessa mostra”, diz Enock Carvalho.
Estreia mundial
Ao todo, 17 filmes, de vários países, estão na competição oficial do festival suíço. A estreia mundial de “A Margem do Rio” acontece em 11 de agosto. O longa, coproduzido pela Alemanha, é estrelado por Caique Copque e Ítalo Martins. O filme acompanha as aventuras secretas e noturnas de Izaquiel, um auxiliar de serviços gerais no Recife, pelos manguezais da cidade. Seu mundo vira de cabeça para baixo quando ele cruza o caminho de Jeremias, um pescador intrigante e magnético.
O encontro provoca no personagem “uma sensação muito única de desejo e de paixão. E aí, eles se veem em uma situação de muito perigo e violência”, revela o cineasta. A obra é um drama, um thriller e um filme queer, como outros trabalhos da dupla. Segundo Enock Carvalho, “A Margem do Rio” é um longa “muito pernambucano, muito brasileiro, porque reflete muito o Brasil contemporâneo e é uma história com um pé muito profundo na realidade”.
Cinema pernambucano
Ambientado no Recife, o longa tem também um clima de mistério e suspense, como vários filmes do premiado diretor Kleber Mendonça Filho, com quem, aliás, Enock Carvalho e Matheus Farias já colaboraram em várias produções. Carvalho reconhece que o trabalho do diretor de “O Agente Secreto”influenciou e influencia o cinema da dupla.
“Naturalmente, eu sinto que há uma contaminação muito positiva de energia e de tom também. Os filmes do Kleber inevitavelmente acompanham a nossa formação enquanto cineastas. E o contato com as obras do Kleber e de outros cineastas pernambucanos faz com que a gente tenha a pulsão para criar e para realizar nossos filmes. Eu acho que é uma coisa que está superconectada”, afirma Enock, salientando sua alegria de fazer parte desse movimento cinematográfico pernambucano que ganha cada vez mais visibilidade no exterior.
Outros filmes brasileiros em Locarno
Além de “A Margem do Rio”, o longa Hanabi, da brasileira Ana Vaz, também foi selecionado para a mostra “Cineastas do Presente” do Festival de Locarno. A produção franco-brasileira foi rodada durante 10 anos no Japão e aborda a transformação do país após o tsunami e o acidente nuclear de 2011.
Duas coproduções brasileiras também foram selecionadas. O argentino “Los Días Libres”, de Lucila Mariani, também integra a mostra “Cineastas do Presente”. Já “Piper Tiger”, o último longa do veterano cineasta independente americano James Gray, foi programado para as exibições ao ar livre na Piazza Grande de Locarno, a marca registrada do festival. O filme, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, será exibido no domingo, 9 de agosto. Antes da projeção, James Gray recebe um Leopardo de Ouro pelo conjunto de sua obra.
O Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, vai até 15 de agosto.
Clique no player acima para ouvir a entrevista completa de Enock Carvalho.
Wed, 05 Aug 2026 - 649 - Cantora Bruna Hetzel leva músicas do nordeste brasileiro aos clubes de jazz de Paris
Radicada na França desde 2022, a cantora potiguar Bruna Hetzel tem conquistado espaço em festivais e casas de jazz parisienses com um repertório que mistura MPB, influências nordestinas e o estilo gênero norte-americano. A artista, que também é antropóloga, falou sobre como suas origens no Rio Grande do Norte moldam sua identidade musical, sobre o desafio de apresentar a riqueza cultural brasileira ao público europeu e sobre seus novos projetos em Paris.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, Bruna Hetzel chegou à França há três anos. A mudança, motivada inicialmente por uma questão pessoal, acabou se transformando em uma nova etapa de sua carreira artística.
A estreia internacional do trabalho aconteceu justamente em território francês. Primeiro em Nantes, onde iniciou parcerias com músicos locais e participou de festivais regionais, e depois em Paris, onde passou a se apresentar regularmente em clubes de jazz e espaços culturais.
Mas a música é apenas uma das vertentes de sua trajetória. Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Bruna também atua como antropóloga, pesquisadora vocal e professora de canto. Segundo ela, essas experiências se refletem diretamente na sua carreira artística: “Todas essas áreas acabam influenciando e reverberando muito no meu trabalho”.
Diferença de público entre Brasil e França
A experiência de cantar na França também modificou sua relação com o palco. Segundo Bruna, o comportamento do público francês é bastante diferente daquele encontrado no Brasil. “Nós somos um povo bastante festivo, e as pessoas querem cantar junto, o corpo dança junto”, relata.
Já nos clubes de jazz franceses, a artista destaca a atenção dedicada à escuta. Nesse contexto, ela conta que sua formação em antropologia ganha ainda mais relevância. Antes de cada canção, ela costuma contextualizar a obra, apresentar seus autores e explicar as referências culturais presentes nas letras.
“Eles gostam de ouvir histórias”, afirma. “Mesmo que não entendam tudo o que a gente está cantando em português, ficam encantados em ouvir o contexto, fecham os olhos e mergulham naquela realidade”, descreve Bruna.
Nordeste como identidade artística
Bruna destaca que a cultura nordestina ocupa um espaço central em sua produção artística e busca ampliar a visibilidade de uma região frequentemente ofuscada pela imagem internacional concentrada no eixo Rio-São Paulo.
“O Nordeste é uma região importantíssima para o nosso país. Culturalmente, muito do que a gente ouve na nossa música, na culinária brasileira, na cultura brasileira como um todo, vem do Nordeste”, afirma.
Segundo a cantora, quem ouve sua música encontra não apenas influências rítmicas nordestinas, mas também elementos da paisagem, das cores e da atmosfera cultural do litoral potiguar. Como no clipe da música "Canto do Mar", do seu álbum "Canto Azul".
Lançado para celebrar seus dez anos de carreira, "Canto Azul" sintetiza essa busca por representar diferentes dimensões da música brasileira. O repertório reúne referências consagradas como Dorival Caymmi, Djavan, Joyce Moreno e Ivan Lins, além de compositores ligados ao Nordeste e de canções autorais.
Nova jam brasileira em Paris
Entre os projetos para os próximos meses, a cantora prepara uma iniciativa inédita em uma das mais tradicionais casas de jazz da capital francesa. Bruna foi convidada para coordenar uma jam session dedicada à música brasileira no Sunset Sunside, referência da cena jazzística parisiense, localizada na histórica Rue des Lombards.
"Estou tendo a grande alegria de colaborar com o Sunset Sunside e vou coordenar esse projeto, que é uma jam session de música brasileira", celebra a artista. A primeira edição está prevista para 20 de setembro e será dedicada à obra de Chico Buarque.
Além da nova jam session, a agenda da cantora inclui apresentações em festivais de verão na região parisiense, como Estivales Montrougiennes, no dia 4 de agosto, ao lado do músico francês Hugo Corbin, em uma homenagem à Bossa Nova.
Tue, 04 Aug 2026 - 648 - Em turnê europeia no teatro, Pedro Cardoso revela projetos de revisitar Agostinho Carrara na TV
Em turnê por cidades europeias com o monólogo "O Recém-Nascido", o ator e dramaturgo Pedro Cardoso usa o humor para abordar temas políticos e sociais. Em entrevista à RFI, o criador de personagens marcantes da televisão brasileira, como Agostinho Carrara, explicou que a peça nasceu de uma tentativa de compreender as origens do fascismo e do autoritarismo no Brasil. Para ele, certos comportamentos observados na política refletem impulsos infantis mal resolvidos que persistem na vida adulta.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
Conhecido pelo trabalho na televisão e por suas opiniões políticas nas redes sociais, Pedro Cardoso afirma que o teatro continua sendo seu principal espaço de criação artística. Em sua nova turnê europeia, ele apresenta "O Recém-Nascido", uma “comédia filosófica” construída a partir de uma pergunta inusitada: o que aconteceria se uma pessoa fosse capaz de se lembrar do próprio nascimento?
Segundo o ator, a peça faz parte de um conjunto de reflexões iniciadas em trabalhos anteriores sobre a ascensão do autoritarismo no Brasil. “Eu escrevi dois espetáculos de teatro, um que se chamava ‘À Sombra do Pai’ e esse outro, ‘O Recém-Nascido’, que são tentativas de reflexão a respeito da gênese desse fascismo no Brasil”, explica.
A ideia surgiu da observação de comportamentos políticos que lhe pareciam contraditórios. “Um dos aspectos que me espantava era ouvir pessoas dizerem: ‘Eles parecem umas crianças mimadas’. Aí eu percebi que havia uma dramaturgia interessante nisso, que era essa sobrevivência dos impulsos infantis dentro do homem adulto”, diz o ator.
Para Cardoso, o humor é uma ferramenta privilegiada para abordar questões complexas. Embora frequentemente seja visto como uma forma de expressão menor em comparação ao discurso acadêmico, ele acredita que a comicidade tem um papel essencial na compreensão da realidade.
“O humor é muito desprestigiado culturalmente. O modo de saber que tem valor cultural é o modo acadêmico, a intelectualidade, a erudição. E o humor é sempre considerado uma expressão popular. Historicamente, o humor foi retirado das esferas de poder e o poder passou a ser representado sempre pelo aspecto sério e cerimonioso das relações”, contextualiza. “O humor e o aspecto sério dos acontecimentos da vida são complementares.”
‘O Recém-Nascido’ reflete diferenças da infância no Brasil e na Europa
Embora o espetáculo dialogue com a realidade política brasileira, Cardoso diz que "O Recém-Nascido" é também sua primeira peça profundamente inspirada pela experiência de viver parte do seu tempo na Europa.
“Eu diria que é a primeira peça que eu escrevi sobre a Europa”, conta. “É muito sobre essa criança europeia que tem a sua infância abreviada e que é obrigada a ser um adulto antes de estar pronta para ser um adulto.”
Na visão do dramaturgo, a forma como as crianças são criadas em diferentes sociedades ajuda a moldar comportamentos na vida adulta. Segundo ele, a história social europeia produziu uma relação distinta com a infância.
“Na Europa, os adultos precipitam o fim da infância porque são eles que têm que tomar conta da criança. Eu acho que isso tem um preço altíssimo para a psicologia da pessoa”, avalia.
Teatro como ponto de encontro dos brasileiros
A recepção do espetáculo fora do Brasil também surpreendeu o ator. O que ele imaginava ser apenas uma circulação internacional de seu monólogo acabou se transformando em um encontro com comunidades brasileiras espalhadas pelo continente.
“Quando eu fui fazer a peça em Barcelona, aconteceu uma coisa que eu não imaginava. Tornou-se uma reunião comemorativa do Brasil”, relata. A experiência levou o ator a redefinir o sentido da própria turnê.
“Isso não é uma turnê internacional, isso é uma turnê nacional. Eu não vou jouer en français (atuar em francês), eu vou atuar em português", brinca. “Adoraria um dia fazer uma peça em francês, espanhol e inglês. Mas me agrada, no momento, recolher essas almas brasileiras espalhadas pelo mundo. Há uma diáspora brasileira”, diz Pedro Cardoso.
Agostinho Carrara pode voltar
Apesar da distância da televisão nos últimos anos, Cardoso revelou que existem conversas em andamento para revisitar Agostinho Carrara, personagem que marcou gerações na sitcom "A Grande Família". Segundo ele, a ideia discutida ao lado dos diretores e roteiristas Guel Arraes e Jorge Furtado seria imaginar como estaria o personagem nos dias atuais.
“A gente queria fazer um pulo no futuro do Agostinho”, conta. “Qual é a família brasileira hoje que não é mais aquela de ‘A Grande Família’? Tem uma nova família a ser retratada. E seria também uma forma de recuperar a alegria do personagem. Era realmente um personagem muito brasileiro, muito Macunaíma”, recorda.
O projeto ainda está em fase de negociação, mas o ator demonstra otimismo. “Há interesse lá da Globo, há interesse nosso, já há uma conversa adiantada e as coisas estão indo bastante bem”, afirma.
Leia tambémSucesso da televisão brasileira, Avenida Brasil estreia na França
Mon, 03 Aug 2026 - 647 - Brasileira cria produto inovador semelhante ao chocolate e dá nova vida a resíduos agrícolas
Ninna Granucci é uma brasileira radicada na França que vem chamando a atenção por transformar resíduos da agricultura em ingredientes alimentares de alto valor agregado. Cofundadora e presidente da Green Spot Technologies, a doutora em biotecnologia criou, em 2018, esta empresa de produtos em pó que podem substituir o chocolate, entre outros alimentos, com o objetivo de solucionar o grande volume de desperdício de alimentos gerado pela agricultura no mundo. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Europeu de Mulheres Inovadoras em 2022 e o de Pioneira na Ciência e Tecnologia da Iniciativa para Mulheres da Fundação Cartier em 2024.
Vitória Barreto, em Paris para a RFI
A Green Spot, instalada em Toulouse, no sul do país, desenvolveu um processo de fermentação que transforma resíduos agrícolas em ingredientes nutritivos e benéficos à saúde, que podem ser alternativas ao chocolate e pastas de diversos sabores.
Depois de concluir o mestrado em biotecnologia em Santa Catarina, Ninna Granucci foi fazer um doutorado na Nova Zelândia para desenvolver o projeto; lá, conheceu seus cofundadores, que a convenceram a abrir a empresa na França. A iniciativa atraiu investidores como o Banco Público de Investimento francês (BPI), entre outros, como recorda a empreendedora.
“Vimos um grande interesse da França como país em pensar a alimentação do futuro e o sistema de produção de alimentos. Entramos nas áreas de interesse do país e recebemos bastante investimento público.”
No caso do produto semelhante ao chocolate, a produção do ingrediente começa com a coleta de favas, cujos resíduos costumam ser descartados ou usados para nutrição animal e produção de energia. Na sequência, esses restos passam por um processo de fermentação, que Ninna considera ‘mágico’.
Ela explica que o método “retira o gosto meio amargo (do resíduo) e cria aromas quentes, que remetem ao aroma do chocolate”. O resultado desse processo é o Féverolat,produto que a empresa patenteou. Há três semanas, as trufas feitas com esse ingrediente inovador já fizeram parte de um jantar no Castelo de Windsor.
Embora a Green Spot não produza apenas doces, a empresa aproveitou a volatilidade do mercado de cacau para criar a marca de panificação e doces Milatea para atender às necessidades desse setor específico.
“O mercado era muito favorável, porque o preço do cacau disparou em 2025. (...) E aí a gente falou que a nossa tecnologia poderia resolver em parte isso.”
Ao lançar o produto, Ninna afirma que sentiu muita resistência da indústria, que demora, segundo ela, anos para aceitar um novo ingrediente.
“Somos uma empresa tecnológica de fermentação e, normalmente, quando falamos com algumas empresas de alimentos, elas acham que vai ser uma coisa meio Frankenstein de laboratório. Então criamos a Milatea para poder comercializar esses ingredientes,” explica Ninna Granucci.
A empreendedora brasileira revelou que, no fim do ano, um novo produto está por vir, ainda sem mencionar o novo sabor, mas adiantando que ele é ‘primo' do chocolate, um produto de preço extremamente volátil e produzido em regiões muito específicas, nas quais a empresa acredita poder contribuir para dar mais sustentabilidade.
Fri, 31 Jul 2026 - 646 - 'Pela primeira vez, as novas gerações poderão estar livres do HIV', comemora Roseli Tardelli
Na década de 1990, a jornalista Roseli Tardelli perdeu um irmão para a Aids. Ela recorreu à Justiça e ganhou o direito à cobertura do tratamento pelo plano de saúde. Desde então, engajou-se na luta contra o HIV. Fundadora da Agência de Notícias da Aids, ela participa, nesta semana, da 26ª Conferência Internacional de Aids, que ocorre no Rio de Janeiro até sexta-feira (31).
Vivian Oswald,correspondente da RFI no Rio de Janeiro
Esta é a primeira vez que a América Latina e o Brasil sediam uma conferência internacional desse porte para falar sobre HIV e Aids. Em entrevista à RFI, Roseli Tardelli aponta os avanços já anunciados e o que é possível esperar até o final do evento.
RFI : Como você avalia os debates até agora?
Roseli Tardelli : Do ponto de vista político, o fato de a conferência acontecer na América Latina talvez proporcione um novo olhar para a nossa região, o que é muito importante. O Brasil construiu, ao longo dessas quatro décadas, uma resposta bastante significativa quando falamos de HIV e Aids. Mas isso já não acontece em países como o Paraguai e o Peru. Precisamos ter uma resposta mais homogênea em nossa região.
Além disso, é a primeira vez que uma mulher preside a conferência: a doutora Beatriz Grinsztejn, uma pesquisadora muito importante da Fiocruz. A equipe da Fiocruz foi responsável pela pesquisa da PrEP (profilaxia pré-exposição).
RFI : O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que o Brasil não aceitaria pagar valores estratosféricos por medicamentos.
RT : O valor estratosférico ao qual o ministro se refere, trata-se, basicamente, de um medicamento chamado Lenacapavir. É uma medicação na qual, ao tomar a injeção a cada seis meses, o vírus não entra na corrente sanguínea. Ou seja, pela primeira vez, o mundo tem a possibilidade de quebrar a transmissão do vírus. Isso é muito importante. Só que está sendo difícil para o Ministério da Saúde trazer o Lenacapavir para o SUS porque, segundo o ministro, as negociações precisam continuar, pois os preços que a empresa – no caso, a Gilead – quer cobrar são estratosféricos. É preciso chegar a um preço compatível com o orçamento do governo brasileiro.
RFI :O Brasil é um mercado grande e pode servir de bússola na América Latina?
RT : Essa é a ideia. Não só na América Latina, como no mundo. Eliminar a transmissão sexual do HIV em um país que possui o SUS mostra ao mundo que é possível. Há outra medicação chamada Cabotegravir, da GSK. O Ministério da Saúde anunciou a compra e a solicitação de inclusão no SUS a partir deste mês, prevendo a distribuição até o final do ano. Foi o que o ministro falou em coletiva [de imprensa].
Essa capilaridade que o SUS traz é muito importante, pois o Brasil já oferece, desde 1996, antirretrovirais que impediram que as pessoas morressem. Eu assumi essa tarefa de trabalhar com informação, conectando-a à prevenção, porque perdi um irmão na década de 1990. Naquele momento, os planos de saúde não atendiam pessoas que viviam com HIV e Aids. Nossa família protagonizou uma discussão pública com o convênio, entramos na Justiça e a mídia foi nossa parceira. A Justiça, que nem sempre é tão justa, foi rápida conosco: ganhamos em primeira instância, eles recorreram, ganhamos em segunda instância e virou jurisprudência em 1996. O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou uma legislação determinando que os planos deveriam atender doenças pré-existentes. Por isso estou nessa luta desde então. Fundamos a agência em 2003 e estamos aqui cobrindo esta conferência.
RFI : O que significa ter uma medicação profilática?
RT : Significa que as novas gerações poderão estar livres do HIV. Isso é maravilhoso. Foi uma chance que a minha família não teve, que muita gente não teve. Temos um índice de 42 milhões de pessoas vivendo com HIV hoje no mundo. É muita coisa. Uma pandemia que existe há 45 anos. Está na hora de quebrar a cadeia de transmissibilidade do vírus, e nós temos essa condição com novas medicações.
Esses medicamentos precisam chegar às populações mais vulneráveis. Vou arriscar dizer uma coisa: todo mundo que faz sexo é vulnerável ao HIV. Tenho poucas amigas que usam camisinha, as mulheres principalmente. Na cidade de São Paulo, temos máquinas em cinco estações do metrô que fazem a dispensação de profilaxias pré e pós-exposição. Isso também está no SUS. Se você teve uma relação desprotegida e acha que pode ter contraído o HIV, tem até 72 horas para procurar um local específico de saúde. O Ministério da Saúde tem uma página que indica todos os lugares do Brasil onde encontrar a profilaxia pós-exposição. É importantíssimo que as pessoas saibam disso. Quando chegarem essas novas medicações injetáveis de profilaxia pré-exposição, será um avanço muito importante.
RFI :Esse é outro obstáculo: ter que dizer que está procurando o remédio.
RT : Estamos falando de tecnologias novas no século XXI. Mostramos tudo isso aqui na conferência. É muito interessante a evolução tecnológica, mas o que não evolui na mesma velocidade é o enfrentamento ao estigma e à discriminação. As pessoas que vivem com o vírus, infelizmente, ainda sofrem muito estigma e discriminação. Para quebrar isso, temos que falar mais sobre o fato de que somos todos vulneráveis: mulheres, homens, a população envelhecida.
Esses medicamentos precisam chegar onde são necessários. Temos agora essa pílula com um mês de duração, e a Merck assinou esse memorando de intenções hoje com o Ministério da Saúde. Então, acredito que, até o final do ano ou o ano que vem, o Brasil estará novamente na ponta quando falamos de prevenção. Isso é fundamental para que as novas gerações não precisem vivenciar a tristeza e a dor. A falta de acolhimento ainda existe no mundo, quando falamos de uma doença que não tem cura, mas tem prevenção.
RFI :A Fiocruz firmou uma parceria com a farmacêutica para produzir nacionalmente. Talvez isso ajude a baixar os preços?
RT :O Brasil pode ser um polo e distribuir para a América Latina e América Central. Para nossa sorte, a doutora Mariângela Simão, que foi vice-presidente da Organização Mundial da Saúde e coordenou a ação de dispensação de vacinas durante a Covid, esteve no Ministério da Saúde até este mês. O Brasil construiu uma resposta bastante significativa, e ela precisa ser mantida e ampliada. Saúde não se faz com negacionismo, saúde se faz com ciência.
Agora, em relação a essa questão, o que quero trazer para nossa reflexão é: gente, vamos falar mais sobre sexualidade e respeitar a sexualidade e a orientação sexual dos filhos.
Wed, 29 Jul 2026 - 645 - Alianças começam a definir a disputa presidencial no Brasil, avalia cientista político Gaspard Estrada
A poucos dias do encerramento do prazo para a oficialização das candidaturas às eleições de outubro no Brasil, as negociações para a formação de chapas e alianças entram em sua fase decisiva. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amplia sua capacidade de reunir apoios políticos, sobretudo no campo da esquerda, o campo conservador enfrenta dificuldades para consolidar uma frente unificada em torno de Flávio Bolsonaro. Para o cientista político Gaspard Estrada, da London School of Economics, o cenário da disputa começa a se desenhar.
Passada a fase das articulações de bastidores, a campanha entra agora em um momento de maior atenção por parte do eleitorado. Na avaliação de Estrada, as pesquisas refletem uma vantagem de Lula que se traduz também na capacidade de agregar apoios. “As pesquisas já estão mostrando justamente uma vantagem para o presidente”, afirma. Segundo ele, enquanto o chefe de Estado consegue unificar forças à esquerda, Flávio Bolsonaro encontra dificuldades para atrair os partidos de direita em torno de sua candidatura.
Essa dificuldade se manifesta em um contexto de divisões cada vez mais visíveis no campo conservador. Para o cientista político, recompor a direita será a principal missão de Flávio Bolsonaro nas próximas semanas. Estrada observa que o senador tenta construir uma imagem mais moderada, mas que as denúncias envolvendo seu nome, como as relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acabam produzindo dúvidas entre lideranças e partidos aliados. “Essas revelações, essas denúncias, elas estão revelando a verdadeira face do Flávio Bolsonaro, que é muito similar à do pai”, avalia.
O resultado, segundo o especialista, é um crescimento da desconfiança sobre o futuro político do candidato e uma tendência de setores da direita a optarem pela neutralidade.
Além das dificuldades nacionais, fatores locais também pesam nas negociações. Estrada destaca que lideranças partidárias estão cada vez mais condicionadas às realidades eleitorais de seus estados, o que nem sempre coincide com os interesses de uma candidatura presidencial. Ele cita como exemplo o caso de Ciro Nogueira, no Piauí, onde a necessidade de dialogar com eleitores historicamente ligados a Lula influencia os cálculos políticos. Para o pesquisador, essas “lógicas estaduais” acabam se tornando um obstáculo adicional ao projeto de Flávio Bolsonaro.
Eleição mais competitiva
Do lado governista, a construção dos palanques regionais avançou mais lentamente do que em disputas anteriores. Para Estrada, isso é um sinal de uma eleição mais competitiva. Embora reconheça que a disputa pelo governo de São Paulo permaneça desfavorável ao campo lulista, ele relativiza o impacto dessa situação, lembrando que o eleitor brasileiro já demonstrou, em outras eleições, disposição para dividir o voto entre candidatos de correntes políticas distintas. “Essa fórmula de o eleitor votar por candidatos de cores partidárias diferentes não é uma coisa nova no cenário político brasileiro”, observa.
Na leitura do especialista, a situação mais delicada para Lula não está necessariamente em São Paulo. Enquanto o presidente já conta com uma estrutura política mais consolidada naquele estado, Minas Gerais continua cercada de indefinições. “O quadro mais preocupante para o presidente Lula hoje é em Minas”, afirma Estrada, ressaltando que o cenário mineiro permanece aberto tanto para o campo governista quanto para a oposição.
O cientista político também chama atenção para a possibilidade de influência externa na disputa brasileira. Em sua avaliação, o governo dos Estados Unidos já demonstrou disposição para interferir no processo eleitoral e deve continuar atuando até a votação. Mais do que iniciativas oficiais, porém, ele aponta o papel das plataformas digitais como principal foco de preocupação.
Estrada lembra episódios ocorridos em outros países da região, marcados pela circulação massiva de desinformação, e alerta para o risco de fenômeno semelhante no Brasil. Nesse contexto, defende, caberá à imprensa reagir rapidamente para identificar e contextualizar eventuais campanhas de notícias falsas capazes de afetar o debate eleitoral.
Tue, 28 Jul 2026 - 644 - Universidade de Coimbra reforça presença no Brasil e aposta em inovação com empresas e Fiocruz
A Universidade de Coimbra vai ampliar sua atuação no Brasil com a abertura de uma representação própria em São Paulo, prevista para os próximos meses. Mais do que reforçar a captação de estudantes brasileiros, a instituição portuguesa pretende aproximar sua produção científica do setor empresarial e ampliar projetos de inovação e transferência de conhecimento, a exemplo da parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Luiza Ramos, da RFI em Paris
O vice-reitor para Inovação, Relação com Empresas e Empregabilidade da Universidade de Coimbra, Nuno Mendonça, afirmou à RFI que a iniciativa representa uma nova etapa da presença da universidade no país, voltada para o setor industrial e empresarial do Brasil.
“Já temos um centro de estudos superiores instalado na Casa de Portugal, em São Paulo, desde 2024 (...) Agora estamos realizando um reposicionamento. Na Casa de Portugal, estamos mais direcionados aos alunos e à parte formativa, mas a partir de setembro vamos trabalhar mais a parte da inovação e do ecossistema empresarial brasileiro”, disse o vice-reitor.
Para Mendonça, o Brasil oferece um ambiente estratégico para essa aproximação. “É uma evolução dessa presença em um mercado que é suficientemente grande e dinâmico”, pontua, “o termo correto é ampliação, um incremento daquilo que é a oferta da Universidade de Coimbra para o brasileiro como um todo”.
O acadêmico explica que o objetivo é colocar a pesquisa e os pesquisadores da Universidade de Coimbra em contato com empresas brasileiras.
Parcerias em saúde, agronegócio e tecnologia
O vice-reitor também destacou que a universidade quer aprofundar cooperações já existentes com instituições brasileiras em diferentes áreas econômicas. “Seja com a Fiocruz na área da saúde, seja com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) na área das petroquímicas, seja com o agronegócio, com o turismo ou com a economia azul”, enumerou.
A parceria com a Fundação Oswaldo Cruz é uma das mais antigas. Segundo Mendonça, a colaboração tem sido revitalizada nos últimos anos e envolve iniciativas concretas de pesquisa e inovação.
“Trabalhamos em formação conjunta, na introdução do medicamento antimalária produzido pela Farmanguinhos no mercado europeu por meio de Portugal, e avaliamos parcerias na área da radiofarmácia para uma oferta ao SUS (Sistema Único de Saúde)”, destacou.
Ele acrescenta que a experiência na área da saúde poderá servir de modelo para novas cooperações em outros setores da economia brasileira.
Troca de conhecimento em duas direções
Embora Coimbra seja tradicionalmente associada à formação de estudantes brasileiros, Mendonça destaca que a relação vai além da mobilidade acadêmica.
“O Brasil tem aqui um ecossistema singular que pode ser útil a toda a comunidade de países de língua portuguesa”, afirmou.
Segundo ele, o dinamismo econômico brasileiro e a experiência de empresas nacionais em inovação devido à proximidade com o mercado americano, também representam oportunidades de aprendizado para Portugal.
“Nós podemos nos beneficiar e aprender novos desafios e novas fronteiras de conhecimento que nos ajudem a desenvolver novas linhas de pesquisa”, disse.
“A maior universidade brasileira fora do Brasil”
Atualmente, cerca de 5 mil estudantes brasileiros frequentam a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa. O vice-reitor acredita que a nova estrutura em São Paulo poderá fortalecer ainda mais essa ligação histórica, sobretudo ao aproximar a universidade do setor produtivo brasileiro.
“Costumamos brincar que somos a maior universidade brasileira fora do Brasil. Existe uma ligação histórica muito forte entre Coimbra e o Brasil. Durante séculos, Coimbra foi a única universidade em todo o espaço lusófono. Sabemos que há um mercado em grande crescimento, com uma população jovem expressiva, o que pode nos ajudar a ampliar ainda mais o número de estudantes brasileiros”.
Para Mendonça, o crescimento da população jovem brasileira e o fortalecimento das parcerias acadêmicas e empresariais podem ampliar ainda mais a presença de estudantes brasileiros na instituição.
“Se trabalhamos com empresas do agronegócio que precisam de pesquisa, e se tivermos pesquisadores ou alunos de doutorado brasileiros que possam aprender conosco e levar esse conhecimento de volta para o Brasil, isso será uma contribuição importante para o desenvolvimento econômico”, concluiu.
Fri, 24 Jul 2026 - 643 - Castelo medieval no interior da França vira palco para festival de música brasileira
O que poderia parecer improvável se tornou realidade pelas mãos do francês Louis de Survilliers: juntar música brasileira a um castelo medieval do século 13 no interior da França. O Festival Quat'Sos Bossa & Jam mistura bossa nova, MPB e jazz em um ambiente medieval e intimista com vinhos da região de Bordeaux nos dias 24 e 25 de julho em La Réole, cidadezinha de cerca de 5 mil habitantes.
O idealizador do evento é um músico francês de 33 anos, que passou parte da infância no Brasil, experiência que deixou marcas profundas em sua formação e ajudou a moldar o projeto. O cenário escolhido para o festival também tem um significado especial: o Château des Quat'Sos pertence à sua família e foi recuperado pelos pais há alguns anos.
"Eu sempre sonhei em montar um festival em volta da música brasileira", conta Louis de Survilliers. Para ele, o encontro entre um monumento histórico e a música brasileira cria uma identidade única. "É a parte interessante do festival. Essa mistura da Idade Média com a música brasileira faz surgir um evento com uma identidade peculiar".
A programação da terceira edição reflete justamente essa ideia de encontro entre culturas. Louis, que também se apresenta no festival com o projeto Louis na Bossa, explica que a maioria dos artistas convidados faz parte da cena musical que frequenta em Paris.
Festival reúne diferentes gerações da MPB
O resultado é um cartaz que reúne diferentes gerações e estilos da música brasileira. Na sexta-feira, sobem ao palco Louison Camio, a cantora paulistana Nanná Milano e o músico brasileiro Sidney Rodrigues, violonista radicado na França há mais de duas décadas e conhecido por seu trabalho entre a MPB, a bossa nova e o jazz.
No sábado, a programação continua com Louis na Bossa, seguido pelo trio franco-brasileiro Nácar, que explora a fusão entre tradições afro-indígenas do Nordeste brasileiro e música eletrônica contemporânea. As duas noites terminam com uma jam session, proposta que ocupa um lugar central na filosofia do festival.
"A ideia sempre foi dar uma visão global do Brasil, mostrar a cultura brasileira na sua diversidade", explica o organizador. "As jam sessions permitem que artistas de universos diferentes se encontrem, toquem juntos e criem justamente essa mistura."
Relação com a música brasileira
A relação de Louis com a música brasileira vem da infância. Filho de uma família ligada à música clássica, ele cresceu ouvindo os sons descobertos pelos pais durante os anos vividos no Brasil.
“Eu venho de uma família de músicos clássicos. A minha tia é pianista, eu fiz conservatório, canto lírico. Quando meus pais descobriram a música brasileira, foi uma revelação para eles. Essa relação com a música brasileira vem desde quando eu era menininho”, conta Louis.
“Sempre escutei música brasileira. É algo que faz parte de mim e procuro transmitir ao público, por meio da minha arte, a minha visão da música brasileira", diz. Para o músico, a força da música brasileira está justamente na capacidade de reunir características aparentemente contraditórias.
"A música brasileira é uma mistura de sofisticação com simplicidade, talvez, porque a música brasileira consegue ser simples ao mesmo e, ao mesmo tempo, super complexa. É uma música muito alegre, mas que é triste também porque tem aquela coisa da saudade. A música brasileira não é só do gosto dos franceses, é uma música universal”, destaca.
Além dos concertos, o público poderá aproveitar vinhos da região de Bordeaux, food trucks e uma atmosfera intimista que diferencia o evento dos grandes festivais de verão.
O Quat'Sos Bossa & Jam acontece nos dias 24 e 25 de julho, com abertura dos portões às 19h e início dos concertos às 20h, no Château des Quat'Sos, em La Réole. Os ingressos custam € 15 para um dia e € 20 para os dois dias do festival e podem ser encontrados nas redes sociais do Château des Quat'Sos.
Wed, 22 Jul 2026
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